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A microcefalia não é uma só

Enquanto ainda faltam estudos prolongados e respostas definitivas, melhor seria chamar a doença de ‘síndrome do zika congênita’

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Thomaz Rafael Gollop,
O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2016 | 06h00

Uma questão importante: como classificar as doenças que envolvem a genética médica? Essa é uma especialidade lamentavelmente deixada em terceiro plano na maioria das faculdades de medicina do Brasil, onde só é ensinada no ciclo básico, justamente quando os alunos não lhe dão valor.

Mas vejamos, entre essas doenças, o caso da microcefalia.

Por definição da Organização Mundial da Saúde e dos geneticistas, a microcefalia se caracteriza pelo perímetro cefálico dois ou mais desvios-padrão abaixo da média. Pode estar presente ao nascimento ou desenvolver-se nos primeiros anos de vida, e se vê dividida em primária e secundária. A microcefalia primária está relacionada a mutações gênicas, síndromes cromossômicas (Trissomia 13 ou Síndrome de Patau, por exemplo) e síndromes nas quais um distúrbio metabólico causa quadro neurológico. Entre as mutações gênicas temos a microcefalia vera (verdadeira), na qual pode não haver déficit intelectual e não há anomalias esqueléticas ou de outra natureza. A microcefalia vera é uma das mais comuns em ambulatórios de genética.

Já a microcefalia secundária está associada a uma diversidade de eventos: falta de oxigênio ao nascer, trauma obstétrico, hemorragia intracraniana, meningite, encefalite e infecções por rubéola, varicela, toxoplasmose, sífilis, citomegalovírus e possivelmente zika vírus. Logo, é fundamental salientar que falamos hoje da microcefalia secundária, que apresenta um quadro clínico muito específico. Se o médico pesquisar zika nos casos mais comuns de microcefalia – a microcefalia vera, por exemplo –, ele nada encontrará.

Os sistemas públicos de mapeamento dos defeitos congênitos estimam que o número de recém-nascidos com microcefalia oscila entre 2 e 12 por 10 mil nascidos vivos nos Estados Unidos. Considerando 3,9 milhões de nascidos vivos/ano naquele país, os casos de microcefalia de todas as etiologias, convém notar, oscilariam entre 780 e 4.680/ano. A questão, no Brasil, é que não tínhamos notificação dos casos de microcefalia.

Outro ponto fundamental é que ainda faltam estudos de longo prazo comparando a evolução de amostras representativas de mulheres grávidas com e sem infecção pelo zika vírus para estabelecer uma relação clara de causa (infecção pelo zika) e efeito (microcefalia secundária). O que temos são estudos de casos ou série de casos, que devem servir como alerta importante.

Existem na história da medicina situações similares a esta que vivemos agora. No começo dos anos 1960, houve uma epidemia de rubéola nos Estados Unidos e, de imediato, médicos duvidaram da ocorrência daquela que posteriormente seria identificada como síndrome da rubéola congênita. Com a talidomida na Alemanha, na mesma época, também houve de início uma dificuldade em admitir que o uso dessa droga para combater enjoos e vômitos nas grávidas tinha relação com as graves anomalias esqueléticas que ela produzia nos recém-nascidos. Mas, por cautela, o Food and Drug Administration americano não licenciou a droga, e o resultado é que não nasceram crianças com essa anomalia naquele país.

O que temos em relação ao zika no momento? O vírus tem atração por tecido nervoso. Daí se explica a síndrome de Guillain-Barré, que compromete o sistema nervoso periférico em adultos, além de causar possível encefalite nos fetos. A encefalite provoca uma necrose (morte tecidual) no cérebro e consequente desabamento da caixa craniana. Comprovada essa sequência, ela explicaria o “excesso” de couro cabeludo encontrado em alguns recém-nascidos.

Além disso, observamos em algumas crianças alterações importantes, como dilatação nos ventrículos cerebrais, calcificações intracranianas, diminuição acentuada do córtex cerebral, alterações oftalmológicas severas, diminuição da acuidade auditiva e artrogripose (rigidez articular). A ocorrência desses sinais e sintomas provavelmente depende do período gestacional no qual o vírus zika agrediria o feto (não temos nenhuma indicação precisa nesse quesito), e a frequência com a qual ocorre ainda depende de estudos. Mas já temos uma pista para algumas respostas. Um dos trabalhos mais contundentes foi publicado no Jornal da Associação Médica Americana na última terça-feira pela equipe do oftalmologista Bruno de Freitas e colaboradores do Hospital Roberto Santos, em Salvador, e Rubens Belfort, da Unifesp. Eles examinaram 31 crianças de 1 a 6 meses de idade com microcefalia pelo critério de perímetro cefálico menor de 32 cm entre 1º e 21 de dezembro de 2015. Outras possíveis infecções foram excluídas por sorologia materna e todas as mães apresentaram vermelhidão na pele, febre, dores articulares, dor de cabeça e mal-estar durante a gravidez. Anormalidades oftalmológicas severas foram encontradas em 34,5% das crianças.

Importante também é não penalizar as mulheres, notadamente as mais pobres, obrigando-as a manter a gravidez comprometida pelo zika, fato provocado por omissão do Estado brasileiro. Elas deverão poder optar por manter ou interromper a gravidez nesses casos. Finalmente, vamos pensar em síndrome do zika congênita, e abandonar o termo microcefalia.

THOMAZ RAFAEL GOLLOP É PROFESSOR LIVRE-DOCENTE EM GENÉTICA MÉDICA PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

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