Luz perpétua

Luz perpétua

Lâmpada veterana brilha há 113 anos e garante aos novinhos eletrônicos que não para tão cedo

Diego Moura , ESPECIAL PARA O ALIÁS

11 Outubro 2014 | 16h00

Nove metros separam do chão a lâmpada mais antiga ainda em funcionamento no mundo. Pendurada no teto do Quartel Número 6 dos bombeiros da ensolarada Livermore, Califórnia, ela começou a brilhar em 1901 - e não parou mais. Está até no Guinness: já são mais de 890 mil horas de vida, devendo superar 1 milhão em junho de 2015. Para os pouco mais de 80 mil habitantes da cidade, trata-se, como diriam por aqui, de coisa da providência divina. “Essa lâmpada representa a esperança, a luz, tudo de positivo que você puder imaginar”, pontifica o gráfico Steve Bunn, de 59 anos, dono do site Centennial Bulb (Lâmpada Centenária), desde o ano 2000 dedicado à vida da lâmpada teimosa. “Tem padres aqui que a usam em sermões. Dizem que, assim como Jesus é a luz do mundo, essa é a luz de Deus, que brilhará para sempre”, ele exemplifica. 

Contra força tão poderosa, não há Nobel de Física capaz de competir. Essa semana os japoneses Isamu Akasaki, Hiroshi Amano e Shuji Nakamura foram agraciados com o prêmio da academia sueca pelo desenvolvimento do LED, em 1990. Uma revolução em termos alumiantes: o LED é 25 vezes mais durável e até 80% mais econômico do que uma lâmpada incandescente comum e a Prefeitura de São Paulo acaba de anunciar planos de usá-lo em todos os postes da cidade, numa substituição estimada em R$ 1,8 bilhão. Mas, em termos simbólicos, a luzinha japonesa não passa de uma sombra perto da lâmpada eterna de Livermore.

Ela foi fabricada em 1898 pelo francês Adolphe Chaillet, em Shelby, Ohio. Propagandeada como a "melhor de toda a Terra", sucumbiu tempos depois diante de rivais menos duráveis, porém mais econômicas. O produto desperdiçava mais de 90% de sua energia em calor. Em 1900, um exemplar foi entregue à companhia de eletricidade e abastecimento de água de Livermore e, um ano depois, doado ao corpo de bombeiros local. Desde então, a lâmpada mudou de lugar quatro vezes: duas em 1901, uma em 1906 e a última em 1976, quando a desligaram por 22 minutos. Na ocasião houve até um cortejo de moradores, com escolta policial, até o quartel dos bombeiros, onde ela permanece hoje, acanhada ao lado de duas daquelas lampadonas compridas e frias de escritório. 

O lugar, bem alto e distante das mãos humanas, é estratégico. Ali ela já enfrentou até terremoto, sempre acesa, como contou Tom Bramell, de 66 anos, ex-chefe dos bombeiros e atual guardião da lâmpada. Mas, até ser posta em segurança, jazia perto demais do chão, bem no meio do caminho. Quando os bombeiros saíam correndo para atender a emergências, esbarravam perigosamente nela - que, apesar dos trancos, não quebrou. Nem apagou. 

Sua longevidade, aliás, ainda carece de explicações. Estudos realizados em 2008 e 2009 por pesquisadores americanos apontaram como causa a qualidade do filamento. Enquanto as lâmpadas mais modernas usam o tungstênio, Chaillet apostou numa substância derivada da celulose que, quando aquecida, se tornava carbono puro. “Era tão compacto e forte que se aproximava da dureza de um diamante”, disse Bramell.

Em 2001, os livermorenses comemoraram o centenário da lâmpada com uma festa de parar a cidade. Famílias às pencas saíram às ruas para ver os desfiles dos veteranos luminosos e exposições multitemáticas sobre a peça de Chaillet. Mas 12 anos depois um novo susto abalou a tranquilidade dos aficionados pela lâmpada. Em 20 de maio de 2013 a luz centenária emitiu o que parecia ser seu último brilho. Nove horas e meia depois, encontraram o problema, e não era com ela: o gerador de eletricidade que a mantinha viva dera chabu. “Então veio o medo”, recorda Steve Bunn. “Porque, normalmente, quando uma lâmpada fica acesa por muito tempo, apaga e volta a acender, queima. Mas não foi o que aconteceu.” Quando morreu, a pequena notável de Livermore emita luz correspondente a 4 watts, praticamente uma vela de cemitério. Na ressurreição, brilhou com potência 15 vezes maior. Com o tempo, voltou a minguar e minguante continua. Hoje, não ilumina um palmo à frente do nariz.

Da vez em que escureceu pela falha no gerador, uma porção de mensagens de lamento entupiu a caixa de e-mails do gráfico Bunn. Uma delas vinha de um militar americano em missão no Ártico. “Ele estava muito chateado. Contou que passaria os próximos três meses no escuro por causa do inverno. Nossa lâmpada era a única luz que lembrava sua casa”, disse Bunn, orgulhoso. É que, em 2001, os bombeiros passaram a transmitir imagens da lâmpada em tempo real, por uma webcam. Desde então, a lâmpada centenária já enterrou três câmeras. A quarta que se cuide.

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Diego Moura é aluno do Curso Estado de Jornalismo

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