A ética da imperfeição

Para filósofo popstar de Harvard, obsessão com melhoramentos físicos acaba por esconder o que o esporte tem de melhor: a excelência humana

Entrevista com

Michael Sandel

Mônica Manir, O Estado de S. Paulo

07 Junho 2014 | 16h00

Michael Sandel veste a camisa da excelência. Quase mil estudantes se espremem para ouvi-lo no anfiteatro da Universidade Harvard. Suas aulas viraram séries nas redes públicas de TV PBS e BBC. Ele já foi capa da Newsweek como o estrangeiro mais influente na China. Seu livro Justiça vendeu mais de 1 milhão de exemplares somente no Leste Asiático. Plateias compraram ingressos “por fora” para saber em detalhes O que o Dinheiro não Compra - seu compêndio de limites (i)morais do mercado que abrange de esterilização remunerada a venda de autógrafos.

Mas o que bomba mesmo, em tempos de Copa do Mundo, é Contra a Perfeição, o último de seus livros a ser publicado no País pela Civilização Brasileira. Sandel trata de ética, mais especificamente da ética de mexer com o corpo por fora e por dentro atrás de uma performance melhor. Não à toa ele dedica um capítulo inteiro aos atletas biônicos. “À medida que o grau de melhoramento aumenta, nossa admiração pelas conquistas se transfere do jogador para o seu farmacêutico?”, questiona. Mais pra frente ele mesmo responde: “O crucial nos esportes é a excelência, a exibição de talentos e dons naturais”. Algo que, diz ele, parece desconcertante para estas nossas sociedades baseadas no espetáculo. 

Foi nessa linha de raciocínio que Sandel deu esta entrevista ao Aliás, em São Paulo, numa tarde gelada para brasileiros, mas amena para esse americano de Minneapolis. Naturalmente, de um DNA de Minneapolis vieram exemplos de atletas de basquete e beisebol, do qual ele é fã incondicional. Aos 61 anos, Sandel ainda guarda o canhoto da entrada do primeiro jogo que viu, aos 12, na companhia do pai dele. Daí que entendeu minha paixão por futebol nascida dos jogos de várzea que vi com o meu pai, quando eu tinha uns 9. “Isso dinheiro nenhum compra”, concordamos, perfeitamente. 

Até o dia 12, o Laboratório Suíço de Análise de Doping já terá testado os atletas da Copa. Pela primeira vez na história, todos os jogadores do Mundial terão sangue e urina checados antes de a bola rolar. Eticamente, como o senhor vê esse rastreamento?

É a primeira vez numa Copa do Mundo, mas esse rastreamento já foi feito nas Olimpíadas. É lamentável que ainda seja necessário fazer isso porque sugere que haja muitos atletas tentando se dopar para levar uma vantagem injusta. Sabemos que não são só drogas tradicionais. Corredores de longa distância, ciclistas e esquiadores, por exemplo, tentam melhorar a resistência com transfusões e injeções de EPO (eritroproteína), hormônio produzido pelos rins que estimula a produção de glóbulos vermelhos e melhora o rendimento. Os laboratórios conseguem identificar a versão sintética, mas macacos já foram testados com uma versão genética, ou seja, haveria uma maneira de inserir no corpo uma cópia do gene que produz EPO, algo muito mais difícil de detectar.

Há uma corrente que sugere liberar o uso de drogas que melhoram o rendimento. Assim seria possível controlar o consumo.

Não concordo com isso. Liberar o acesso aos atletas não necessariamente permite um maior controle, porque eles podem se exceder. Aliás, esse é o principal argumento contra as drogas: seus efeitos sobre a saúde. Mesmo as alterações genéticas podem trazer algum risco a longo prazo. Outro argumento é o da justiça - ou da injustiça. Seria levar vantagem sobre aqueles que competem naturalmente, por assim dizer. Mas suponha que esses “melhoramentos” não ofereçam nenhum tipo de risco à saúde e suponha que eles se tornem viáveis a todos. Ainda assim restaria uma questão ética, a meu ver, mais interessante. Ao alterar nossos corpos para competir nos Jogos Olímpicos ou na Copa do Mundo, mudamos o sentido da competição. Imagine exemplos hipotéticos extremos: alterações genéticas em todos os jogadores de basquete tornando-os aptos a pular mais alto do que o Michael Jordan. Ou levantadores de peso cujos supermúsculos ergueriam SUVs. Ninguém estaria trapaceando. Mas a competição deixaria de ser uma exposição de talentos naturais para se transformar numa competição tecnológica.

Nesses tempos high-tech, seria uma competição com mais público?

