Pablo Di Giulio
Pablo Di Giulio

A real concentração

Mônica Manir, O Estado de S. Paulo

14 Fevereiro 2015 | 16h00

Pablo Di Giulio fala muito bem o português, mas basta uma tirada em espanhol para desconfiar que tem argentino no samba. Nascido em Buenos Aires em 1957, mora no Brasil desde 1964, com um retorno à terra natal de 1972 a 1979, tempos surreais de repressão. É um dos donos da galeria Fass, corruptela de Fotógrafos Associados, pensada para ser uma cooperativa. “Na verdade, é Forças Armadas Socialistas Solitárias, nosso negócio é sequestro e extorsão, isso é uma fachada”, ri. 

Pablo é um tiradista e um retratista. Por anos focou nos artistas plásticos, entre eles Volpi, Walter Lewy, Hércules Barsotti, Beatriz Milhazes e Tomie Ohtake. Mas também se ocupou longamente de anônimos como os que habitam estas páginas, personagens da série Retratos Calados, exibida em 2007 na Pinacoteca de São Paulo. São todos, como se vê, integrantes de desfiles de carnaval, evento com o qual Pablo tem um pé na frente e outro atrás. Ao mesmo tempo que se contamina pelo que chama de “festa negra”, se incomoda com a cooptação dessa energia pela mídia. “O sambódromo é um confinamento de clichês”, diz. A seguir ele desvenda este ensaio, uma junção de Dionísio com Buda, nas palavras do pintor José Roberto Aguilar. 

Quando começou a colher estes retratos?

Tudo começou com um documentário que eu queria fazer do Joãosinho Trinta. Passei a me envolver com o trabalho dele e ir ao Rio, ano após ano, de 1996 a 2006, durante o carnaval. O documentário acabou não sendo feito porque não consegui a verba. Mas nessa década recebi credencial da Playboy para fazer fotos de mulheres na avenida. No paralelo, registrava com liberdade as imagens que queria.

E por que fotografar seus personagens de olhos fechados?

Desfilei sete vezes no sambódromo. A escola toda passa em 1h22, mas cada integrante desfila em no máximo meia hora ou até menos, porque hoje tem mais gente, tem que correr mais. Aquelas pessoas se preparam o ano inteiro e, quando acaba, fica a sensação de “o que estou fazendo aqui?”. Quis passar essa ideia nestas fotos: vamos parar, vamos pensar um pouco no lugar que estamos ocupando. É uma espécie de protesto também. Quando se está no sambódromo, basta mostrar a câmera para alguém que esse alguém faz aquela coreografia da TV. Todas as fotos ficam iguais. Daí passei a dirigir as pessoas no seguinte sentido: “Vou fazer uma fotografia tua, por favor, feche os olhos e não sorria”. Era incrível. Elas se centravam mais. Era a real concentração. 

Por que fazer alguns integrantes divididos em três partes, com as mãos abertas?

Aqui já é outra história: parece uma blitz. Mas fundamentalmente é porque, na mão, está toda a história tua. A palma da mão também é um tipo de retrato.

Você jogou uma luz no rosto de alguns personagens. A iluminação da avenida não era suficiente?

Optei pela Rolleiflex, máquina que usa filme e tem pouca sensibilidade. Hoje em dia, pra fotografar pra internet, você precisa de pouquíssima luz, a tela te dá definição. Mas, como eu já sabia que as fotos seriam expostas em papel, elas tinham de ter qualidade. Então eu precisava de mais luz, especialmente porque a maioria das fotos foi feita na concentração, um ambiente escuro. Usei uma lanterna de caverna, dessas que ficam presas à testa.

No final dos anos 1990, muita gente já fotografava com câmera digital. E você optou pela Rolleiflex...

O Cartier-Bresson dizia que quem fotografava com Rolleiflex fotografava com o estômago. A Rolleiflex te permite olhar o visor de cima, não precisa colocar a câmera no rosto, o que faz toda a diferença quando se está retratando pessoas. Outra vantagem é o fato de ser quadrada. É um enquadramento de que gosto muito porque acho a câmera de 35 mm mais cinematográfica que fotográfica. Quando se fotografa gente, sobra muito espaço. Se eu faço você aqui agora, por exemplo, aparece um trecho de parede que não me interessa em princípio.

Pretende voltar à avenida e fazer outros retratos calados?

Neste momento, estou absolutamente envolvido com a fotografia moderna, que é a fotografia de 1910 até 1950. No Brasil existe uma escola de fotografia moderna ligada ao Foto Cine Clube Bandeirante, que funcionou aqui nas décadas de 1940 e 50. Geraldo de Barros, Lorca... O grande barato dela é resgatar a fotografia como linguagem não documental, deixar o registro da realidade em segundo plano. Nesse meu mergulho, acabei obviamente indo pros russos, alemães e americanos. Quando você faz essa pesquisa e é fotografo, não tem jeito de não questionar seu trabalho. Minha questão agora é sair da narrativa, mas não sei como. Então, por enquanto, estou num período de reflexão.

Você fechou os olhos.

Acho que sim... (rs). É possível.

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