Lemyr Martins
Lemyr Martins

1961 esta noite

Repórter relembra os dias de tensão, rádio e propaganda em que Brizola se entrincheirou no ‘porão da legalidade' para defender a posse de Jango

Lemyr Martins, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2015 | 06h00

O movimento Golpe nunca Mais, lançado essa semana pelo ex-ministro Ciro Gomes, associado ao governador Flávio Dino (PC do B), do Maranhão, contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff, pretende reviver um capítulo político-militar histórico: a Rede da Legalidade com que Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, levantou o Brasil, em 1961, pela posse do cunhado João Goulart à Presidência da República, revidando a tentativa de golpe dos ministros militares e políticos oposicionistas.

O que os golpistas daquela época não imaginavam, quando decidiram impedir que o vice-presidente João Goulart assumisse a presidência após a enigmática renúncia de Jânio Quadros, é que enfrentariam obstáculo tão forte e determinado no governador gaúcho. Brizola armou-se do microfone da Rede da Legalidade, uma emissora de rádio montada no subsolo do Palácio Piratini – que se transformaria no Porão da Legalidade –, e chegou a ser retransmitida por 104 prefixos nacionais, muitos sul-americanos, e referida nas vozes internacionais da BBC inglesa e da Deutsche Welle na Alemanha e Holanda.

Como fotógrafo do gabinete de imprensa do governo, documentei o esquema de guerra montado por Brizola. Eu tinha só 24 anos, duas Rolleiflex, filmes 6x6, um flash eletrônico e um topete de Elvis Presley. Guardo ainda bem nítidos na memória os primeiros enquadramentos que fui enxergando através da câmera no telhado do Palácio Piratini. Os ninhos de metralhadoras eram impressionantes. Muito fotogênicos, as armas com enormes pentes de balas, mas de eficiência duvidosa na tarefa de nos proteger do bombardeio que o governador golpista Carlos Lacerda, do Estado da Guanabara, anunciava também através do rádio. Vivíamos dúvidas mortais: aquelas velhas armas checas, da década de 30, não emperrariam com o calor do fogo constante? As espoletas, armazenadas havia tantos anos, detonariam? Mas poucos sabiam da precariedade do nosso arsenal. A tática era tirar o máximo proveito do fator psicológico da aparência do armamento – e aí entravam minhas fotografias.

Nas imagens das barricadas e trincheiras guardadas pelos soldados da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, o clima era de definitiva e inexpugnável resistência. Um grande efeito moral visual sustentando os dramáticos e desafiadores discursos de Brizola contra o trio militar do golpe: o general Odílio Denys, ministro da Guerra, o almirante Sílvio Heck (Marinha) e o brigadeiro Grün Moss (Aeronáutica). Eu buscava fotos “patrióticas”, que depois, com os aeroportos patrulhados, eram enviadas por caminhoneiros do PTB para serem publicadas em São Paulo pelo Estado e no Rio por Correio da Manhã, Jornal do Brasil e Última Hora.

Brizola fazia dois discursos diários ao vivo, um vespertino e outro noturno, para uma multidão de até 30 mil pessoas (que o porta-voz do PTB insistia que beiravam os 100 mil), comprimidos na praça e nas cercanias do Palácio Piratini. E a guerra do rádio estava sendo vencida pelo governador. Do Porão da Legalidade, ao microfone, Brizola incitava sargentos a tomarem os quartéis sob controle da Junta Militar e se mostrava cada vez mais agressivo e contundente contra os militares golpistas, que ele chamava de gorilas. Até revólveres Taurus calibre 38 ele mandara distribuir aos jornalistas e funcionários que davam plantão no Palácio. O meu guardo até hoje, como relíquia da Legalidade.

Aquelas noites de agosto foram de suspense e marcadas pela guerra de rumores. Com exatidão, só se sabia que o deputado paulista Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara, assumira a presidência da República depois de decretada a vacância do cargo pelos ministros militares. Mazzilli, que não esquentou o trono, recebeu o apodo de “presidente modess”: branco de medo e colocado num lugar crítico para evitar derramamento de sangue.

Do Rio de Janeiro, do Palácio do Catete, surgiu a notícia de que os militares golpistas haviam recebido a adesão do comandante do Terceiro Exército: José Machado Lopes, um general desconhecido até então, que tinha comando sobre as tropas gaúchas, catarinenses e paranaenses, embarcaria para Brasília depois de demover Brizola da resistência. Na manhã de segunda-feira, 27 de agosto de 1961, fui posto de plantão para fotografar o encontro de Brizola com o Machado Lopes. Enfim aconteceria o momento histórico que eu aguardava ansioso, com muitos filmes no bolso e duas Rolleiflex penduradas no pescoço. Seríamos todos presos? O encontro foi bem formal.

– Como está o senhor, general?, adiantou-se Brizola.

– Bem, senhor governador, respondeu Machado Lopes, apresentando os generais do seu Estado Maior. Ele vinha comunicar que era a favor da Constituição, portanto um aliado da Legalidade.

Claro que Brizola não ia perder aquela magnífica chance de anunciar ao mundo – aproveitando as presenças das agências Associated Press, France Press, United Press e Prensa Latina – que o “glorioso Terceiro Exército não recebe mais ordens dos gorilas”.

O 29 de agosto amanheceu calmo. Às 6 horas fui fazer minha revista fotográfica e deparei com soldados e oficiais da Brigada sorvendo o chimarrão democraticamente. O que não previ é que uma das fotos dos brigadianos com a cuia na roda de chimarrão fosse publicada num jornal de Los Angeles, que descrevia a cena como um “ritual do doping usado pelos rebeldes”. Começava então a nervosa “operação regresso”.

