Galeria Agial Beirut/The Economist
Galeria Agial Beirut/The Economist

Arte que nasce da destruição

Diversos artistas vêm explorando, de diferentes formas, a destruição de patrimônios culturais e vidas humanas

The Economist, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2017 | 16h00

Para os artistas, os atos de guerra e o iconoclasmo muitas vezes funcionam como um chamamento às armas, inspirando manifestações criativas de revolta e dissensão. Ao longo dos últimos 50 anos, vários artistas contemporâneos criaram obras poderosas, cuja gênese está na destruição. São trabalhos que questionam o significado e o impacto das perdas, tanto em se tratando de patrimônios culturais, como de vidas humanas.

Alguns reagem à destruição com destruição. Nascido em 1957, Ai Weiwei cresceu em meio à Revolução Cultural chinesa. Período negro na história da China, durante o qual inúmeros locais e artefatos históricos foram alvo de ações destrutivas, a Revolução Cultural encontra eco irônico nos gestos iconoclásticos do próprio artista. Ai cobriu vasos neolíticos com tinta sintética e fotografou a si mesmo deixando cair no chão uma urna de 2 mil anos da dinastia Han. Também concebeu esculturas em que utiliza destroços de casas e templos demolidos. Suas obras invariavelmente chamam a atenção para destruição do patrimônio chinês, a um só tempo questionando e enfatizando o valor da história.

Outros artistas preferem prestar homenagem ao patrimônio cultural desaparecido, promovendo sua ressurreição simbólica. Esculpidos na encosta de uma montanha, os dois Budas de Bamiyan chegavam, respectivamente, a 35 e 53 metros de altura, até que o Talibã os dinamitou em 2001. Em 2015, Janson Yu e Liyan Hu projetaram hologramas tridimensionais, em tamanho natural, nas cavidades vazias que antes os abrigavam. O casal chinês doou o projetor para o governo afegão, que com o aparelho agora pode oferecer alívio periódico para as feridas físicas, emocionais e simbólicas deixadas pela ação dos fundamentalistas islâmicos.

As respostas artísticas à destruição nem sempre são bem-vindas, especialmente quando envolvem a perda de vidas. A escultura Tumbling Woman (Mulher Caindo) foi a resposta do americano Eric Fischl aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Ao ser exibida pela primeira vez, em 2002, a obra foi alvo de protestos tão violentos que uma semana depois acabou sendo recolhida. Trata-se da figura de uma mulher que, tendo se atirado de uma das Torres Gêmeas, tem seu corpo esmagado ao chocar-se com o chão. Alguns acharam a obra apelativa. Outros a consideraram um tributo à coragem de uma mulher que decide escolher como morrer; para esses, a escultura de Fischl era uma alegoria da dignidade humana.

Como não poderia deixar de ser, a destruição de patrimônios culturais pelo Estado Islâmico (EI) na Síria e no Iraque provocou uma onda de respostas artísticas. No início deste ano, a artista libanesa Ginane Makki Bacho realizou uma exposição em Beirute, apresentando 200 esculturas feitas com sucata (Civilização, na Agial Art Gallery, de Beirute, foto acima). Batalhões de tanques e blindados transportam prisioneiros enjaulados, envergando uniformes cor de laranja, enquanto homens munidos de marretas e picaretas demolem estátuas de valor inestimável. Bacho descreve a exposição como o protesto de uma mulher muçulmana que repudia a maneira como o EI associa ao Islã seus atos de crueldade bestial e seu iconoclasmo.

Morehshin Allahyari criou uma série de esculturas que exploram “as relações poéticas entre a impressão 3D, os plásticos, o petróleo, o tecnocapitalismo e a jihad”. A artista iraniana imprimiu 12 pequenas réplicas de artefatos destruídos pelo EI; colocou no interior de cada uma delas um pen drive contendo fotos, arquivos e documentos antigos com informações sobre a peça original. Em fevereiro, disponibilizou na internet as pesquisas que realizou para criar as obras.

A ideia não é apenas rechaçar a destruição promovida pelo EI, mas também avaliar criticamente os projetos de impressão 3D encabeçados por empresas americanas e britânicas, que pretendem “reconstruir” monumentos desaparecidos, como o Arco do Triunfo de Palmira, reproduzido por arqueólogos britânicos em 2016 e exibido em Londres, Nova York e Dubai. “É uma coisa problemática, porque o Reino Unido e os EUA são parte dessa crise, são parte desse caos, e agora se apresentam como se fossem os homens civilizados, os heróis brancos que querem a salvar essas coisas da ação dos povos do Oriente Médio, dos muçulmanos, esses selvagens que estão destruindo tudo”, diz Allahyari. “Esse não é apenas um projeto de reconstrução arquitetônica. Não é apenas um gesto político. É algo que vem com todas essas camadas de símbolos e metáforas e relações emocionais e poéticas.”

O esgarçamento de tais relações receberá atenção ainda maior graças a Michael Rakowitz: sua resposta à destruição provocada pelo EI ocupará o quarto plinto de Trafalgar Square entre 2018 e 2019. Trata-se de uma estátua de quatro metros de altura do lamassu — um touro alado, com cabeça de homem, representando uma divindade assíria —, que de 700 a.C. a 2015 protegeu a antiga porta de Nergal, em Nínive.

A obra faz parte de uma série de trabalhos em andamento, intitulada “o inimigo invisível não deveria existir”, que o artista americano de ascendência iraquiana começou a realizar em 2007, em resposta aos saques de que foi alvo o Museu Nacional do Iraque. Até o momento, o artista reconstruiu 700 objetos de uma lista com 7 mil artefatos destruídos ou roubados. Rakowitz se concentra na destruição do patrimônio cultural iraquiano para se referir indiretamente à perda de vidas humanas, utilizando embalagens de alimentos comercializados no Oriente Médio e jornais publicados em árabe para distinguir suas esculturas das peças originais. Seu lamassu é feito de latas vazias de mel de tâmara. “Ninguém vai conseguir reunir novamente as famílias que foram despedaçadas por mortes e imigrações forçadas”, diz ele. “Quero poder falar disso e mostrar que só o que nós conseguimos reproduzir são fantasmas. E um fantasma, embora possa oferecer algum consolo, também pode assombrar.” Combater o iconoclasmo de grupos como o Talibã e o EI por meio da arte é uma maneira engenhosa de manifestar resistência. Essas novas obras funcionam simultaneamente como monumentos e como uma rejeição simbólica a ideologias que, ao fetichizar a morte e a destruição, ignoram o poder e a necessidade da criatividade.

 

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