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A divisão entre natureza e cultura não leva a nada. E enlouquece

BRUNO LATOUR É ANTROPÓLOGO, FILÓSOFO FRANCÊS, PROFESSOR DO SCIENCES PO EM PARIS. AUTOR DE JAMAIS FOMOS MODERNOS (EDITORA 34), LATOUR PARTICIPARÁ DE UM ENCONTRO DO FRONTEIRAS DO PENSAMENTO NO AUDITÓRIO , DA FAU-USP NO DIA 9 DE AGOSTO - O Estado de S.Paulo

29 Julho 2012 | 03h 11

BRUNO LATOUR

Não tenho muito a dizer sobre a violência como tal, pois não acredito que haja um contraste entre o estado "normal" e a "violência". Na verdade, o normal não mostra nenhum sinal de normalidade. Então, o conceito de violência é um pouco vacilante. Para mim, o primeiro passo é tentar compreender por que a modernidade produziu tanta violência. Uma das razões, me parece, é que não temos nenhuma ideia de como tornar universais os "valores" que os modernos pretendiam desenvolver se não compreendermos a contradição entre natureza e cultura.

A violência é parte da natureza humana ou da cultura da sociedade? Esse é exatamente o tipo de armadilha modernista em que devemos parar de cair. A megalópole não é nem natureza nem cultura, isso não significa mais nada. Se o mundo na sua totalidade é tomado pelo humano, transformado pelo humano, como ainda podemos discutir um equilíbrio entre natureza e cultura? Essa diferença já desapareceu.

Cultura/natureza é um conjunto impossível de conceitos. Até a própria ideia de ambiente. Onde está o ambiente no Antropoceno? É o ser humano ao redor da Terra ou a Terra ao redor dos seres humanos? É realmente discutível a questão. O que não quer dizer que nós compreendemos a megalópole, nem a origem da violência. Mas compreendemos que a divisão entre natureza e cultura, certamente, não nos leva a nada. E nos enlouquece.

Não sou um intelectual "orgânico" como dizemos na França, que deveria ter ideias sobre todos os acontecimentos. Sou um scholar interessado em transformar questões filosóficas em empíricas. O que tenho a dizer está além da violência e da dualidade entre natureza e cultura. Eu buscaria a divindade à qual aqueles inocentes foram sacrificados. O sacrifício de sangue não desapareceu. Foi individualizado. Então, temos deuses. Mais uma vez os modernistas tratam tudo que não se encaixa na grande narrativa para sua libertação e maestria como ultrapassado, arcaico ou fora de lugar. Mas não preciso dizer que isso é impossível: quando alguém age, quem mais está agindo junto?

Uma das causas da violência pode estar na questão sobre "guerra dos mundos". Nós estamos em guerra. Essa é uma definição clássica, quando não há árbitros nem juízes para julgar as disputas. Se há um juiz, então é uma operação de polícia. Atualmente estamos em uma situação de guerra, pois o árbitro desapareceu - o realmente grande árbitro, a natureza, a ciência, a razão, ou a economia nos dias de hoje. Não há soberano real. Nós estamos de volta curiosamente ao que os filósofos designam como o estado da natureza, precisamente porque não há natureza que faça que todos concordem. Pense na ecologia.

Todas as questões da ecologia e da igualdade... Elas são realmente as mesmas que não podem ser arbitradas pelo apelo à natureza, nem à razão, nem à economia. É por isso que estamos em uma situação interessante, uma guerra dos mundos para a própria definição do que são os mundos comuns para os quais não há nenhum árbitro aceito e nenhum valor universal. Paradoxalmente, "mundial" significa "universalidade" muito menos do que nos períodos anteriores, aqueles que Sloterdijk chama o "período do globo". O tempo global está muito atrás de nós. /J.S.

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