A revolução que ninguém viu

Proibidos e perseguidos por Fidel Castro por três décadas, os roqueiros de Cuba fincam sua bandeira da vitória no show dos Rolling Stones

Julio Maria ENVIADO ESPECIAL / HAVANA, O Estado de S.Paulo

26 Março 2016 | 16h00

As guitarras da banda Los Kents não se parecem muito com bombas atômicas. Criadas com tampas de madeira retiradas dos vasos sanitários, seu corpo é arredondado, suas cordas são grossas de ferrugem e seus captadores existem graças aos ímãs roubados de telefones públicos de Havana. O som sai ligeiramente abafado e a afinação tem um prazo de validade que leva entre 15 e 20 minutos antes de desabar, tempo suficiente para levar as garotas aos céus e fazer Fidel Castro ter seus piores pesadelos. Em um deles, as guitarras fariam um novo ataque pela Baía dos Porcos, com o desembarque de jovens cabeludos tocando Jumping Jack Flash enquanto tomavam o poder e sufocavam os soldados revolucionários. Um outro começava em uma das tradicionais festas que as famílias promoviam para comemorar os 15 anos de suas filhas. Depois de controlar os movimentos dos jovens tocando She Loves You, a banda saía em direção ao Capitólio pregando a nova ordem. As guitarras dos Kents não se pareciam muito com bombas atômicas, mas seu efeito poderia ser tão devastador quanto. Por via das dúvidas, era melhor destruí-las.

E assim Fidel declarou o rock inimigo público número dois de Havana, um mal que trazia sob suas vestes inocentes o espírito traiçoeiro justamente do inimigo público número um: os imperialistas norte-americanos. Até que os Rolling Stones passassem pela ilha – ingleses como os Beatles, mas, aos ouvidos vermelhos, soando a serviço da mesma ideologia dominadora de Washington –, uma luta que o mundo não viu se deu nos porões em ruínas de Cuba. De um lado, o aparato repressivo policial e uma propaganda de efeito cultural avassaladora. De outro, garotos de 16 anos que faltavam às aulas para tocar guitarras feitas no quintal, cheios do desejo subversivo de cantarem uma outra música que não fosse salsa, bolero, son ou chá-chá-chá.

Humberto Garcia desliza as mãos sobre sua guitarra como se ela fosse um troféu. Seu filho mais novo, baterista, tem o nome de um dos seus maiores ídolos, Elvis. Nas paredes da casa de quatro cômodos no bairro periférico de Cerro, há fotos da família, dividida hoje entre Havana e Miami, e pôsteres de seus mestres. Jimi Hendrix está no maior. Um dia, por aquelas ruas, havia mais bandas de rock do que guerrilheiros em Sierra Maestra. Los Hanks, Los Mensajeros, Los Átomos, Los Walkers. Eram os combos, a forma carinhosa como os cubanos chamavam os quartetos ou quintetos que proliferaram pelo mundo depois da explosão da beatlemania. Sua agrupação, o Sesiones Ocultas, trazia alguns quilos a mais de distorção nos solos de guitarra que faziam flutuar os fãs do Led Zeppelin e do Deep Purple. “Muitos jovens que nunca tinham escutado um disco desses grupos acabavam conhecendo-os apenas por ouvir as bandas tocando suas músicas em Havana”, ele recorda. A existência do rock na Cuba isolada dos maiores produtores capitalistas do gênero nos anos 1960 desafiava o entendimento estratégico de qualquer revolucionário.

Afinal, por onde os malditos entravam? Gravadoras como Philips, Motown, Odeon e Warner não incluíam Cuba entre seus clientes por razões óbvias. O país já respirava as salsas e os boleros bailando dentro da redoma de vidro do embargo comercial proposto pelos Estados Unidos. Se os toca-discos, peças do período pré-revolução, eram raros, os LPs tornaram-se inexistentes. Até o dia em que um amigo filho de pai diploma ou marinheiro chegasse com um preciosidade dos Animals debaixo dos braços. “Era uma loucura, corríamos todos para a casa desse colega”, diz Juan Garcia, 62 anos, o Juanito, professor de História e Filosofia. “Isso nunca nos deteve”, conta o cineasta Eduardo Del Llano, 53 anos, ostentando uma grande tatuagem com a boca dos Stones no braço direito. “Eu andava por 20 quilômetros para ouvir um LP de um amigo.” Era apenas o primeiro contato.

Não houve uma lei, ao menos divulgada, de que o rock and roll tenha tido sua execução proibida nas emissoras de rádio e TV cubanas. Mas as piores leis, os cubanos sabem, não precisam estar escritas. De novo, por onde os malditos entravam se a mídia estava impedida de tocar rock? Invisíveis, eles voavam pelos ares. Elvis Presley, Little Richards, Bo Didley, Chuck Berry, Fats Domino, Jerry Lee Lewis e toda a tropa da primeira infantaria partia sobretudo das emissoras de rádio da Flórida, nos Estados Unidos, sugada pelas antenas das casas de Havana, apontadas estrategicamente para a costa norte-americana. “Aprendemos a fazer essas peças em casa com varas de pescar. Algumas captavam sinais até de emissoras do Mississippi”, diz Humberto. Outros músicos subiam nos telhados com seus potentes rádios de pilha soviéticos à espera do sinal de emissoras como a Beacon Street, do Arkansas, ou a WQWF, de Miami. “Foi assim que eu ouvi o primeiro rock da minha vida”, diz Juanito. Os músicos que quisessem aprender uma nova canção do Pink Floyd precisavam esperar ela tocar algumas vezes até que conseguissem decorá-la.

