Sara Hylton
Sara Hylton

A guerra civil no Sudão do Sul pelo olhar de uma fotógrafa

Como a população manteve o estilo e a moda em meio ao terror

Jeffrey Gettleman, The New York Times

25 Novembro 2017 | 16h00

No Sudão do Sul, tirar fotos na rua é ilegal. Esta é mais uma fatalidade da guerra civil. Soldados jovens, robustos e irrequietos estão por toda parte, prontos para punir qualquer pessoa com uma máquina fotográfica na mão. Jamais foi oferecida uma razão para isto e não há leis escritas proibindo especificamente a fotografia, mas os serviços de segurança em todo o país prendem e intimidam uma pessoa tirando fotos as mais inofensivas, como a de mulheres assando pão.

Nem sempre foi assim, mas nesses quatro anos desde que a guerra irrompeu, deixando milhões de pessoas deslocadas e desencadeando horrores inenarráveis, o governo do Sudão do Sul se tornou incrivelmente desconfiado. Num país destroçado por conflitos internos, qualquer um pode ser o inimigo.

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Quando desembarca do avião em Juba, a capital, você sente essa tensão paralisante de imediato. Sara Hylton, fotógrafa de documentários canadense que ali chegou em agosto, já previa a hostilidade. O que a surpreendeu foi o estilo audaz da cidade.

Em meio aos edifícios destruídos, o medo e o perigo, o que a impressionou foi o orgulho de muitos sul-sudaneses com sua aparência. Mulheres com vestidos de estampas muito vivas e joias em bronze, algumas com apliques em cor púrpura. Homens com dreads oxigenados e ternos de corte acurado. Um senso de estilo que a guerra não conseguiu eliminar.

Não foi fácil para ela captar isto porque não podia fotografar em público. Teve de trabalhar em lugares fechados, espaços seguros, em casas particulares, nos quintais e lojas minúsculas e ordenadas. Ela notou que, às vezes, quanto mais bonito o espaço mais triste era a experiência. Muitos sul-sudaneses carregam seu trauma em silêncio e os que tentam esquecer toda a brutalidade e destruição em torno deles eram os mais vulneráveis. Emocionalmente expostos num lugar onde tantos sonhos foram destruídos.

Winnie, que dirige uma pequena butique onde vende vestidos, bolsas e uma ou duas pinturas, parecia nadar contra a corrente. A guerra fez naufragar a economia de Juba e durante as duas horas que Sara passou na imaculada loja da jovem, onde tanto foi investido em cada detalhe, nenhum cliente apareceu. “Se eu estivesse vivendo neste ambiente, teria desistido”, confessou a fotógrafa.

“Esta foi a maior surpresa – as pessoas não desistem, ainda existe muita esperança”, acrescentou Hylton.

Mas existe também muita tristeza, que nem sempre é evidente, mas há. Como afirmou Sara: “Quando você entrevista as pessoas, com frequência elas tentam demonstrar coragem e dizer o que você deseja ouvir. Mas quando pegamos a máquina e pedimos para elas olharem para a câmera, é diferente. Então a sinceridade se revela”, completa. Ela percebeu isto especialmente quando fotografou Wokil, um comediante de 21 anos. “Sua postura era descolada, ele tentava se mostrar muito tranqüilo”, disse. “Mas você sentia que ele havia passado pelas piores situações. Perda, você reconhecia a perda. Estava no olhar dele.”

Todas as pessoas com quem Sara entrou em contato na cidade de Juba (longe dos soldados) quiseram ser fotografadas, incluindo um grupo de jovens que jogava basquete atrás de uma escola primária. Se o sul-sudanês tem algo particular é a altura. E os que pertencem às tribos Dinka e Nuer, os dois maiores grupos étnicos do país, são considerados os mais altos do mundo. 

O basquete é o esporte mais popular no país. O ex-jogador da NBA, Mamute Bol, que morreu em 2010, cresceu trabalhando como vaqueiro no Sudão do Sul. E depois ganhou milhões, a maior parte entregue para os rebeldes que lutam pela liberdade. 

Pelo que se sabe, a vida no país tem girado em torno da guerra. Hoje e sempre. Os postos de controle do Exército na área de Juba e os soldados saqueadores que rondam pelos bairros tornam impossível sair à noite.

Então os jovens encontraram uma forma de fazer o que se faz no mundo todo, apenas ligeiramente diferente. Eles se reúnem em prédios sombrios durante o dia para ouvir hip-hop e rap. Esses lugares são chamados “clubes diurnos” (em oposição às casas noturnas), e permitem que a juventude de Juba se distraia, socialize, dance, beba e esqueça por um momento o que existe do lado de fora. Crazy Fox, um popular artista de dancehall, fugiu do Sudão do Sul para Uganda, como refugiado. Mas após quatro anos, ele estava “cansado de fugir” e recentemente voltou para casa. 

Mas casa para os sul-sudaneses é um lugar que eles próprios quebraram. O Sudão do Sul é o país mais jovem do mundo, tendo conquistado sua independência do Sudão em 2011. Dois anos mais tarde, uma disputa política entre líderes dos Dinka e dos Nuer em Juba explodiu em um conflito militar por todo o país. 

A guerra continua se alastrando, engolfando outros grupos étnicos e novas áreas. Ela já matou mais de 50 mil pessoas, destruiu poços de petróleo, fazendas, escolas e hospitais, e tragou incontáveis crianças como soldados mirins e as deixou mortas ou mutiladas. Muitas pessoas temem o futuro. Está estampado nos rostos em Juba. Ainda assim, enquanto a morte avança, a vida avança. A rotina é um refúgio, e muitos sul-sudaneses estão tentando reconquistar suas vidas. Hylton gastou horas em barbearias e em salões onde implantes capilares eram exibidos nas paredes como ferramentas em uma loja. “Quando você vem ao salão Galaxy, nós te transformamos”, disse a proprietária, Nadia Tushabe, com mais do que apenas um mero toque de orgulho. 

É difícil acreditar que um país em que a renda per capita é de três dólares por dia, três quartos dos adultos são analfabetos e uma garota de 15 anos tem uma possibilidade maior de morrer no parto do que de terminar o curso primário, possa ter uma indústria de moda ou de beleza. 

Mas no Sudão do Sul ela luta para existir, nas casinhas compactas e nos quiosques frágeis iluminados por uma única lâmpada.

“Não temos nada que possa nos distinguir”, disse Juana, estilista de moda. Seus estampados são intensamente coloridos e sua esperança é de que um dia a moda conseguirá unir os grupos étnicos tão divididos.

Akuja de Garang é, depois da modelo Alex Wek, um dos nomes mais conhecidos na moda sul-sudanesa. Joias em bronze enormes e esmalte preto são a sua marca. Antes da guerra ela organizava desfiles de moda. “Culturalmente as pessoas se preocupam muito com a aparência”, disse ela.

Com ou sem guerra, os sul-sudaneses são como qualquer outra pessoa.

Querem ter um bom visual. / Tradução de Terezinha Martino 

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