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60 anos depois

Escritor imagina como estaria hoje o personagem Pedro Páramo, de Rulfo: chefe do tráfico no México

Juan Pablo Villalobos, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2015 | 16h00

Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal Pedro Páramo. Minha mãe me disse. E eu prometi que viria vê-lo quando ela morreu.

*

Íamos ladeira abaixo, ouvindo o barulho surdo do motor da caminhonete que se despencava como se estivéssemos indo para o inferno.

- Olha, compadre - disse o chofer - Vê aquele morro? Agora olhe para o outro lado. Vê esse outro morro? E agora olhe lá no fundo e para trás, até onde alcança a vista. Pois tudo isso é a área que Pedro Páramo controla.

- Parece que está tudo abandonado.

- Não vive ninguém aqui.

- E Pedro Páramo?

- Faz muitos anos que mataram Pedro Páramo.

*

Era a hora em que a as crianças deveriam estar brincando nas ruas, mas nesse povoado não havia nenhum ruído. Olhei as casas vazias, invadidas pelo mato, os tiros nas paredes, marcas de incêndios e de explosões. Cheguei a uma casa. Havia uma mulher. Disse que eu entrasse e atravessamos um corredor cheio de volumes.

- O que é tudo isso? - perguntei.

- Coisas - respondeu -, tenho a casa cheia de coisas que deixaram os que foram embora, disseram que iam voltar, mas nunca voltaram.

- Essas coisas são de Pedro Páramo?

- Essas não - disse, apontando à direita, onde havia caixas empilhadas com metralhadoras -, essas são dos que estavam contra Pedro Páramo.

- E estas? - perguntei, apontando onde havia uns pacotes de plástico preto, embrulhados como pacotes de droga.

- Estas são de alguns que antes andavam com Pedro Páramo e depois não estavam mais, passaram para o lado dos Zetas ou nem sei mais qual. Aqui há coisas até dos soldados e dos federais, que saíram correndo no último ataque.

- Que bagunça!

- O mesmo inferno.

*

- O que é que está acontecendo?

A mulher sacudiu a cabeça como se despertasse de um sonho.

- É a caminhonete de Miguel Páramo, que anda para cima e para baixo.

- Então alguém mora aqui?

- Somente a caminhonete que vai e vem. Eu fui a primeira a tomar conhecimento na noite em que ele morreu. Já estava deitada quando escutei o barulho da caminhonete e então ouvi que batiam na minha janela. “O que aconteceu com você?”, perguntei, porque jorrava sangue e estava cheio de balaços. “Não sei”, respondeu, “não lembro de nada”. “Você deve estar morto, Miguel”, disse-lhe, “amanhã teu pai vai se retorcer de dor e vai querer vingança, você sabe quem te meteu os tiros?”. “Quem poderia ser?”, ele disse, “são tantos atirando que desconfio até das pedras”.

*

Este povoado está repleto de ecos. Quando você anda ouve rangidos, risos, latidos de cachorros, a música de uma festa. E vozes:

- Estão esperando o carregamento na fronteira, o que vamos dizer a Pedro Páramo?

- Chegaram uns novos querendo cobrar vinte por cento, mas eu disse que já demos para Pedro Páramo, de onde vamos tirar mais dinheiro?

- Don Pedro, derrotaram o Tilcuate. Chegaram uns feridos a Comala. Disseram que eram das Autodefensas e que tiveram muitos mortos. Parece que encontraram com alguns que dizem que agora estão por conta própria.

- A Família, os Zetas, os da Nueva Generación, agora todo mundo vem pra cá, Pedro Páramo já não controla nada.

- E agora para quem vamos pedir armas, então?

*

Estava muito cansado, como se a alma tivesse caído no chão e eu não tivesse forças para erguê-la. Pedi licença à mulher. Ela disse que deitasse onde quisesse e desapareceu numa nuvem de pó. Deitei num canto no chão.

- Não me ouve, mãe?

- Onde está você?

- Estou aqui, no teu povoado, com tua gente, onde você queria que eu viesse.

- É melhor você levantar do chão, os vermes vão te comer aí. 

Fiz um esforço e quando me dei conta já estava de pé, leve e como se meu corpo não pesasse nada.

- Filho, por que você está cheio de balas?

/TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

JUAN PABLO VILLALOBOS, AUTOR MEXICANO, ESTÁ LANÇANDO O LIVRO TE VENDO UM CACHORRO (COMPANHIA DAS LETRAS)

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