A fotografia como chão

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

02 Agosto 2014 | 16h00

Ele foi logo abrindo a porta: “Aposto que você nunca entrevistou alguém assim, recém-órfão”. Era uma manhã de segunda-feira e Paulo Leite tinha acabado de perder sua mãe, Tilóca, a 500 quilômetros dali, no Rio de Janeiro. Não desmarcou nosso encontro. E, entre um telefonema e outro de amigos e parentes, lamentando sua perda, conversamos muito. Nessa situação, ficou bem claro o que ele logo confirmaria: a fotografia é o seu chão. Só a fotografia salva. 

Nascido no Rio, em 1949, Paulo Leite fotografa desde os 20 anos. Fez o curso de formação em fotografia de Georges Racz, no MAM do Rio, e em seguida trabalhou para a revista Manchete. Mudou-se para São Paulo em 1977, trabalhou na revista IstoÉ e nos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Desde o fim dos anos 1980 trabalha como fotógrafo independente e insiste em afirmar que fotojornalismo não é mais seu negócio. Hoje, aos 65 anos, desenvolve ensaios de fotografia documental e de expressão pessoal, como a série de polaroides nestas páginas.

Começou suas experiências fotográficas com dois amigos, um geólogo da Petrobrás e um médico sanitarista. Seu pai, desenhista e arquiteto, recebia exemplares da revista americana Life - e Paulo ficava vidrado no que via em suas páginas. Durante nossa conversa e entre os diversos telefonemas que recebeu mostrou fotografias antigas, cartas e folhas de contato já amareladas pelo tempo que iam ilustrando essa vida, nas suas palavras, “entremeada por tragédias”. 

Mas Paulo é um sobrevivente. Quando era jovem, a livraria José Olympio lançou a Enciclopédia Life de Fotografia. Eram 17 volumes “só com os papas da fotografia”, conta. Um dia, seu pai mostrou o carnê de parcelas pago: “Filho, agora os livros são seus”. Era o empurrão que faltava. Inspirado pelos mestres, foi então fazer o Curso Bloch de Fotografia, da revista Manchete: “Pagavam mal, mas era genial”. 

Para Paulo, a fotografia lhe permite se encontrar e se colocar no mundo. É uma linguagem que o toca profundamente. Tem cara própria. O ensaio das carinhosamente apelidadas “Polas” mobilizam sua emoção. “São coisas normais, que acontecem, como o vento batendo nas folhas”, diz. Em seu olhar, as coisas têm vida própria, não precisam de título. Podem ser feitas na rua, podem ser as coisas da vida que acontecem e passam diante de nossos olhos, ou até produzidas dentro de um estúdio: com uma câmera Polaroid, uma lâmpada e uma parede branca. “O mais bacana é cada um olhar para a foto e sentir o que quiser. Se eu ficar explicando, vou fazer um texto e não uma foto.”

O fotógrafo usa a Polaroid por suas características mágicas: “Você vê a foto na hora, mas ela não é digital. É um processo fantástico, a imagem vai aparecendo, vai se revelando. Você não controla direito a cor e a luz. Há questões técnicas que fogem do seu alcance. E aí mesmo é que está seu charme”. Perguntado sobre as músicas que sugeriria para acompanhar seu ensaio, logo respondeu: “Pra mim, fotografia é uma coisa silenciosa. É contemplativa, de percepção, assim como a música. Não é por arrogância, não. Pelo contrario, é a coisa mais simples do mundo, não tem música de fundo”. Uma boa música para acompanhar suas fotografias poderia ser o vento. 

Quando ficou muito, muito doente, conta que foi a fotografia que o salvou. Como pareceu salvar agora, afastando a tristeza pela morte da mãe. Para Paulo, a fotografia é instigante. É o que o mantém vivo. É, ao mesmo tempo, o real fixado para sempre e a morte. Recuperado, Paulo Leite diz matar um leão por semana, porque um por dia não aguenta mais. E, assim, faz da fotografia sua vontade de viver: “Só bobo acha que controla a vida”. Acabamos a entrevista ouvindo um tango argentino, como uma vez sugeriu o poeta Manuel Bandeira. Era o que nos restava. 

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