A guerra do lado de cá

Livro de autor francês mostra como o conflito de 1914-18 marcou de várias formas o Brasil e vizinhos

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

16 Agosto 2014 | 16h00

O impacto da 1ª Guerra Mundial entre nós foi bem maior do que se imagina. Verdade que sua eclosão, em 28 de julho de 1914, não gerou manchetes, até porque as primeiras páginas dos jornais da época eram uma maçaroca de notícias curtas e telegramas de agências estrangeiras. Na manhã seguinte, o Jornal do Commercio escondeu a declaração de guerra do império austro-húngaro à Sérvia no meio de outras notícias de menor ou mesmo ínfima importância, e o Correio da Manhã, outro baluarte da imprensa carioca, nem isso. 

Ao desculpar-se pela omissão da véspera, o Correio reduziu o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo a um drama familiar e dinástico, sem motivação política, a uma encrenca que só dizia respeito aos europeus, em cujas questões e contendas a opinião pública brasileira parecia pouco interessada. Inquietação nos Bálcãs? Nosso maior intelectual católico, Alceu de Amoroso Lima, nem sequer a farejara ao passar uma temporada em Paris no ano anterior.

Alertas não faltaram. Em 1911, o socialista francês Jean Jaurès fez conferências aqui, na Argentina e Uruguai sobre o perigo de uma guerra continental a partir dos Bálcãs. Só os grupos socialistas, que mantinham contato permanente com membros da Segunda Internacional, levaram a ameaça a sério. Nem o assassinato de Jaurès por um fanático nacionalista francês, em 31 de julho de 1914, afetou nossa generalizada indiferença, lentamente revertida, graças sobretudo aos esforços de alguns jornais, com destaque para o Estado de S. Paulo, cujo diretor, Julio Mesquita, manteve, desde os primeiros dias do conflito, um balanço semanal sobre seu andamento, suspenso apenas em outubro de 1918, quando a guerra chegou ao fim.

A princípio neutra, a cobertura logo perfilou-se ao lado dos Aliados, contra “o militarismo alemão” e os crimes cometidos por seu Exército, em especial na Bélgica. A imprensa argentina seguiu o mesmo caminho, tomando as dores de franceses, britânicos e belgas. A aliadofilia contaminou também a maioria dos políticos e intelectuais dos dois países, com históricas ligações culturais e afetivas com a França, “berço da civilização moderna”, ameaçada pela “barbárie” teutônica. 

José Veríssimo atribuiu toda a responsabilidade da guerra a Berlim, Graça Aranha desdobrou-se em denúncias contra a insidiosa presença alemã na América Latina, João do Rio tachou o kaiser Guilherme II de “imperador louco” e defendeu com ardor “o mundo mediterrâneo”, por representar “as fontes batismais de uma civilização perfeita”. Graça Aranha apressou a criação da Liga Brasileira dos Aliados, com Ruy Barbosa como presidente de honra e representações em diversas capitais do País. Palestras, panfletos, publicações, livros de poesia e traduções de documentos sobre as atrocidades cometidas pelos alemães, não havia limites para as atividades da liga. 

Embora no início da guerra só por aqui circulassem cerca de 20 jornais em língua alemã, a maioria financiada pelo setor de propaganda do Reich, a germanofilia nunca foi páreo para a avassaladora influência franco-anglo-italiana. Guilherme II foi gozado num maxixe (O Kaiser em Fuga, de Caninha) e num dos primeiros filmes de animação (O Kaiser, de Mario Seth) produzidos no Brasil. Até na capa da revista infantil Tico-Tico os boches foram motivo de chacota.

A América Latina não sentiu a guerra na pele, nem os cidadãos dos países beligerantes residentes no continente que foram convocados ou se alistaram voluntariamente chegaram à frente de batalha. Mesmo pressionada, interna e externamente (por Washington), a Argentina e os demais países do Novo Mundo jamais abandonaram sua neutralidade, ao contrário do Brasil, que depois de perder alguns navios mercantes para submarinos alemães e não querer perder bons negócios com os americanos e os países da Entente, declarou guerra ao kaiser, em outubro de 1917. Enviamos missão naval às costas africanas, incorporamos 13 oficiais voadores à Real Força Aérea britânica, despachamos um contingente de médicos para a capital francesa, e paramos por aí. Talvez por essa participação periférica na guerra, Verdun, na memória dos brasileiros, seja menos uma batalha sangrenta do que uma rua paulistana e uma empresa de ônibus carioca. 

E no entanto a Grande Guerra marcou de diversas formas o Brasil e seus vizinhos. O mais articulado e completo estudo sobre como nos comportamos durante seu transcurso foi escrito por um historiador francês, Olivier Compagnon, e acaba de ser editado no Brasil: O Adeus à Europa – A América Latina e a Grande Guerra (Rocco). Com base em arquivos diplomáticos, debates políticos, jornais e revistas e na abundante produção cultural que caracterizou o período, de Buenos Aires à Cidade do México, Compagnon captou e examinou os objetivos da neutralidade de 1914, os mecanismos da mobilização que progressivamente marcou a sociedade latino-americana, os sentidos dos comprometimentos intelectuais em favor de um e outro lado da luta, a visão que as comunidades de imigrantes de origem europeia tiveram dos combates que devastavam sua pátria mãe e as consequências sociais e econômicas do conflito. O adeus do título alude ao desencanto com a civilização europeia que a América sentiu quando o irracionalismo ensandeceu o Velho Mundo depois da invasão do reino da Sérvia pelo Exército austro-húngaro. 

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