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A religiosidade de Andrei Tarkovski em 'Stalker'

Filme clássico da ficção científica era repleto de simbologia cristã e refletia fé do diretor

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2017 | 16h00

O cineasta russo Andrei Tarkovski (1932-1986) era cristão. Justo, portanto, que Stalker traduza sua fé, mesmo que o livro dos irmãos Strugátski, Piquenique na Estrada, origem do seu filme, seja laico. De qualquer modo, filme e livro formam uma parábola sobre a presença do sobrenatural no mundo ordinário: num tempo indefinido, o ‘Stalker’ do título leva um escritor e um professor a um território interditado pelas autoridades.

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Pelas primeiras imagens, sabe-se que a enigmática “Zona” fica numa cidade com usinas nucleares. Mas foi outro o motivo que levou governo a proibir o ingresso na Zona: a invasão daquele espaço por alienígenas, o que explica os procedimentos do ‘stalker’ para testar a ausência de gravidade em determinados pontos do percurso, atirando aleatoriamente porcas de ferro.

Seja como for, a meta dessa jornada é um quarto sobrenatural onde os visitantes poderão concretizar seus desejos mais íntimos. Um homem que perdeu o irmão na Zona, conta o Stalker, desejou ficar rico e, de fato, ficou, mas se enforcou em seguida – talvez pela culpa de não ter desejado que o irmão fosse poupado da morte, em vez de ambicionar fortuna. Stalker, acima de tudo, trata de altruísmo, do sacrifício pelo outro – e o próprio guia tem uma filha mutante e paranormal com poderes telecinéticos, pela qual o ‘stalker’, um ex-presidiário, arrisca-se na misteriosa Zona.

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Em Stalker, os viajantes não sabem o que desejar. O escritor, em crise criativa, busca na Zona um tema inspirador. O professor, um cientista, quer decifrar o enigma, mas desconfia que a realização de desejos coletivos pelo “quarto” pode levar ao caos. Planeja explodir o lugar. Stalker, ao contrário, é presciente como a Zona que visita. Lamenta que não seja possível mudar pessoas nem libertá-las (a ‘zona’ é vista por ele como um espaço de pacificação, apesar do aspecto caótico de um lugar atingido por um meteorito).

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A hipótese desse teorema de Tarkovski é apresentada num prólogo monocromático. Dirige o espectador para uma tese policromática dentro de uma zona que contrasta com o mundo exterior – deteriorado, consumido pela ferrugem. Com a crença euclidiana em seu teorema, o cineasta faz o escritor chegar ao fim da jornada com a coroa de espinhos do Cristo na cabeça. Detalhe: o ator que interpreta o escritor, Anatoly Solonitsyn, Tarkovski e sua mulher acabaram sacrificados por causa de Stalker. Morreram todos de câncer após a filmagem em locações contaminadas por uma indústria química.

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