A GOLPES DE HASHTAGS

Disputa inútil entre #prayforparis e #prayformariana revela dinamismo da nova organização social em rede: sentimos na pele o que era distante

Massimo di Felice, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2015 | 06h00

As imagens e os áudios dos covardes atentados acontecidos na semana passada em Paris, assim como aquelas da catástrofe ambiental provocada pelo rompimento das barragens da Samarco em Mariana (MG), que deixou 11 mortos e 12 desaparecidos, provocando a enésima destruição de um vasto território de biodiversidade, evidenciam as caraterísticas da nossa condição habitativa conectiva. Em diversas áreas das redes sociais digitais, os dois dramáticos acontecimentos despertaram uma ilógica competição que passou a disputar as mais conscientes formas de indignação a golpe de likes e de hashtags “Pray for Paris” e “Pray for Mariana”.

A inútil disputa sobre quais dos dois acontecimentos mereceria a maior atenção dos internautas revela a passagem de um social baseado nas dinâmicas da opinião pública para um dinamismo ligado a um público sentir. A conexão e o acompanhamento em tempo real dos acontecimentos através do acesso às redes de informações possibilitam, ao lado do acesso à dimensão informativa, a conexão e o compartilhamento das diversas reações emotivas, gerando um particular tipo de sensibilidade conectiva, bem diferente das dimensões opinativas racionais da esfera pública moderna. Muito mais que simples redes sociais, as esferas interativas, possibilitadas pelos novos tipos de internet, ao conectar não apenas pessoas mas todos os tipos de superfícies, permitem o advento de uma ecologia que nos torna inseparáveis de todos os tipos de materialidades e acontecimentos.

Num seu famoso livro, Do Sentir, o filósofo italiano Mario Perniola escreve: “Relacionando o nosso modo de sentir com aquele dos nossos avós, advertimos uma distância maior daquela que intercorre entre o nosso modo de pensar e o deles, entre o nosso modo de agir e o deles. É claro, pensamos e fazemos coisas distintas (...) mas no âmbito do sentir não mudou apenas o objeto, mas o modo, a qualidade, a forma da sensibilidade e da afetividade¨. Não é difícil reconhecer como, no âmbito do sentir, a chave e a natureza dessa alteração estejam na mudança da nossa relação com a técnica que comportou, sobretudo após o advento das redes e das tecnologias digitais, a transformação qualitativa não somente das nossas formas de interagir, mas da nossa mesma condição habitativa.

Já Marshall McLuhan constatava como a eletricidade e os meios tecnológicos de comunicação teriam colocado o homem moderno na mesma condição de Atlas, condenado por Zeus a carregar o mundo em cima de suas próprias costas. O incremento da velocidade do repasse das informações e os novos meios de comunicação tinham provocado, já naquela época, a constituição de uma nova condição habitativa, que punha em relação o homem comum de qualquer região do planeta com os acontecimentos globais. A Guerra do Vietnã ou a chegada do homem à Lua tornavam-se os espaços informativos que reuniam a humanidade numa esfera midiática coletiva, que estendia as aldeias e a pele dos seus habitantes.

Conectados a essa nova geração de redes, passamos a sentir de maneira nova, advertindo na nossa pele e não apenas no nosso cérebro a agonia dos peixes num rio sem mais vida, a inundação criminosa das florestas e o consequente desaparecimento de uma parte irreproduzível do patrimônio genético do planeta, assim como os tiros, os gritos e o agonizar das vítimas dos atentados postados e difundidos nas redes. Nas ecologias digitais não existem mais distâncias nem externalidades. Não podemos mais apenas opinar sobre as misérias do nosso planeta e a inacreditável contínua evolução da estupidez humana. Ao experimentar esse novo tipo de sentir em redes, passamos a internalizar tudo o que considerávamos externo ou distante. A Síria, o Estado Islâmico, assim como os refugiados ou a expulsão dos indígenas de suas terras tornam-se, pela digitalização, realidades ou ameaças próximas, internas e reais, assim como a qualidade do ar, a temperatura da água e o aquecimento global resultam, hoje, enquanto informatizadas, realidades cotidianas e não mais apenas assuntos de cientistas e especialistas. As esferas públicas nacionais implodiram e deixaram de ser o espaço de debates políticos dos humanos e de compartilhamentos de suas ideias, abrindo-se a inéditas dimensões conectivas.

MASSIMO DI FELICE É SOCIÓLOGO PELA UNIVERSIDADE LA SAPIENZA DE ROMA E PROFESSOR DA ECA-USP, 

ONDE COORDENA O CENTRO INTERNACIONAL DE PESQUISA ATOPOS

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