Washington Alves/Estadão
Washington Alves/Estadão

A natureza de João

Neto de escravos, mineiro homenageia a Princesa Isabel com seis quilos de rosas e faz dela a musa de suas poesias

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2015 | 16h00

Ao escrever que “a palavra escravo significa dureza”, o septuagenário lavrador João Paulino Barbosa, que vive lá no interior de Minas e é poeta toda vez que larga a enxada, sentiu falta de algo mais. Pensou um pouco sem pousar a caneta, deixou vir aquela parte sua que nasce da natureza (assim ele se refere ao que chamamos de inspiração) e arrematou, em letras grandes e angulosas: “Escravo, uma palavra com desígnio de extinção”. João Paulino Barbosa, de Desterro do Melo, Minas Gerais, como ele costuma se apresentar, deu-se então por satisfeito e assinou o poema à maneira de sempre. “Assim a história me diz / E diz esse poeta por nome João.”

Dizer que o poema de João Paulino nasce de sua natureza, nesse caso, é absolutamente correto. Se ele define o escravo como um homem fadado à extinção, é a partir de sua própria experiência: o avô, homem negro como ele, que se chamava apenas Paulino, foi trazido da África na segunda metade do século 19 e escravizado nas terras dessa mesma região onde João Paulino vive hoje, para trabalhar nas roças de milho e de cana-de-açúcar e na criação de gado leiteiro. João Paulino não o conheceu, mas ouviu do pai durante a infância toda como era a vida na senzala, os castigos impostos àqueles que desobedeciam e como o seu avô Paulino era um homem obediente, que não causava problemas aos patrões. O pai também comentava que, se tivera a oportunidade de nascer um homem livre, era graças a uma senhora bondosa chamada Isabel, princesa Isabel. E que ele, João Paulino, deveria agradecer sempre à princesa, por poder viver ali no seu pedacinho de terra (seu “rancho”, dentro da propriedade dos patrões), por poder plantar a horta de feijão e mandioca e pelas moedas que agora às vezes sobravam para o resto dos mantimentos. Era tudo graças a Isabel, filha do imperador do Brasil, que assinara a lei que libertou os escravos, inclusive seu avô. Nascia ali uma devoção. Até mais do que isso, já que, além de lavrador, João Paulino escreve versos. Um poeta encontrou ali a sua musa.

João Paulino ficou conhecido na semana passada por causa da homenagem que fez à Princesa Isabel no túmulo onde está enterrada, na Catedral de Petrópolis. Foi na quarta-feira, 13 de maio, quando se completaram 127 anos da abolição da escravatura. João Paulino fez as contas e, antes de enfrentar as seis horas de viagem que separam Desterro do Melo de Petrópolis, comprou 127 rosas em uma floricultura de Barbacena, no meio do caminho. O lavrador entrou na catedral a passos miúdos na hora da missa, com um sorriso tímido e respeitoso, abraçado a 6 quilos de flores, que amarrara em quatro buquês. Depositou as rosas no pé do túmulo e rezou. Recebeu uma salva de palmas e, antes de sentar para ouvir a missa, fez uma última homenagem à musa. Pendurou um banner ao lado do túmulo com outro de seus poemas: “A Princesa Isabel é o próprio buquê de flores, a estrela guia, o caminho e o amor”.

Na saída da igreja, ele seguiu demonstrando afeição não só à princesa, mas também aos números, redondos ou não. Declarou a uma emissora de TV: “Hoje completam 1.512 meses da libertação dos escravos. Se na medida em que eu estiver na condição de vir, aí eu vou fazer uma homenagem, porque graças a Deus aqui em Petrópolis sou recebido muito bem, no lugar onde estão enterrados o D. Pedro I e a nossa Princesa Isabel”. D. Pedro está enterrado na cripta do Museu do Ipiranga. Depois João Paulino ganhou carona do pessoal da TV até a rodoviária e embarcou no ônibus que o levaria de volta a Desterro do Melo, onde nasceu e onde sempre viveu.

Desembarcou na cidade de 3.300 habitantes e foi recepcionado por um grupo de garotos, seus conhecidos desde o nascimento - alguns deles disseram “João Paulino” antes mesmo de terem dito “papai”, segundo ele me contou. Bateram palmas e o abraçaram, porque ele apareceu na TV. As crianças também cantaram a Homenagem a Desterro do Melo, composição de João Paulino - a natureza também lhe aparece, vez por outra, em forma de canções. Foi a partir de uma composição que lhe surgiu a ideia de homenagear a princesa: em 2011, escreveu Princesa Isabel, uma das faixas de um CD que gravou em Barbacena. É assim: A princesa Isabel libertou a escravidão / Salve, salve a raça negra e o Brasil de coração/ Liberdade, liberdade, liberdade / Foi assim a lei da abolição, salve a pátria brasileira e a nossa geração.