Talvez ela fosse até mais popular, mas esse tipo de melhoramento representa uma degradação quanto ao que entendemos por excelência atlética. Seria mais como um circo, como um espetáculo de esquisitices. Os “michael jordans” poderiam entreter, mas aquilo não seria basquete, e sim uma corrupção do sentido essencial do torneio, concebido como vitrine de dons naturais.

Será por esse motivo que o noticiário está forrado de histórias humanas de superação?

Sim, esforço e superação das adversidades são parte do que admiramos nos grandes atletas. Mas admiramos isso porque mostra aspectos do caráter, da perseverança, da determinação do jogador, que são qualidades humanas. Essas qualidades humanas não teriam todo esse valor se tivéssemos uma competição high-tech. Quando oferecemos uma gratificação instantânea, rápida e imediata, perdemos alguma coisa. Há pessoas que ficam impacientes, não querem mais assistir a jogos com apenas um gol. Ok, seria possível dobrar o tamanho do gol para facilitar a entrada da bola, como seria possível aumentar o aro da cesta para aumentar o placar de uma partida de basquete. Mas isso depreciaria a excelência dos grandes atletas, exigiria menos habilidade, teria o custo de transformar o esporte num festival de engenhocas, que pode até render mais dinheiro, porém...

No livro O que o Dinheiro não Compra, o senhor questiona a cobrança de autógrafos por parte das celebridades esportivas e a venda do nome dos estádios para patrocinadores. O que o dinheiro não pode comprar nos esportes?

O dinheiro não pode comprar a apreciação da excelência pelos verdadeiros fãs. São fãs que sabem degustar as sutilezas e as nuances de um jogo, mesmo quando ele termina num 0 a 0. Eles sabem valorizar essa beleza.

Além da busca da perfeição obsessiva nos esportes, o senhor costuma destacar o empenho de alguns pais para controlar as características dos filhos usando a engenharia genética. Isso continua acontecendo com frequência?

Sim, e não por motivos necessariamente ligados à saúde, mas porque os pais querem um menino em vez de uma menina, uma criança mais alta, e não uma mais baixa, um bebê mais inteligente… É o risco de tornar a paternidade uma extensão da sociedade de consumo. A imprevisibilidade do parto (assim costumava ser) e dos cuidados com o filho ao longo da vida traz significados éticos importantes, que frequentemente não percebemos. Escolhemos nossos amigos, escolhemos nossos parceiros, escolhemos nossos sócios, mas não escolhemos nossos filhos. Não podemos controlar quem são ou no que se transformarão. Tentamos educá-los, nós os criamos de acordo com certos valores, mas a imprevisibilidade é um dos sustentáculos do amor incondicional. Quando encomendamos um carro, por exemplo, especificamos a marca, a cor, se terá ar-condicionado ou não, se terá teto solar ou não, os tipos de pneus. E ficamos decepcionados se o carro nos for entregue sem essas características. Como consumidores, podemos devolvê-lo e pegar o dinheiro de volta. O perigo é virar uma rotina os pais quererem moldar as características dos filhos, programar seus bebês. É encará-los como objetos de desejo ou instrumentos de ambição, em vez de valorizá-los como dádivas e aceitá-los como nasceram.

A era genética estaria nos libertando ou aprisionando?

A possibilidade de tornar as pessoas mais inteligentes, ou mais atraentes, ou mais fortes, ou mais felizes por meio do melhoramento genético pode passar a ilusão de que o ser humano conseguirá, enfim, se livrar das restrições da natureza e conquistar a liberdade plena. Afinal de contas, seríamos capazes de driblar nossa condição natural. Não concordo exatamente com isso. Acho inclusive o contrário: perderemos o poder. Com o argumento de querer dar mais oportunidades às pessoas, alguns cientistas até dizem: “Aqueles a quem falta alguma habilidade intelectual estão em grande desvantagem, têm empregos sub-remunerados; não seria melhor usar a genética para consertá-los?”. Isso é uma reminiscência do movimento eugênico, que queria reparar, consertar os “deficientes”. Sabemos ao que isso levou: à esterilização forçada desses “deficientes” e ao genocídio. A ideia de purificar a humanidade geneticamente desmerece a luta por políticas que possam melhorar a vida dos “menos privilegiados”. Ela aceita as coisas como estão, quer usar a tecnologia para se ajustar às injustiças sociais. As iniquidades que vemos na nossa sociedade são fruto de arranjos socioeconômicos que nós criamos. Não vieram da natureza. No lugar de usar novos conhecimentos genéticos para aprumar “a madeira torta da humanidade”, podíamos criar arranjos políticos mais tolerantes com as limitações de nós mesmos, seres imperfeitos.

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Michael Sandel é filósofo, político e professor da Universidade Harvard

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