Nilton Fukuda
Nilton Fukuda

A construção de Aleijadinho

Como os modernistas descobriram e moldaram a percepção do escultor Antônio Francisco Lisboa

Silviano Santiago, Colaboração para O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2017 | 05h00

Há duas figuras de Aleijadinho na obra de Mário de Andrade. A primeira delas ganha corpo em 1919, quando lhe bate o desejo cristão de visitar o poeta Alphonsus de Guimarães em Minas Gerais. Mário narra a viagem na revista A Cigarra (1º/8/1919). Escreve que o poeta simbolista vivia então retirado no seu solitário refúgio da episcopal Mariana, a Católica. Mário avalia o trabalho escultórico e arquitetural de Aleijadinho como correlato ao expressionismo germânico na arte religiosa do Brasil colonial. Que se leiam os quatro ensaios que escreve e publica na Revista do Brasil, no ano de 1920.

Se relidos hoje, o leitor descobrirá também que o olhar crítico de Mário estava então conformado pelas ideias passadistas do arquiteto português Ricardo Severo. Por ser defensor de ideal político contrário ao regime republicano laico, Severo (Lisboa, 1869 - São Paulo, 1940) se exila no Brasil na década de 1910. Instala-se em São Paulo, casa-se com a irmã de Santos Dumont e é apadrinhado pela Revista do Brasil. Torna-se eminência parda em matéria de arquitetura colonial e pré-modernista.

Em cartas e artigos de Mário, datados do início dos anos 1920, há referências concretas ao chamado “movimento neocolonial” em arquitetura, calcado na retomada dos riscos das nossas cidades históricas, idealizadas a partir do modelo metropolitano. Inspiradas por Severo, referências semelhantes se encontram também nos desenhos feitos pelo jovem arquiteto Lúcio Costa durante a viagem que faz a Diamantina em 1920. 

A segunda figura de Aleijadinho se esboça em 1927 e se torna definitiva em 1930. Difícil traçar sua gênese. Talvez tenha sido inspirada pela crítica radical que o arquiteto ucraniano Gregori I. Warchavchik fez às ideias retrógradas de Ricardo Severo. Warchavchik é quem divulga entre nós o futurismo lecobursiano. Certo é que, em janeiro de 1927, Mário deposita o primeiro manuscrito de Macunaíma na gaveta e, ao fazer hora para a releitura crítica da rapsódia, escreve carta ao mineiro Carlos Drummond. Tinha ouvido um passarinho cantar o nome “Bretas” associado a Aleijadinho e, despertada a curiosidade, quer saber mais sobre ele.

Na carta, o mestre paulista não pede favor ao mineiro. Dá-lhe ordens. Não posso deixar de transcrever trechos da troca de cartas entre Mário e Carlos Drummond para que o leitor perceba que é a ignorância do primeiro, somada à do segundo, que em 1927 ajuda os chamados modernistas a redesenharem a figura de Aleijadinho. Logo o transformarão em mito, alicerce, por sua vez, da sólida construção do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) durante o regime Vargas. Que o leitor se delicie primeiro com as surpreendentes imprecisões de linguagem e de informação contidas nas cartas de Mário e de Carlos.

Escreve o mestre ao discípulo mineiro: “Tenho um favor pra pedir pra você. Você vai fazer o impossível pra ver se me arranja aí um livro ou folheto sobre o ‘Aleijadinho’ dum fulano chamado Rodrigo José Ferreira Bretas, aparecido talvez por 1858. Primeiro vá aí na Biblioteca Pública ver o que é. Não tem pressa mas tem importância. Com paciência talvez você descubra algum exemplar. Pergunte pra todos os conhecidos. Papel de fuinha. E mande dizer o preço que mandarei o arame. Ciao”.

