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A morte não olha crachá

Greve de coveiros contra a privatização de um dos maiores cemitérios da Europa aproxima cadáveres VIPs dos nem tanto

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Gilles Lapouge,
O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2016 | 06h00

“Morra, e cuidamos do resto.” Esse era o slogan de uma funerária americana à época dos westerns, acho eu. Os coveiros do cemitério de Poggioreale, em Nápoles, não respeitam essa “bela profissão de fé”. Como os cemitérios estão ameaçados de privatização pela prefeitura de Nápoles, eles decidiram entrar em greve. A partir de 1º de janeiro não enterram mais ninguém. Mas os napolitanos não se deixaram intimidar. Continuam a morrer em 2016, como morreram em 2015, apesar de precisarem fazer fila à espera de que seus restos mortais cheguem à morada eterna. As famílias estão furiosas. E os coveiros, inflexíveis.

Como o cemitério de Poggioreale é o maior da Itália e talvez do mundo, há um engarrafamento. Trinta cadáveres não sabem mais o que fazer. Afirma-se que a última vítima da Camorra, um vendedor ambulante de 27 anos, faz parte do grupo de mortos à espera. Os becchini (coveiros) lutam pela sua sobrevivência. A privatização dos serviços funerários colocará quarenta famílias na miséria. A prefeitura afirma que a gestão do cemitério era desastrosa: subornos pagos pelos trabalhos nos túmulos, roubos de ornamentos das capelas, revenda ilegal de nichos funerários. O cemitério era um “desastre” financeiro.

Mas os coveiros não abandonam a luta. O tempo corre a seu favor. Na verdade, as câmaras frias do cemitério só podem receber 70 cadáveres. E trinta já estão à espera: será necessário que os mortos, esses pobres mortos, se apertem uns contra os outros para dar lugar aos recém-chegados.

Além disso, não corremos o risco de querelas eclodirem em torno desses mortos depositados a granel? O que sucederá se, durante estes dias de greve, morrer um VIP, uma cantora famosa, um jogador de futebol, um ministro, alguém que, segundo a lei, deve ser enterrado no quadrato degli uomini ilustri (espaço reservado para pessoas ilustres) e terá de entrar na fila como todo mundo!

Felizmente essa aventura não atingiu um outro grande cemitério de Nápoles, o Fontanelle, menor que o Poggioreale, mas mais prestigiado porque possui, no seu subsolo, uma “cidade dos mortos”, que armazena em suas estantes 40 mil crânios. Na sua origem, o cemitério de Fontenelle foi inaugurado para receber as vítimas da epidemia de peste que em 1526 causou 250 mil mortes (na época, a população total de Nápoles era de 400 mil pessoas).

A partir de 1857 esse ossário fabuloso foi aberto ao público. Os napolitanos passaram a cultivar o hábito de adotar esses crânios. Cada família queria o seu. Procurava um que tivesse uma boa cabeça, colocava-o sobre um pequeno tapete de veludo, dava-lhe um nome, oferecia a ele legumes (alho-poró e alho principalmente). Como esse crânio estava morto, encontrava-se muito próximo do Poder Supremo, a meio caminho do céu, de modo que numa posição melhor do que os vivos na hora de pedir um favor a Deus ou a seu séquito.

Se uma jovem não conseguia se casar, se um jovem era reprovado em todos os seus exames, nada grave! Pediam ao “crânio” da família para se esforçar um pouco e obter uma ajudinha do Altíssimo. E quase sempre dava certo.

Mas nem todos os crânios eram competentes. Os mais procurados eram os entendidos em numerologia. A família que possuía um enriquecia rapidamente porque consultava o seu crânio sobre o número a jogar na próxima extração da loteria e a sorte estava garantida. Ganhava o prêmio.

Há alguns anos a prefeitura de Nápoles proibiu esse hábito. E com razão: não é imoral alguns napolitanos se beneficiarem dessa maneira de “conselhos” vindos de além-túmulo? Mas de nada adiantou: as famílias continuam a queimar velas e a depositar flores em torno das suas queridas “caveirinhas”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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