Depois de escutar a canção na praça da cidade, duas meninas o interpelaram no meio de uma caminhada matutina, em frente ao destacamento da PM, e perguntaram se ele sabia onde a princesa estava enterrada. O lavrador informou que era em Petrópolis, e a pergunta seguinte o fez refletir. “O senhor já foi no túmulo dela? Como é lá?” João Paulino então percebeu que não sabia e sentiu ali que recebera uma nova missão. Isso foi em 2012 e desde então o lavrador faz suas homenagens todo 13 de maio - antes de chegar à antiga estância de verão do Império brasileiro, providencia sempre uma parada em Barbacena (Cidade das Rosas), onde compra ramalhetes caprichados para o túmulo da princesa. 

A devoção à filha de D. Pedro II está longe de ser exclusividade de João Paulino - há inclusive um movimento criado em 2005 pela beatificação de Isabel - e pode ser apontada como resultado de uma bem-sucedida propaganda do regime monarquista, para criar uma imagem mítica da princesa. “O Império estava em seus estertores (acabaria em 1889, ano seguinte à assinatura da Lei Áurea) e interessava a setores conservadores do regime, que buscava se manter no poder, transformar Isabel, figura da monarquia, em uma heroína, a libertadora e redentora dos escravos”, aponta Cristina Wissenbach, professora de História da África da USP e presidente da Associação Brasileira de Estudos Africanos (ABE-África). “Foi uma medida populista que deu certo em alguns setores da sociedade, inclusive parcelas dos escravos libertos.”

Ao empunhar uma pena de ouro e assinar a Lei Áurea no Paço Imperial, no centro do Rio, às 15 horas de 13 de maio de 1888, Isabel pode até ter produzido uma imagem marcante. Mas que não passou de um gesto simbólico, como explica o professor emérito da USP e colaborador do Aliás, José de Souza Martins. “A Princesa Isabel tem muito pouco a ver com o fim da escravidão, a não ser por esse gesto. O fim da escravidão negra foi um ato político difícil, baseado em cálculos precisos. A maior figura da abolição foi o paulista Antônio da Silva Prado, conselheiro do Império. Foi ele quem negociou com os fazendeiros, especialmente os paulistas da cultura do café, o fim do veto à abolição. Fez uma troca: os fazendeiros abriam mão da escravidão e também da indenização pelos escravos libertados, e recebiam em troca, gratuitamente, os colonos europeus, com imigração subvencionada pelo governo.” Foi uma troca lucrativa: com o fim do tráfico negreiro, em 1850, o preço dos escravos rapidamente triplicou. A escravidão tornou-se antieconômica, o que inviabilizaria a cultura do café e da cana. “O trabalho livre substituía escravo caro por branco gratuito. Um alto negócio”, diz Martins.

Na quinta-feira, dia seguinte à homenagem à princesa, o lavrador João Paulino levantou-se às 5 horas e caminhou 8 quilômetros até a fazenda onde trabalha. Ele seguiu a profissão que aprendeu em família: desde muito pequeno, dá duro da manhã à noite nas roças de milho e de cana-de-açúcar e na criação de gado leiteiro. Conseguiu estudar um pouco aos 7 anos (aprendeu a ler e a escrever), outro pouco aos 8 (tomou conhecimento dos números) e mais nada. Desde então, sua vida é roça - exceto pelos momentos em que faz arte. Diz tratar-se de uma sorte, “um milagre que a gente recebeu” ter começado os “atos” (como ele chama toda arte que produz) da Princesa Isabel.

Aos 71 anos, apesar de se dizer aposentado, João Paulino continua pegando na enxada quase todo dia, por motivos de inspiração. Está relacionado, ele explica, a um dos temas da sua vida: a escravidão. “Essa parte (o trabalho diário) me ajuda muito sobre os atos do trabalho dos escravos. Como eles trabalharam no milho, no feijão e no arroz, na data deles, até a libertação, eu estou trabalhando nessa mesma profissão que eles trabalhavam antes, para não deixar de entender como eles sentiam.”

