A ferocidade hilariante de Sam Shepard

A ferocidade hilariante de Sam Shepard

O dramaturgo americano, que morreu aos 73 anos, criou um arsenal de personagens tristes, violentos, solitários e, com frequência, tremendamente cômicos

The Economist, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2017 | 16h00

Ele ficou mais conhecido por ter estrelado diversos filmes, como Os Eleitos – Onde o Futuro Começa, e séries de TV, como Bloodline, o que é no mínimo estranho. Dizer que Sam Shepard era um excelente ator é o mesmo que dizer que Salman Rushdie produziu slogans publicitários memoráveis ou que Adam Smith foi um funcionário exemplar da alfândega britânica. Pode até ser verdade, mas está longe de ser o que realmente importa. Shepard, falecido em 27 de julho, foi um dramaturgo intrépido e livre, à maneira de um caubói do Velho Oeste, capaz de fazer o público engasgar e cuspir a cerveja com suas emboscadas.

Considere-se a seguinte cena, uma das primeiras de A Lie of the Mind (encenada no Brasil com o título de “Mente Mentira”), drama sobre duas famílias problemáticas no interior do Estado de Montana, noroeste dos EUA. Os irmãos Jake e Frankie estão no quarto de um hotelzinho de beira de estrada. Desentendem-se por conta das pedras de gelo que Frankie tenta aplicar à nuca do irmão. Jake não quer o gelo, pois: “Tá gelado”. Frankie retruca: “Claro que tá gelado. É gelo. É pra estar gelado mesmo”. Então faz uma pausa e pergunta: “Você não matou ela pra valer, matou, Jake?”.

Jake deu uma surra na mulher, Beth, e acha que talvez ela esteja morta. Frankie quer entender o motivo da briga. Jake conta que sabia que Beth o estava traindo por causa do realismo com que ela ensaiava as falas de uma personagem que iria representar numa peça.

Jake: Eu sei direitinho como funciona esse negócio de teatro. Os caras têm que acreditar que são aquela pessoa, entendeu? Daí você já sabe onde vai parar a coisa, não é?

Frankie: Onde?

Jake: Eles saem fazendo tudo que a pessoa faz!

Frankie: Que pessoa?

Jake: A pessoa! A — como é que eles chamam? A —

Frankie: Personagem?

Jake: Isso aí. A personagem...

Frankie: Quer dizer que você acha que ela estava dormindo com esse cara por causa da personagem que ela fazia na peça?

Jake: Pois é, você tinha que ver como ela andava se dedicando.

Frakie pensa que o irmão talvez esteja enganado. Vai ver, sugere ele, que “ela só estava tentando fazer bem o trabalho dela.” Jake fica fora de si: “E aquilo por acaso é trabalho!? Trabalho é onde você trabalha. Trabalho não é um lugar onde você vai se divertir. No trabalho você não fica lá, todo belo belo, fingindo que é outra pessoa. Você vai lá e trabalha. Trabalho é trabalho!”

Nem é preciso dizer que os atores adoram fazer essa cena. Podem se pôr a andar enfurecidamente em cima do palco, simulando indignação com essa maldita fraude que é o teatro. Os espectadores também se esbaldam, deliciando-se com o dom que Shepard tinha para escrever falas para homens rudes, incapazes de se expressar direito. Suas personagens femininas também são ótimas, mas os homens são espetaculares. São tristes, violentos, solitários e, com frequência, tremendamente cômicos. Apesar disso, Shepard nunca os trata com a condescendência de alguém que se julga superior. Pelo contrário, identifica-se com a fúria que lhes inspira a condição humana e com o que vê como a quase impossibilidade de que o amor entre um homem e uma mulher dê certo. (Shepard viveu trinta anos com a atriz Jessica Lange; o casal se separou em 2009.)

Suas peças costumam ser sombrias e ameaçadoras. Os títulos já dão uma boa ideia do que o espectador tem pela frente: The Tooth of Crime (algo como “A Corrosão do Crime”), Buried Child (“Criança Enterrada”), The Sad Lament of Pecos Bill on the Eve of Killing His Wife (“O Lamento Triste de Pecos Bill na Véspera do Dia em que ele Matou a Mulher”). Até mesmo as indicações cênicas se distinguem pelo vigor e concisão: “Esta peça deve ser encenada com obstinação, sem intervalos.” (Fool for Love, “Louco de Amor”.) “O coiote do Sul da Califórnia se diferencia por emitir um misto de latido e ganido, parecido com o da hiena (...); esses coiotes não emitem o uivo longo, plangente e solitário do estereótipo de Hollywood.” (True West, “Oeste Verdadeiro”.)

True West talvez seja a melhor peça de Shepard. Austin é um roteirista jovem e bem-sucedido que conquistou a mulher, os filhos, “a casa, o carro, a parafernália toda”. Lee, seu irmão mais velho, é um sujeito que vaga sem rumo pela vida e tem certa queda pelas rinhas de cães e pequenos furtos. Após uma longa separação, os dois se encontram na cozinha da casa da mãe (que está viajando). Num primeiro momento, Austin escarnece da irresponsabilidade e falta de iniciativa de Lee, que, por sua vez, ridiculariza a respeitabilidade burguesa do irmão caçula. Pouco a pouco, porém, os dois começam a querer trocar de lugar: Austin sonha com as aventuras no deserto; Lee, com uma casa confortável, dotada de “luzes amarelas e suaves”. Desnecessário dizer que a coisa acaba em violência.

Não é pequeno o número de grandes atores que já viveram Austin e Lee: Gary Sinise, John Malkovich, Bruce Willis, Mark Rylance, Tommy Lee Jones. Na Broadway, Philip Seymour Hoffman e John C. Reilly alternavam os dois papeis entre uma apresentação e outra. Mas o cenário simples e o elenco reduzido também tornam a peça bastante apropriada para produções amadoras. Quando o autor deste texto dirigiu True West na universidade, não havia dinheiro no orçamento para que Lee destruísse uma máquina de escrever com um taco de golfe todas as noites. O jeito era reduzir a iluminação e, com um deslocamento furtivo, dar a impressão de que a mesma máquina de escrever era destruída noite após noite. Numa das apresentações, o taco de golfe escapou das mãos do ator e saiu voando em direção à plateia: passou de raspão pela orelha de um estudante sentado na primeira fila. Se tivesse acertado o nariz do sujeito, o público provavelmente teria achado que a cena fazia parte da peça.

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