Calixte Dakpogan/CAAC/Pigozzi Collection
Calixte Dakpogan/CAAC/Pigozzi Collection

A África é o novo polo da arte contemporânea

De Porto Novo a Paris: artistas africanos exibem uma amostra vibrante de obras provocadoras e lúdicas na capital francesa

The Economist, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2017 | 16h00

Antes da 1.ª Guerra, os artistas que mais despertavam entusiasmo eram franceses; nos anos 1990, eram chineses. Agora o novo polo da arte contemporânea é a África. Quem esteve na abertura da Bienal de Veneza, em maio, pela primeira vez pôde visitar um pavilhão nigeriano; três dias depois, a Sotheby’s realizou seu primeiro leilão de arte contemporânea africana. No fim de setembro, o empresário alemão Jochen Zeitz inaugurará o tão aguardado Zeitz MOCAA, museu que o arquiteto britânico Thomas Heatherwick projetou na orla marítima da Cidade do Cabo, reaproveitando a estrutura de um complexo de silos de grãos inativos. Aqueles que estiverem muito impacientes para esperar até lá têm a opção de correr para o Bois de Boulogne, em Paris, onde a Fondation Louis Vuitton (FLV) inaugurou recentemente duas das exposições mais incríveis de artistas africanos que a cidade já viu.

Para a primeira delas, Être Là (Estar lá), a diretora artística da FLV, Suzanne Pagé, selecionou 16 artistas da África do Sul. Muitas das obras são inquietantes, assustadoras e agressivas — como seria de se esperar, tendo em vista que se trata da produção de uma geração cada vez mais frustrada com um país que não consegue corresponder às promessas do pós-apartheid.

A segunda, Les Initiés (Os Iniciados), é mais surpreendente. Baseada numa coleção de Jean Pigozzi, filho e herdeiro do fundador da antiga montadora francesa Simca, a retrospectiva tem como ponto de partida o ano de 1989, quando começavam a chegar ao fim os conflitos por meio dos quais a Guerra Fria reverberava na África, e a tecnologia, sob a forma de telefones celulares e internet banking, estava prestes a oferecer aos africanos maior controle sobre seu dia a dia. A exposição combina humor e inventividade: são máscaras espirituosas, feitas com objetos domésticos coletados ao acaso por Romuald Hazoumé, do Benin, artista cuja obra David Bowie colecionava; esculturas de cidades idealizadas e coloridas, criadas por Bodys Isek Kingelez, da República Democrática do Congo; esculturas de inspiração mágica, realizadas com espinhos de porcos-espinho por John Goba, de Serra Leoa; e máscaras faciais hilárias, como Oba 2007 (foto), feitas por Calixte Dakpogan, também do Benin, com contas, canetas, cortadores de unha e fios coloridos de cabelo sintético que o artista vai encontrando enquanto caminha pelas ruas de Porto Novo, sua cidade natal. Aqui, só a imaginação é páreo para o vigor e a ousadia, desmentindo a noção de que a África é um continente de trevas./Tradução de Alexandre Hubner

Mais conteúdo sobre:
Arte Bienal de Veneza África

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.