RADU SIGHETI | REUTERS
RADU SIGHETI | REUTERS

A cara racial da crise das gerações

A Universidade não existe para fazer caridade nem para adestrar seus estudantes nos truques e técnicas da ascensão social

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

21 Março 2016 | 06h00

Abrindo a temporada de caça na universidade, com o início das aulas na USP, um grupo invadiu um dos auditórios do prédio de Geografia e História. Ali estava sendo ministrada a aula magna de abertura dos cursos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas deste ano. Eram jovens, recitavam um bordão alusivo ao quilombo de Palmares, exigiam cotas raciais e acusavam os presentes na conferência de serem brancos e racistas. A USP já tem um programa de inclusão, que concede um bônus de 15% sobre a nota obtida na primeira fase por alunos oriundos da escola pública, mais 5% para os que são negros. Depois de uma hora de bate boca, a aula inviável teve que ser cancelada.

O grupo tinha maioria de moças, vários eram brancos, muitos mulatos e alguns pretos. Queria que a aula magna fosse sobre cotas raciais. Diversos não são alunos da Faculdade e outros ainda não são universitários. Entraram porque encontraram aquela porta aberta. Na classe média, a crise de gerações tem, neste momento, uma cara racial.

Teriam conseguido facilmente viabilizar sua demanda se tivessem dirigido, em tempo, uma sugestão nesse sentido à Congregação da Faculdade. Na impossibilidade óbvia de enegrecer um dos professores brancos da escola, para atender a exigência de que fosse negro o orador, a Congregação poderia convidar um de seus professores propriamente negros, que os há, ao contrário de tudo que foi gritado.

O próprio docente impedido de realizar a conferência, conhecedor do tema que é, poderia fazer fundamentada exposição sobre as três diferentes escravidões da história do Brasil, e não apenas a negra, suas características e suas sequelas, acentuando a escravidão por dívida, a chamada peonagem, que se estende até os dias de hoje, geralmente de brancos e pardos, raramente negros. Nos anos 1970, só na Região Amazônica, o Brasil teve ao menos 200 mil cativos, comprados e vendidos, sujeitos a tronco e chibata, eventualmente, até à morte, em caso de fuga e captura. Ele poderia ter falado, ainda, sobre sua experiência nas Nações Unidas, na Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão. Há hoje, no mundo, cerca de 27 milhões de escravos, principalmente na Ásia e na África, mas também na América Latina. É um dos grandes e rentáveis negócios da economia contemporânea. Poderia falar da persistente escravidão na África, em que etnias negras ainda capturam negros de outras etnias, para escravizá-los.

O orador poderia narrar sua experiência como coordenador que foi da comissão federal que, na Secretaria dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça, preparou em 2002 o Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil e Escravo. É um conjunto de propostas de emendas constitucionais e leis para acabar com a escravidão no Brasil e punir devida e severamente traficantes e beneficiários do trabalho escravo.

Teria sido um modo de ajudar os manifestantes a superaram as palavras de ordem estereotipadas e sem fundamento histórico. Aliás, a Faculdade de Filosofia da USP tem uma história de dedicação aos estudos sobre relações raciais e preconceito entre nós, nos trabalhos marcantes de Roger Bastide e de Florestan Fernandes e de seus discípulos e sucessores.

A produção científica da Universidade sobre o tema não chegou aos principais interessados, os negros. Tampouco chegou ao conjunto da população, numa sociedade marcada por preconceitos diversos, dos quais o de cor é apenas um. Os manifestantes exibiram claro desconhecimento de sua própria história e de um conjunto extenso de fatos e estudos relativos às adversidades de mais de século na emancipação do negro. Os manifestantes não invadiram a sala para ouvir, mas principalmente para não ouvir, para calar e desaprender.

A USP, a Unesp e a Unicamp vem se empenhando em recrutar negros e outros estudantes oriundos da escola pública. O fato mais auspicioso é que negros, por seu próprio esforço, têm aumentado sua presença nas Universidades. No vestibular da Unesp, de dois anos atrás, negros que recorreram ao benefício das cotas foram aprovados com notas que lhes teriam permitido o ingresso na Universidade mesmo que tivessem recorrido ao regime normal. Esse é o resultado de uma história social de valorização da escola pública, laica e gratuita. A opção pela gratuidade e pelas ações afirmativas assegura que essas Universidades possam recrutar e acolher talentos e inteligências das diferentes camadas da sociedade e de seus diferentes grupos sociais e étnicos, que é o que interessa.

A Universidade não existe para fazer caridade nem para adestrar seus estudantes nos truques e técnicas da ascensão social. A função da Universidade é preparar mulheres e homens, brancos, negros, indígenas e os mestiços que somos, pobres e ricos, de talento, dando ao País um elenco numeroso de cientistas, educadores e profissionais do conhecimento de que a nação carece para se desenvolver, econômica, social e politicamente, até para ser justa com todos.

O fato

mais auspicioso

é que estudantes negros,

por seu próprio esforço,

têm aumentado sua presença nas universidades públicas

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