ACERVO PESSOAL NIELS ANDREAS/AE
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A bala da vez

Casos de bala perdida no Rio e em São Paulo fazem professora lembrar do drama que viveu

Izabella Borges-Barrot, O Estado de S. Paulo

07 Fevereiro 2015 | 16h00

O Rio ferve na manhã de 27 de janeiro. São somente 7 e 15 e o sol carioca já vem, impávido, invadindo toda a cidade. Bendito seja o Rio, penso eu, eterno cartão postal. E é nesse clima de encantamento, ou de esquecimento, que ligo o rádio da cozinha, quase feliz, para ouvir uma informação aparentemente banal, mas que cai sobre mim como uma sentença: adolescente de 16 anos é atingido por um tiro no Complexo do Alemão. Como um efeito que surge simultaneamente com sua causa, minha barriga começa a doer, minhas costas queimam, ânsia de vômito e de medo se confundem nas minhas tripas dilaceradas, elas também, por uma bala perdida.

Praça do Jóquei, 24 de junho, domingo, são 5 da tarde e passeio por entre as barraquinhas da feira de antiguidades do bairro. Subitamente, o céu nublado que anuncia o inverno, penso eu naquele momento, preenche-me de uma leve angústia. Agora sei que essa angústia era, de fato, um alerta premonitório. Imediatamente sinto um choque no alto da perna direita e uma enorme dor na barriga me faz cambalear. Olho para meu corpo, olho para minha perna e barriga e não vejo sangue algum. Não ouço nada, nem explosão, nem gritos, muitos menos o som do impacto da bala entrando pela minha barriga. A esperança é a última que morre. Quase sorrindo, digo para mim mesma ao mesmo tempo que desmaio: não é nada, é só um susto, certamente uma pedra que ricocheteou. Mas, de fato, eu era o alvo, carne quente atraindo a pólvora, mais um corpo atingido e estendido sobre as pedras portuguesas da Cidade Maravilhosa. Não sei dizer se, naquele momento, senti medo ou dor. Ou medo e dor. Só sei que pensei na minha filha de 5 anos, seu rosto me veio como num sonho, ela sorria e me abraçava. E, estendida no chão, pensei que minha hora tinha chegado. Soube tempos depois que um antiquário amigo me socorreu, jogando-me no banco de trás de um táxi cujo ponto era na frente dos bares do Baixo Gávea. Lembro-me vagamente da chegada ao Hospital Miguel Couto, da correria no saguão, da dor e da morfina. Lembro-me também de ouvir um dos médicos dizer que seria necessária uma colostomia, a bala tinha atravessado todas as dobras do meu intestino, tornando impossível sua simples retirada. Tive uma crise nervosa ao ouvir essas palavras e do fundo de mim mesma resgatei energia suficiente para pedir, para suplicar, implorar, que não por favor, não fizessem aquilo comigo não. Que me deixassem morrer, morrer, disse eu inúmeras vezes, ou fizessem como pudessem, mas, por favor, deixassem meu corpo íntegro. Os médicos me ouviram. O dr. Ricardo, cirurgião plantonista do Miguel Couto na época - que acabara de voltar da Chechênia, para onde tinha ido a fim de se especializar em ferimentos feitos por armas de guerra -, me ouviu. Fui operada imediatamente. Quase dez horas de operação. Fragmentos dos ossos da bacia, estraçalhada pelo impacto da bala, haviam atingido meu rim direito. Hemorragia interna. Septicemia. Coma. A morte veio, agora eu sei, ela veio me visitar, acho até que veio me buscar, mas decidiu ficar ali alguns dias, deitada ao meu lado, no leito gelado do CTI, antes de mudar de ideia. Talvez tenha sido o amor que eu sentia e sinto pela vida que a tenha espantado. Saí do CTI pesando menos de 40 quilos e fui direto para a enfermaria do mesmo hospital. E de lá pensei que não sairia viva. Mas saí. Éramos 16 mulheres dividindo o mesmo espaço. Conviviam ali recém-operadas esperando vaga para cirurgia como membros de uma mesma comunidade. Eu era o caso mais grave e elas me ajudaram muito. Foram elas que me contaram o que acontecera comigo: um policial, uma arma em cada punho, havia aberto fogo, em plena tarde de domingo, contra dois rapazes que tentavam roubar um carro, desarmados. E eu fui a bala da vez.

Muitos anos já se passaram desde esse terrível “acidente” - é assim que me refiro a essa macabra experiência, o “acidente” -, e muita coisa aconteceu na minha vida desde então. Continuo, claro, a sentir dores, muitas dores por vezes, e a precisar de cuidados médicos. Quanto ao mundo “de fora”, recebi inicialmente de “conhecidos” da zona sul muitos olhares do tipo “isso só acontece com quem merece”, e também ouvi, e ainda ouço, comentários cretinos como “esse é o preço de morar no Rio”, como se tivéssemos que pagar com nossas vidas o preço da irresponsabilidade dos homens e mulheres políticos ou da ausência de políticas públicas de segurança eficientes. Continuo igualmente a ter pesadelos nos quais sou enxotada de casa por policias sarcásticos e armados até os dentes e que me ameaçam apontando armas para a minha barriga que, desde então, é “tatuada” com uma cicatriz que vai do púbis até o coração. Dores, preconceito, medo, cicatrizes no corpo e na alma. Essa é a herança perversa deixada às vitimas de bala perdida no Brasil. E esse menino, de apenas 16 anos, que será que vai herdar? E as 13 pessoas baleadas no Rio nos últimos dias, qual será, se sobreviverem, o futuro delas? E que podemos nós fazer para que essa guerra acabe? Que posso eu fazer, para que essa dor se cale? A dor de saber que, ontem mesmo, um bebê de 10 meses foi morto, ele também, alvo de mais uma bala? Eu, que mal pude, ouvindo o rádio pela manhã, deixar de sentir novamente na própria carne o horror de tais violência e injustiça, ainda que alheias. Resistir? Sim, resistir, tentando ser feliz num corpo em pedaços. E talvez também escrever, entre outras coisas, sobre essa horrível experiência. Como um lamento, um grito, um protesto contra a dura realidade da minha cidade perdida. 

IZABELLA BORGES-BARROT É TRADUTORA, MESTRE EM LITERATURA BRASILEIRA NA SORBONNE E PROFESSORA DA SCIENCES-PO, EM PARIS

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