A palavra do ano

Só há uma capaz de dar conta de uma dúzia de meses tão horrorosos, ter força de tsunami e riqueza semântica para unir prosa e poesia: lama

Sérgio Rodrigues, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2015 | 16h00

No dia 16 de novembro o dicionário Oxford, o mais importante da língua inglesa, elegeu um emoji como Palavra do Ano. Convém explicar: não a palavra “emoji”, cunhada no Japão pela junção de e (imagem) + moji (letra) e dicionarizada pelo próprio Oxford desde 2013. O escolhido foi um emoji mesmo, figurinha cartunesca que conjura o estado de espírito do remetente na comunicação online – no caso, coroou-se a carinha de maior circulação em 2015, aquela que chora de tanto rir. O detalhe esperto de consagrar a coisa em vez da palavra que a nomeia tornou especial a eleição do Oxford, é claro. No fundo, ajuda a explicar a própria escolha.

Reféns da lógica marqueteira, afinal, somos todos a esta altura do terceiro milênio. Quem não sentiu um arrepio novidadeiro ao saber que a bíblia do idioma inglês tinha inovado em sua eleição e consagrado algo que nem sequer é uma palavra, que pula fora do verbo para significar de outra forma, prenunciando a nova gramática da comunicação digital, blá-blá-blá? (Pode ser isso mesmo, não duvido. Só me intriga nunca terem concedido o mesmo prestígio aos coraçõezinhos que adolescentes suspirosas passaram séculos bordando nas margens de suas cartas.)

Seja como for, seguir o Oxford e transformar qualquer emoji em Palavra do Ano no Brasil seria só um atestado de servilismo cultural. Não porque carinhas risonhas, tristes ou raivosas sejam acessórios escassos nas mensagens e comentários que produzimos online. Ocorre que a eleição de um único signo ou vocábulo para sumarizar um ano inteiro, ideia de ousadia quase leviana, só se justifica se tiver como objetivo captar um certo espírito do tempo. E o espírito que nos assombrou este ano não podia estar mais distante de um fantasminha camarada.

Presidente zumbi, oposição banana, bandidão dando as cartas no cassino republicano, teatro político dividido entre incompetentes e facínoras à espera da visita da Polícia Federal, crise econômica a perder de vista, PM ultraviolenta como último recurso da ordem contra as tensões sociais que se avolumam – a vida no Brasil em 2015 não esteve para frescuras de emoji ou prenúncio de novas gramáticas digitais. Nem mesmo para o pasmo sensato com os desafios que nossa contemporaneidade disruptiva (boa candidata a Palavra do Ano, qualquer hora dessas) oferece a cada esquina do labirinto digital que vai sendo construído mundo afora, sem fio de Ariadne e com Minotauros clonados ao infinito.

Espero não ser mal compreendido: seria ótimo ter tempo para matutar sobre coisas assim, exercitar a inteligência com os novos enigmas que confrontam a espécie, acessar o Zeitgeist do mundo. Seria, mas é natural que questões mais comezinhas de sobrevivência – material, política, institucional – abafem tudo: 2015 foi o ano em que bateu a ressaca dos recentes anos de euforia econômica maluquete. As palavras que vieram zumbir feito moscas ao redor do florão da América não carregavam novidade nem apontavam para o futuro, pelo contrário – trouxeram codificada a própria negação de um porvir decente. Eram oriundas do buraco em que a sociedade brasileira guarda o que tem de mais arcaico: corrupção, recessão, inflação, crise, golpe, pedalada, desemprego, depressão, violência, obscurantismo, racismo, machismo, preconceito, desalento.

Os poucos de nós que conseguiram exercitar alguma abstração tentaram situar a avalanche de estrume num quadro histórico: falaram em patrimonialismo, fisiologismo, falência do cenário educacional, do modelo de governabilidade, do quadro partidário. Tudo verdade, mas verdade parcial. Uma boa Palavra do Ano precisa, para dar conta de uma dúzia de meses tão horrorosos, ter força de tsunami e riqueza semântica capaz de unir prosa e poesia, isto é, o pé da letra e o sentido figurado. Uma missão que seria quase impossível se não fosse a incúria emporcalhadora de uma empresa chamada Samarco, pertencente à Vale, acrescentar à galeria de desgraças de 2015 o maior desastre ambiental da história do Brasil.

Indiscutível: a Palavra do Ano no País é o substantivo feminino lama, que o português foi buscar no latim lama em sua primeira infância, lá no século 10. Força de tsunami? Confere: os 60 bilhões de litros que vazaram de uma barragem em Mariana (MG) no dia 5 de novembro deixaram um rastro de devastação até o Espírito Santo e foram bater no mar. Pé da letra? Confere: a primeira acepção da palavra no Houaiss é “mistura viscosa, pegajosa, de argila, matéria orgânica e água”. Sentido figurado? Confere também: a segunda acepção é “caráter daquilo que degrada, envergonha; ação vil; baixeza”.

É como se o proverbial mar de lama da corrupção institucionalizada – expressão que Carlos Lacerda, atacando o presidente Getúlio Vargas, transformou nos anos 1950 num dos bordões de maior sucesso da política brasileira – tivesse deixado de caber nas represas da metáfora, jorrando país adentro num golpe de realismo mágico que Gabriel García Márquez apreciaria. Reconhecer que é difícil imaginar cenário mais desolador não deixa de ser uma forma de esperança.

SÉRGIO RODRIGUES JORNALISTA, CRÍTICO LITERÁRIO E ESCRITOR, É AUTOR DO ROMANCE O DRIBLE (COMPANHIA DAS LETRAS), VENCEDOR DO PRÊMIO PORTUGAL TELECOM DE 2014

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