DREW KELLY/THE NEW YORK TIMES
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A distância ideal

Entre espaços de vivência coletiva e território privado, cohousing pode ser exercício de democracia direta e visceral

Maria Lucia Homem, O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2015 | 16h00

Em certo momento da sua obra, Schopenhauer fez uso do dilema dos porcos-espinhos para abordar um dos grandes impasses da vida humana. Num inverno glacial, animais estavam morrendo sem parar. Os porcos-espinhos foram ficando cada vez mais próximos para, com o calor de seus corpos, tentar sobreviver. No entanto, ao se unirem, começaram a se espetar uns nos outros, terminando por se ferir. Assim, precisaram se afastar. Mas o frio era insuportável e a morte, certa. Aproximaram-se novamente, talvez com mais cautela do que da vez anterior. Ainda se espetavam. Separaram-se. E dessa maneira foram se aproximando e se afastando até encontrar o ponto em que a fonte da vida e a potência de se destruírem estivessem em um equilíbrio suportável para a coexistência.

Essa fábula traz uma pergunta a ser refeita cada vez que se constrói uma aliança, seja ela entre dois ou 2 milhões de seres: qual a distância ideal entre mim e você? Entre o um e o outro? Quanto de individualidade e quanto de partilhamento?

Já temos maturidade - e sofrimento - suficientes para recusar os extremos: o hiperindividualismo é solidão e fragilidade. A hipercoletivização é fascista e artificial. Tentamos estar felizes com uma casa só minha ou da minha família (família cada vez menor e cada vez mais conjunto de indivíduos com vidas paralelas), com meia dúzia de devices para cada um, incluindo aí telefone, tablet, computador, game, televisão, quarto e banheiro. No meu espaço. Ou, posição contrária e dialética, recusamos o individualismo “burguês” e nos pensamos fora do eixo padrão, formando coletivos orgulhosos de compartilhar roupa, celular, mulher. Como se o impulso primordial a ser e ter algo próprio fosse uma alienada submissão à ideologia da propriedade privada. Como sair, então, dessas armadilhas pendulares? 

Com pilares na experiência comunitária da unidade produtiva e social que foi o kibutz na Palestina desde os anos 1920, o pós-guerra começou a gestar a ideia de mesclar o público e o privado no interior da própria instituição casa. Um tanto de família, um tanto de sociedade. No início dos anos 1970, a Dinamarca foi pioneira na experiência de cohousing: um conjunto de casas relativamente simples privilegiando um amplo espaço coletivo, em que o jardim, a cozinha e a lavanderia fossem de todos. Também os carros, as bicicletas, as ferramentas. E, sobretudo, os processos e as funções, como o cuidado com as crianças e os velhos, as atividades de lazer, algumas refeições e a maioria das festas e feriados.

De lá para cá, o cohousing se difundiu, sobretudo no norte industrializado e global onde o declínio das famílias ampliadas pré-modernas, a maior circulação de dinheiro e a difusão da técnica tinham alicerçado a crescente capilarização da individualidade. Uma forma de coabitar que vem se replicando e buscando novos formatos. Como uma casa de oito quartos na megalópole paulistana em que moram regularmente dois casais, um deles com um bebê, um pai divorciado e sua filha, uma mãe que recebe os filhos em guarda compartilhada, três singles: 11 pessoas entre 0 e 63 anos. Pequena comunidade multietária, de vários estilos, classes sociais, estados civis, profissões, gêneros. Enfim, a multiplicidade da vida ela mesma. “Pan”, como diz J., da cohousing de oito quartos. Ou “o segredo é saber que tem o meu, o teu, o nosso”, como diz A., da mesma cohousing. 

Se várias formas de pactos afetivos vêm se constituindo, ampliamos agora o imaginário para diversas formas de habitar. A casa com pais, filhos, cachorro? Pode ser. No entanto, a casa unitária da família nuclear moderna passará a ser apenas uma configuração. Seja em qual formato for - um apartamento de três quartos, uma casa grande, um terreno geralmente no subúrbio com várias casas individuais -, o cohousing, dada sua própria estrutura plural, é núcleo em torno do qual orbitam várias outras células, como os filhos, familiares e amigos não fixos. 

Em quais espaços materializar essas diferentes proporções e intensidades de agrupar humanos? Naquela que for se corporificando neste tempo e neste espaço. Sem estamentos a priori. Claro, conflitos pipocam: como não havê-los? São conversados e reconversados. As regras postas e votadas. As contas são feitas e ponderadas a cada situação, refeição e metragem. Os trabalhos são entre voluntários e distribuídos. Quem gosta mais de planta fica com o jardim; aquele com a manutenção básica; aquela com as finanças. Como a ordem se mantém e circula aí? Sem chefes ou caciques, ao menos deliberados. Nas palavras do cohouser K., “não há liderança, e sim referência”. O exercício da democracia direta. Diretíssima e visceral. 

Enfim, inventamos outras formas de fixação, mobilidade, poder e representação que parecem se tornar mais vivas no exercitar contínuo da busca de equilíbrio entre os espaços de vivência coletiva e do território privado. A cozinha, a sala de jantar e o quintal são os espaços onde as pessoas mais se reúnem. Os tempos são sobretudo os das refeições e rituais, nos quais as pessoas se encontram e retecem seus elos. E nos quais se experimenta, na micropolítica de cada dia, o desafio de saber o quão perto quero e preciso estar perto de você, parceiro humano, para me aquecer e me espetar.

MARIA LUCIA HOMEM É PSICANALISTA, PESQUISADORA NO NÚCLEO DIVERSITAS/ USP E PROFESSORA DA FUNDAÇÃO ARMANDO ÁLVARES PENTEADO (FAAP). AUTORA DE NO LIMIAR DO SILÊNCIO E DA LETRA (BOITEMPO)

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