A influência da poesia de Frank O'Hara na série Mad Men

A influência da poesia de Frank O'Hara na série Mad Men

Estreia do programa completa dez anos em julho e poeta tem antologia recém-publicada no Brasil

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

29 Julho 2017 | 16h00

Primeiro episódio da segunda temporada de Mad Men. Don Draper almoça no balcão de um bar. À sua direita, um homem mais jovem, de catadura intelectual, toma cerveja e lê Meditations in an Emergency (Meditações de Emergência). Don olha a capa e pergunta: “Do que se trata?” O homem responde: “Fala de um lugar na rua 23 que acabou.” Don quer saber se o livro é bom. “Não creio que você vá gostar”, diz o desconhecido, algo desdenhoso do suposto gosto literário do galã corporativo que tem a seu lado. Se conhecesse bem o byroniano gênio publicitário da agência Stanley Cooper não teria feito aquele comentário. 

Don não só acaba comprando e devorando o livro – uma coletânea de poemas de Frank O’Hara, publicada em 1957 – como envia um exemplar pelo correio a um destinatário cuja identidade só conheceremos no penúltimo episódio da temporada. Anexado ao livro, um lacônico bilhete: “Ele me fez lembrar de você – D.” Em off, Don relembra a quarta e última estrofe da meditação que fecha a coletânea, inspirada no poeta russo Mayakovsky: “O país é cinza e marrom e branco com árvores. Nevascas e sorrisos estão cada vez mais escassos, menos divertidos, não tão sombrios. Não apenas cinza. Deve ser o dia mais frio do ano. O que ele acharia disso? Digo... O que eu acharia? E se eu achasse. Talvez seja eu mesmo, de novo.”

Quem acompanhou a série sabe de todos esses detalhes e a quem Don enviou o livro de presente. Mas talvez não conheça bem seu conteúdo e o resto da obra do autor, até pouco tempo só divulgada e traduzida aqui aos pedaços, em blogs e sites de literatura. Rascunho, a brava revista literária editada em Curitiba, recém publicou um punhado de poemas de O’Hara traduzidos por André Caramuru Aubert; agora saiu a coletânea selecionada por Beatriz Bastos e traduzida por ela e Paulo Henriques Britto. No entanto, os versos das Meditações continuam inéditos entre nós, salvo aqueles que Matthew Weiner, criador e produtor de Mad Men, transformou em referência recorrente de toda a segunda temporada da série, cujo episódio final, aliás, intitulava-se Meditations in an Emergency

Poeta gay e curador do MoMa, dínamo da boemia artística da Nova York dos anos 1950 e começo dos 60, O’Hara foi o Apollinaire da geração Larry Rivers-Jackson Pollock-Willem de Kooning. Seus versos versam sobre amor, amizade, sexo, arte, com frequentes menções a bares, clubes e marcos da cidade da qual nem seduzido por distantes mordomias acadêmicas conseguia se desgrudar. Vários de seus poemas foram escritos em guardanapos da Cedar Street Tavern, seu principal reduto no Village, desativada na década passada pela especulação imobiliária. Tinha apenas 40 anos quando um buggy o atropelou nas areias de Fire Island, azedando o clima festivo por ele orquestrado no circuito artístico de Manhattan. Daí o título dado por John Gruen às suas memórias do poeta, The Party is Over Now (A Festa Agora Acabou).

Em princípio, O’Hara não habitaria a mesma galáxia cultural de Dan Draper. A modernidade nova-iorquina e o Zeitgeist de 1960 os aproximam. Mais do que isso: as angústias, as emoções descalibradas e as crises de identidade os tornam almas irmãs. Don Draper usurpou o nome e a individualidade de Dick Whitman, um companheiro de batalhão morto em combate na guerra. 

Sem contar as possíveis aproximações entre a linguagem publicitária (a arte e a prosa de Don) e a poesia de O’Hara (à base de colagens, citações, clichês, humor lacônico e alusões à mitologia cinematográfica). Uma das “meditações emergenciais” do poeta trata da “crise da indústria do filme”, com observações sobre trinta astros e estrelas atemporais de Hollywood, de Richard Barthelmess a Elizabeth Taylor, passando por Marilyn Monroe e até Lex Barker, o sucessor de Johnny Weissmuller na tanga de Tarzan. Em outra meditação, O’Hara chora a morte de James Dean, uma de suas fixações. Numa coletânea com poemas escritos na hora do almoço, O’Hara divagou sobre um tombo de Lana Turner.

A mitologia cinematográfica foi presença constante em todas as temporadas de Mad Men. O penúltimo episódio da segunda temporada termina com uma lustral imersão de Don no Pacífico, que só não lembra totalmente as derradeiras imagens de James Mason em Nasce uma Estrela porque o banho de mar do personagem de Mason o conduzia ao suicídio, não à purificação e à redenção como o de Don, por sinal embalado por um arranjo New Age da Canção da Índia, chupada de Rimsky-Korsakov.

Momentos antes de Don se despedir de Anna Draper, a verdadeira senhora Draper, viúva do verdadeiro Don. O falso Don passara uns dias na casa dela, em Los Angeles relaxando o espírito para descer a montanha (o episódio intitula-se The Mountain King) e engrenar de novo sua vida profissional e afetiva. Era para Anna o exemplar das Meditações postado no primeiro episódio da temporada. Só ela seria capaz de identificar as duas pessoas a quem o lacônico D pertencia.

“Já leu?”, pergunta-lhe Don ao deparar com o livro de O’Hara na mesa da sala. 

Anna: “Sim. Ele me lembra de Nova York. E me deixou preocupada com você.” 

O relacionamento fraternal, penosamente construído, entre Don e Anna é uma das mais belas sacadas de série. Com nenhuma outra mulher o garanhão Dick Whitman, aliás Don Draper, se sentiu mais calmo e feliz. Mereciam ter tido um caso e serem felizes para todo o sempre. E Anna nem precisaria mudar de sobrenome.

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