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A influência de Vilém Flusser para a fotografia e as artes visuais

Filósofo foi amigo de um dos vetores da arte contemporânea brasileira, Mira Schendel

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2017 | 16h00

Vilém Flusser (1920-1991) costumava dizer que um dos seus compromissos como professor era ensinar as pessoas a fazer as perguntas certas para que não se tornassem vítimas da imagem, mas, ao contrário, usassem essas imagens como ferramentas de uma análise crítica. Numa época em que proliferam imagens na internet e avança o irracionalismo, é mais que oportuna a edição da obra completa do filósofo. É fundamental. Afinal, essa proliferação criou um novo e nada admirável mundo – hostil mesmo.

Ao contrário de Baudrillard, Flusser não acreditava nessa história de simulacros e simulações. Para Flusser, o tratado filosófico do francês beirava o nonsense. Imagens são tão concretas como a mesa que sustenta seu computador, diria. “Nós não temos nenhuma ferramenta ontológica para distinguir simulação e não simulação; o instrumento crítico que temos de usar é o concreto em oposição ao abstrato”. Simples assim. Ao contrário de outros filósofos, a objetividade de Flusser pode assustar, mas todos os seus leitores que tiveram a oportunidade de conviver com seus textos publicados no Estado sabem que sua prosa filosófica (poética, em sua essência) era também muito jornalística.

Exemplo: sobre sua amiga Mira Schendel, um dos vetores da arte contemporânea brasileira, ele escreveu: “Há uma impaciência nela, uma espécie de fanatismo fervilhante que coloca todos os que dela se aproximam em perigo de ser objetificados.” E concluiu: “Quando ela encontra pessoas fracas, pode destruí-las, mesmo que essa não seja sua vontade.” Não foi o seu caso, garante o filósofo. Mira sentiu em Flusser um interlocutor forte. Flusser viu em Mira uma “integridade intelectual e ética” que o fez confiar cegamente nela. “Nossas conversas afetaram o seu trabalho, e com certeza o meu”, escreveu o filósofo.

Tem certamente algo de Flusser a série dos objetos gráficos (presos entre placas de acrílico) exibida na Bienal de Veneza de 1968, em que Mira eliminou frente e verso, o antes e depois, dando uma ideia de simultaneidade com letras amalgamadas a palavras e frases num jogo perturbador. Não é possível afirmar que a série levada à mostra italiana seja fruto de uma conversa prévia com Flusser, mas foi ele o melhor tradutor do conceito de transparência e mutação na obra de Mira, interpretada numa chave fenomenológica.

Seu trabalho como teórico da fotografia foi com justiça comparado ao de Roland Barthes. Para muitos analistas, sua obra é comparável a monumentos como Siegfried Kracauer ou André Bazin – e basta o livro Filosofia da Caixa Preta (1983) para justificar essa aproximação. Nele, Flusser fala das consequências da substituição de textos por imagens – quando essas deveriam ser usadas para complementar a informação escrita. Flusser compara o fotógrafo a um caçador, alertando o leitor para a necessidade de uma filosofia da fotografia que liberte o homem da condição predatória das techno-images, que nos tornam prisioneiros da alta tecnologia.

O cinema contemporâneo, com sua lógica mutiplex, se assemelha, segundo Flusser, a um hipermercado em que o consumidor é obrigado a consumir a ilusão de um mundo real que não passa de um produto fabricado por máquinas para ser exibido no novo tabernáculo da reprodução técnica. A exemplo de Walter Benjamin, Flusser foi igualmente crítico do historicismo. E deixou uma tarefa para todos nós: a de lutar contra essa sociedade dominada por aparelhos de alta tecnologia, mas carente de imaginação.

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