Jango, que estava na China representando o governo Jânio Quadros, partiu de Pequim e depois de várias escalas, por Los Angeles, Lima, Santiago, entre outras, chegaria a Montevidéu. Buenos Aires, uma das escalas previstas, saiu da rota porque o ditador Juan Domingos Perón tinha sido hostil à aterrissagem de Jango em território argentino.

Fui enviado à embaixada do Brasil, no Uruguai, para, na comitiva de jornalistas, escoltar Jango no voo que o traria de Montevidéu a Porto Alegre. Minha missão era captar uma foto de impacto, vigorosa, que simbolizasse resistência e motivasse a posse de Goulart. Tentei todo tipo de foto. Mandava os flashaços a cada gesto de Jango, mas nada de impacto, pois, apesar das circunstâncias, Jango mantinha o seu comportamento passivo usual.

Quase na partida para Porto Alegre tive um lampejo extrafotográfico: entreguei uma folha de papel da embaixada a Jango e pedi ao presidente que escrevesse uma mensagem ao povo brasileiro. Ele pegou a folha de papel, a minha caneta e, com o costumeiro cigarro no canto da boca, e na falta de melhor apoio, usou as minhas costas para escrever esta mensagem:

“Aos companheiros que lutam pela legalidade nos porões do Piratini, um abraço do Jango.”

Não fiz a foto encomendada, mas trouxe a primeira mensagem do novo presidente à nação. O parágrafo virou placa e foi afixada na Sala de Imprensa do palácio do governo.

A Legalidade então começou a ficar divertida. Estávamos livres do bombardeio clamado por Lacerda. A ameaça de ataque vindo do porta-aviões Minas Gerais foi desmentida, pois ele nem sequer zarpara da Baía da Guanabara. Na verdade, a revolução perdia a ameaça de confronto militar e passava ao terreno político. Lacerda, Carvalho Pinto (São Paulo), Magalhães Pinto (Minas Gerais), governadores contrário à posse de Jango, ainda conspiravam junto aos militares.

O anúncio da chegada de Jango a Porto Alegre provocou as mais curiosas adesões à legalidade. A Federação Feminina de Bolão do Rio Grande do Sul, as candidatas a Miss Objetiva e as concorrentes a Mais Bela Comerciária se somavam ao realistamento dos pracinhas da FEB e à gauchada dos Centros de Tradições Gaúchas. Gremistas e colorados consolavam-se com o cancelamento do Grenal de agosto e iam agitar as suas bandeiras em frente ao Palácio Piratini. Brizola não perdia o fôlego e reiterava que o golpe não seria dado pelo telefone. “Não daremos o primeiro tiro, mas o segundo e o último serão nossos”, ele sempre repetia.

A Legalidade mexeu também com a culinária gaúcha. Restaurante próximo ao Palácio substituiu o carreteiro à Camões, que era servido com um ovo frito sobre o arroz com charque, pelo à Brizola, com três ovos, pelos mesmos 45 cruzeiros. Era tanta vontade de ajudar que houve algumas confusões. O Hino da Legalidade, por exemplo, com versos da poetisa Lara de Lemos em parceria com o ator Paulo César Pereio, foi acusado de plágio pela dupla campeira Osvaldinho e Zé Bernardes, popularíssima na época, que reivindicavam a “moda” como de sua lavra.

Após Jango chegar a Porto Alegre e render-se ao parlamentarismo, o movimento da Legalidade esfriou nas ruas. Mas esquentou no Palácio. “Vamos evitar uma guerra fratricida”, ele disse, ao certificar-se de que a emenda à Constituição de autoria do deputado gaúcho Raul Pilla, engavetado no parlamento desde a Constituinte de 1946, tinha sido aprovada às pressas pelo Congresso, sob pressão dos militares para limitar os poderes do novo presidente.

A decisão de Jango de não resistir decepcionou Brizola. As discussões ríspidas entre os cunhados ecoou na ala residencial do Palácio Piratini. Foram bate-bocas acalorados, próximos do rompimento. Jango aceitou o arranjo político e viajou para Brasília na companhia de Tancredo Neves, enviado dos militares a Porto Alegre, para costurar o acordo.

Embarquei no Caravelle que levou Goulart à capital federal e fui fotografando os murmúrios de Jango e Tancredo Neves, sentados nas primeiras poltronas do avião. Jamais esquecerei a passividade com a qual Jango ouvia de Tancredo, seu futuro primeiro-ministro, as condições impostas pelos militares à sua posse.

Em Porto Alegre, Brizola encerrava a Rede da Legalidade com um alerta: “Os golpistas não desistiram, deram uma trégua. Mas continuarão conspirando contra o Jango. O povo brasileiro deve ficar em alerta para que a democracia não seja golpeada”. Ele sabia o que dizia. E hoje, 54 anos depois, sou capaz de ouvi-lo em alguns momentos em que Ciro Gomes abre a boca.

LEMYR MARTINS É JORNALISTA E FOTÓGRAFO. CATARINENSE DE MAFRA, TEM 78 ANOS E TRABALHOU NO JORNAL DA TARDE, NO ESTADO, NAS REVISTAS PLACAR E QUATRO RODAS. COBRIU SEIS COPAS DO MUNDO E 304 GPS DE FÓRMULA 1

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