Kenzo Tribouillard/AFP
Kenzo Tribouillard/AFP

'Contra-História da Filosofia' ganha sexto volume

Série do francês Michel Onfray propõe visão alternativa ao pensamento filosófico, destacando epicuristas, hedonistas e ateus

Rodrigo Petrônio*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

11 Março 2017 | 16h00

Michel Onfray está chegando à marca dos cinquenta livros. Tem se destacado por tornar acessível ao grande público os principais debates da filosofia. Seja por meio de suas aulas na internet. Seja pelos seminários que oferece na Universidade Popular de Caen, que criou em 2002, é gratuita, sem requisitos acadêmicos e oferece cursos em diversas áreas das humanidades. Contra-História da Filosofia é um dos melhores caminhos para compreender sua obra. A recente publicação de As Radicalidades Existenciais pela WMF Martins Fontes, sexto volume dessa empreitada que conta até agora com mais de 2 mil páginas, acrescenta uma nova camada ao mosaico de referências de Onfray. 

Como sintetizar esses seis volumes? A centralidade conferida a Platão e a Aristóteles gerou uma matriz idealista da filosofia. A ascensão do cristianismo como religião oficial do Estado com Constantino (século 4) apenas agravou essa situação. Essa matriz cristã-idealista promoveu todas as exclusões e inclusões ao longo da história.

Onfray propõe uma contra-história alternativa ao idealismo a partir de três princípios: o epicurismo, o ateísmo e o hedonismo. Epicuro seria o fundador de uma das primeiras teorias materialistas da Antiguidade. A Academia de Platão venceu. Vedou o acesso do corpo e da mente aos Jardins de Epicuro. Epicuristas como Filodemo de Gádara, Diógenes de Enoanda e mesmo o enorme Lucrécio têm suas obras destruídas ou indexadas. Os materialistas cirenaicos (da escola de Cirene) são proibidos. Muitas sabedorias antigas, como o cinismo, são proscritas. Os atomistas Leucipo e Demócrito têm suas cosmologias ridicularizadas. Hiparco, Antífon, Aristipo e Anaxarco são reduzidos a caricaturas pelos detratores. O pensamento medieval precisa ser reconstruído. Contra Agostinho, os gnósticos: Simão, Basilides, Valentino, Carpócrates, Epifânio e Cerinto. Contra a patrologia grega e latina dos fundadores da Igreja, os iluminados, as beguinas (místicas leigas) e os ascetas: Amauri de Bena, Willem Cornelisz de Antuérpia, Bentivenga de Gubbio, Walter de Holanda, João de Brno, Heilwige de Bratislava. Contra Tomás de Aquino, o panteísmo cristão de Scotus Eriúgena. 

A linha de argumentos é clara. Assim como os epicuristas antigos defendiam o espírito livre, muitos autores medievais defendem o Livre Espírito, doutrina cristã formalizada por Joaquim de Fiori no século 12. O problema é que quase todos foram proscritos pelo cânone idealista. Paradoxalmente, graças a essa corrente subterrânea houve Renascimento: Lorenzo Valla, Marsílio Ficino, Erasmo, Rabelais, e, sobretudo, Montaigne. A essência dessa nova luz? A releitura das teorias materialistas e hedonistas antigas. 

Para compreender essas sucessivas obstruções às teorias hedonistas, os séculos 17 e 18 ocupam um lugar de destaque. Surgem nesse intervalo autores que são, simultaneamente, epicuristas e cristãos. São os libertinos. Conciliam mundo material e fé sobrenatural. Saint-Évremond, La Mothe Le Vayer, Charron, Gassendi e o gênio Espinosa. Preparam o Iluminismo radical. Mas a modernidade tampouco abdica do idealismo e do purismo. 

Mais uma vez, os historiadores incluem Voltaire, Diderot, Rousseau. Incluem deístas e teístas, racionalistas e moderados. Ignoram o gênio fulminante do barão ateu D`Holbach, autor de uma vasta obra em todas as ciências. Lançam pás de cal sobre a cosmologia maquínica de La Mettrie. Deturpam o furor do padre Meslier, para Onfray o primeiro defensor de um ateísmo integral na história da filosofia. Diminuem a importância de Helvétius e de Maupertuis, precursores da ciência experimental e do utilitarismo inglês. O idealismo continua operante na filosofia moderna. Às margens dessa marcha vitoriosa, os utilitaristas ingleses e os diversos socialismos renomeiam os sentidos políticos e metafísicos do prazer: Godwin, Bentham, Mill, Owen, Fourier, Bakunin. O princípio do prazer buscado por esses autores passa a se traduzir em eudemonismo (viver bem) coletivo. 

A partir do século XIX, hedonismo e eudemonismo se unem. Cria-se uma aliança entre estética (vida como arte) e ética (vida como liberdade). Essa é a premissa do ateísmo hedonista de Onfray. As Radicalidades Existenciais aprofundam analisam a natureza, o nada e eu a partir de Thoreau, Schopenhauer e Max Stirner. Seguindo Foucault, Onfray não diz o que foi dito. Revela o interdito. Eviscera o que fora interditado. Por isso, a figura do oximoro (unidade dos opostos) atravessa a obra. Estamos sempre diante de sujeitos fraturados. A crença privada e a vida pública não coincidem. São ateus e cristãos, judeus e pagãos, reacionários e libertários. Caso exemplar: Sade. 

Na contramão da crítica do século 20, Onfray se aproxima Pasolini. Considera Sade um perfeito fascista. Nem por isso o exclui. Ele representaria a dimensão mais profunda do oximoro e das contradições. Se hedonismo é prazer, o prazer não é apenas gozo. Se fosse, nossa negatividade, ou seja, nossa humanidade nos seria confiscada. Onfray aposta na dialética sutil dos modos do prazer. O prazer é sensação. E também é controle da sensação: ataraxia. 

Onfray é um excelente escritor. As vidas e ideias de cada autor são narradas com desenvoltura. Em uma prosa autoral e vigorosa. Demonstra grande conhecimento das fontes primárias, ou seja, leu as obras dos autores, por mais áridas que sejam. Não se contentou em vampirizar comentadores. Quando abandona a descrição dos autores e passa a argumentos gerais, recai em simplificação. Vemo-nos diante de uma batalha de hedonistas versus idealistas. Nesse caso não nos convence. Platão, Aristóteles, Descartes, Kant e Hegel não foram vitoriosos por causa de uma mera superestrutura cristã ou idealista. Tornaram-se canônicos por causa do valor imanente de suas obras.

A despeito desse dualismo, Onfray acaba por fazer um excelente trabalho de difusão de autores pouco conhecidos. Esse é um aspecto brilhante de sua obra. Não apenas defender os prazeres do corpo e dos sentidos. Sobretudo compartilhar e difundir os prazeres da palavra e do pensamento. Um projeto ateu, hedonista e generoso. 

*Rodrigo Petrônio é escritor, filósofo, doutor em Literatura Comparada pela Uerj e professor da Faap

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