Responde o zeloso discípulo: “Fui direitinho à Biblioteca Municipal cavar o tal livro ou folheto de Rodrigo Bretas sobre o Aleijadinho, mas não achei nada pelo motivo muito simples de não ter livro nem folheto desse sujeito sobre o assunto. Perguntando ao doutor Mário de Lima, ex-diretor do Arquivo, e sabedor de coisas sobre Aleijadinho, fiquei sabendo que o trabalho do Bretas é um simples artigo publicado num jornal de Ouro Preto, em 1858, e transcrito nas Efemérides mineiras, de Xavier da Veiga. Estas Efemérides estão esgotadas”.

Feito o trabalho de casa, o poeta mineiro não se dá por vencido. Quebra o galho para satisfazer a vontade do mestre. Volta à Biblioteca Municipal e copia a lápis, do exemplar do Diário Oficial de 1858, os Traços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa, de Rodrigo José Ferreira Bretas. Calculo que nos dias de hoje a cópia a lápis conste dos arquivos de Mário de Andrade depositados na USP.

Dou por encerrada a comédia das imprecisões de linguagem e de informação e retomo o fio da curiosidade e da descoberta. O fulano chamado Rodrigo Bretas, autor de um simples artigo, é na verdade o primeiro biógrafo de Aleijadinho e ilustre bisavô do mineiro Rodrigo Melo Franco de Andrade, futuro criador do SPHAN, e pai do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, por sua vez realizador do filme Os Inconfidentes (1972). Para escrever a biografia pioneira, Bretas apoia-se em duas fontes: no texto escrito em 1790 por Joaquim José da Silva, vereador de Mariana, e no depoimento que lhe concede Joana, casada com o filho natural de Aleijadinho.

Seguramente, foi Manuel Bandeira o passarinho que em 1927 cantou o nome Bretas para o Mário informado por Ricardo Severo. Ao final da década de 1920, o poeta pernambucano vinha se interessando pela preservação das velhas residências coloniais no Recife. Nada de copiá-las em atitude neocolonial. Restaurá-las, sim, com dignidade. Eis o ideal que virá a inspirar a personagem de Sônia Braga no filme Aquarius (2016). Na crônica “Velhas igrejas”, Bandeira observa primeiro que “tinham transformado a velha capela barroca num detestável gótico de fancaria!”, para ao final afirmar em contraste: “As ruínas apenas entristecem. Uma restauração inepta revolta, amargura, ofende”.

Ainda em 1928, o poeta pernambucano publica na revista Ilustração Brasileira a crônica “O Aleijadinho”, onde não só oferece ao leitor o melhor resumo da biografia escrita por Rodrigo Bretas, como também lhe informa sobre a admiração que nutre pelo bisneto do autor mineiro e seu contemporâneo. Note-se que Manuel Bandeira amplia para o plano da ignorância coletiva a simples desinformação bibliográfica prevalente na cena literária e cultural da nação. Escreve o poeta que a ignorância grassa em todos os brasileiros e principalmente nos que, especialistas em história e arte, deveriam ter dedicado tempo, pesquisa e estudo a Aleijadinho. E continua: “nada se tem feito senão repetir o que escreveu Bretas. Estudo propriamente não existe nenhum sobre o homem que foi, inegavelmente, o maior arquiteto e estatuário que já tivemos. Na Europa um artista como o Aleijadinho teria dado motivo a toda uma biblioteca”.

Homem, biografia e obra. Nas entrelinhas de perfil biográfico do escultor, confessadamente calcado em Bretas, o autor do irreverente poema “Pneumotórax” assenta seu juízo crítico sobre a arte de Aleijadinho. Observa inicialmente que o diminutivo aleijadinho, antes de ser estigma, dignifica e exalta a saúde física e a força moral do homem e do artista. Transcrevo esta passagem da crônica que coloca Bandeira no panteão em que figura Euclides da Cunha, autor do belo perfil do “grande homem pelo avesso” que é o Antônio Conselheiro: “O homem a que o diminutivo aleijadinho se aplicou nada tinha de fraco nem pequeno. Era, em sua disformidade, formidável. Nem no físico, nem no moral, nem na arte, nenhum vestígio de tibieza sentimental. Toda a sua obra de arquiteto e de escultor é de uma saúde, de uma robustez, de uma dignidade a que não atingiu nunca nenhum outro artista plástico entre nós”.

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