O lavrador sabe pouco sobre a vida do avô, porque seu pai não era muito de perguntar. Ele conta que vivia por ali, na senzala de uma fazenda que ele não soube indicar o nome, quando Desterro do Melo ainda fazia parte do município de Barbacena. Para viver, a família recebia, a cada tanto, dois quilos de feijão, dois quilos de arroz, três ou quatro quilos de fubá, duas ou três rapaduras para a mulher e os filhos se manterem. “Até mesmo a gordura do porco, que eles matavam, eles doavam para as pessoas fazer o mantimento.” E assim a família ia vivendo, contou-me o João Paulino.

Quando foi liberto, seu avô, agora um ex-escravo chamado Paulino, recebeu dos antigos senhores a oferta de continuar trabalhando para eles. Teria uma roça e um rancho e poderia produzir sua comida ali. Mais tarde, os estudiosos do período chamariam a prática de concessão de uma “roça de sobrevivência”. “Os escravos que aceitaram a oferta e ficaram no campo representam uma das trajetórias dos escravos pós-abolição. Permanecer na terra dos antigos senhores era uma forma de manter a estrutura, proporcionavam a manutenção da deferência em relação ao agora ex-senhor”, explica a professora Cristina Wissenbach. 

Ao aceitar a oferta dos antigos senhores, o ex-escravo Paulino definiu a presença da família naquela região também. Isso explica o porquê de o neto, João Paulino, ter ficado em Desterro do Melo até a atualidade. O próprio lavrador-poeta morou a vida toda em uma choupana de pau a pique cedida pelos donos da fazenda onde nascera (uma família chamada Faria) e, somente poucos anos atrás, mudou-se para a cidade. Vive hoje de favor em uma casa simples, que chama de “meu barracãozinho”, propriedade dos mesmos patrões. João Paulino não se queixa - é agradecido e, como muitos descendentes de ex-escravos que permaneceram no campo após a abolição (outra parcela foi para as cidades, viver na miséria), manteve uma postura de deferência em relação aos patrões. “Essa é uma das razões pelas quais setores do movimento negro não comemoram o 13 de maio. Desde aquela época, quando a sociedade oligárquica da Primeira República não tinha nenhum interesse em desfazer esse processo de subserviência, os grilhões nunca foram realmente quebrados”, diz o professor Nelson Inocêncio, que coordenou o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade de Brasília (UnB) entre 2001 e 2014. Logo após a abolição, quando os ex-escravos que ficaram no campo decidiram se revoltar, foram duramente combatidos. Canudos é exemplo disso.

No caso da família de João Paulino, a permanência na fazenda significou uma perpetuação da deferência pelos patrões, ex-senhores - uma das trajetórias possíveis para os descendentes de escravos. Mas mesmo isso, agora, parece também estar mudando. Desde que começou a homenagear a princesa, e que ficou mais conhecido na cidade e na região, João Paulino começou a refletir mais sobre a forma como passa aos outros a sua história. “Parece que eu me reconheci mais como negro, com outros aspectos e outros atos do que se chama de consciência negra”, ele disse. Nos últimos anos, começou a participar de grupos de debate em Juiz de Fora, a 150 quilômetros dali, sobre a valorização da capoeira, da congada, de outras manifestações da cultura negra. Mesclou esses temas nas conversas com as crianças nas escolas, que faz periodicamente em Desterro do Melo e Barbacena.

Às crianças que o rodearam quando retornou de Petrópolis, celebrando sua aparição televisiva, ele concedeu palavras de incentivo. “Eu falei: ‘Vocês têm o direito também, viu? Pode ser com futebol, como artista, como escritor, como professor, vocês têm o direito também, viu?’ ” E mostrou a elas as duas medalhinhas de prata que havia levado consigo: uma de 1888, com a imagem de D. Pedro I, e outra de 1907, com a imagem da Princesa Isabel (ganhou ambas dos ex-patrões). A criançada fez festa e voltou para casa gritando o nome do lavrador pelas ruas (são exatas 15 ruas) de Desterro do Melo. Pelo menos em sua cidade, na terra habitada por três gerações de sua família, João Paulino parece ter alcançado um posto que talvez nem almejasse. Por lá - e inclusive na vizinha Barbacena e, desde 2012, também em Petrópolis -, deu novo sentido aos versos que escreveu pensando no avô e tornou-se um homem com outro desígnio. De permanência.

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