Uma terceira pergunta afligia os comandantes. Afinal, quem abastecia os subversivos se as grandes empresas fabricantes de instrumentos e acessórios, como Fender e Gibson, não tinham negócios com Cuba? Com um pouco de criatividade e conhecimento aprendido nas escolas de Fidel Castro, os próprios jovens construíam seu armamento. “Vou te contar algo bem baixinho para ninguém ouvir: nós roubávamos os ímãs dos alto-falantes dos telefones públicos para fazer captadores”, diz Carlos Castanho, baterista e diretor musical do grupo Los Kents. A produção “criola”, como os próprios cubanos chamam, fornecia ao mercado contrabaixos com cordas de violoncelos, guitarras com arames esticados e amplificadores com 25 watts de potência. “Isso já era um luxo para nós”, diz Castanho.

Sem poder aniquilar o inimigo em seu nascedouro, Fidel decidiu combatê-lo onde ele se proliferava. Algo que, tecnicamente, não deveria ser difícil. Os roqueiros já estavam oficialmente fora das rádios, banidos pelas TVs e ignorados pelos estúdios estatais de gravação, teatros e festivais organizados pelo Estado. Quando caminhavam pelas ruas de tatuagens e cabelos compridos, ou eram atacados por grupos de populares pró-regime, que cortavam seus pelos em excesso à força, ou levados pela polícia para uma averiguação seguida de um generoso corte militar pago pelo comandante. “Me lembro de um amigo que saiu correndo da polícia para não ter seu cabelo cortado. Quando foi atravessar a rua, acabou atropelado. Os policiais o levaram para um hospital e, depois, cortaram seu cabelo”, diz Juanito. Assim, apenas um palco restava ao rock: as festas de 15 anos, uma forte tradição nas famílias cubanas.

Os combos eram o maior presente que uma mãe poderia dar a sua filha. E a necessidade dos tempos em que Cuba não sabia tampouco o que eram aparelhagem de som para discotecagens mecânicas garantia o espaço da música ao vivo. As garotas de 15 anos se apaixonavam mais ao som de roqueiros doces como Los Llopis, Luis Bravo, Los Satélites de António Romeu e Los Diablos Melódicos do que aos sons campesinos de Compay Segundo ou aos boleros de Ibrahim Ferrer. Atento ao controle do embrião que não podia crescer, o regime colocou as “festas dos 15” na mira. Agentes à paisana iam às casas para filmar e fotografar bandas de rock. Alunos que fossem identificados como integrantes tinham sua expulsão certa. Aos poucos, por interferência ou não dos militares, espalhou-se também a ideia de que os bailes eram resquícios do pensamento burguês pré-revolução. “Elas foram sendo desestimuladas”, lembra Humberto. E os roqueiros sentiram o golpe. Muitas bandas de rock não resistiram e também começaram a desaparecer antes mesmo de gravar um único disco. A insistência da juventude em aderir à praga deveria chegar ao fim. Fidel apertou mais a corda e criou dois termos para enquadrar os subversivos: “diversionismo ideológico” e “penetração cultural”. O grupo Almas Vertiginosas sofreu mais. Quando se apresentava em uma festa de Santa Fé, foi levado pela polícia e, acusado da prática de diversionismo ideológico, teve seus instrumentos confiscados – o equivalente a colocar os sonhos de uma banda cubana no paredão.

Sufocados, alguns grupos sobreviventes jogaram a toalha e se converteram à música tradicional. Outros decidiram travestir-se, cantando em espanhol e mesclando as origens afro-hispânicas à linguagem do rock. Aos músicos que aderissem às tradições oficiais da ilha eram oferecidas as mesmas benesses dos cantores e percussionistas dos clubes de salsa de Havana Vieja. Eles deveriam passar por um teste técnico, se filiarem a uma associação estatal, cantarem em espanhol e, sobretudo, arremessarem suas guitarras nas encostas do Malecón. Ao serem profissionalizados e doutrinados nas dores do amor de Dos Gardênias e Besame Mucho, ganhariam os salários do Estado e poderiam sonhar, um dia, em gravar um disco nos estúdios da Egrem, a única gravadora estatal de Cuba.

Dago Pedraja decidiu esperar. Aos 59 anos, é hoje um dos heróis do império minúsculo chamado Submarino Amarillo. A pequena casa de shows decorada com capas de discos dos Beatles e especializada em bandas cover, ao lado da estátua de John Lennon, o homem que tanto sono tirou de Fidel Castro, é a bandeira de uma vitória que levou 50 anos para ser declarada. Depois da derrocada no final dos anos 60 e início dos 70, o rock voltou a respirar, mesmo sem nenhum apoio oficial. Centenas de artistas se espalharam pelas ramificações saídas de Beatles e Stones, do heavy metal ao hardcore, mesmo cientes de sua eterna condição de alternativos dentro de um país com vocação para o underground. Pedraja tem um disco que poucos ouviram e três que ninguém nunca quis lançar, gravados com uma guitarra que ele só conseguiu aos 40 anos de idade. “Meu país é aqui, e é nele que eu quero viver. Sei que não é fácil entender, mas não guardo rancores. Eu já toquei pelos Estados Unidos e pela América do Sul, mas sempre retornei. A minha inspiração está em Cuba.”

 

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