Toni Pires | DIV
Toni Pires | DIV

‘A sublime linguagem te ensinaram’

A epopeia de jovens da periferia que, embebidos de literatura clássica, refizeram sua jornada para ganhar outros universos

Lourival Sant’Anna, O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2016 | 16h00

Uma regra não escrita vigora nas escolas públicas do Brasil: é proibido sonhar alto. Quando se pergunta a um jovem pobre o que quer ser quando crescer, ele não paga o mico de citar uma profissão que envolva entrar em uma boa universidade, sob pena de ser ridicularizado. Isso não é para ele.

A irmã mais velha de Keila Cândido resolveu descumprir essa regra e estudar Direito na Faculdade Metodista, em São Bernardo do Campo. Keila decidiu que não faria faculdade depois de testemunhar o sofrimento dos pais para ajudar a irmã a pagar as mensalidades. Seu sonho adaptado à realidade era ser recepcionista em empresa de plano de saúde.

Os pais de Keila vieram de Orós, no Ceará, há 40 anos. Sua mãe, costureira, parou de estudar na 8ª série porque precisava trabalhar. Seu pai fez apenas até a 4ª série e trabalha como cegonheiro (motorista de caminhão que transporta automóveis), mesma profissão de três de seus tios, do irmão de 29 anos e de vários primos. Ela não tem fotos de quando era criança, porque sua infância coincidiu com a fase de maior penúria da família. Aos 13, o destino de Keila parecia selado. Foi quando ela conheceu os Círculos de Leitura, programa do Instituto Fernand Braudel, que atende alunos de escolas públicas em São Paulo e em 34 cidades do Ceará.

“Depois que entrei no Círculos, fui abrindo a mente e pensei que até seria possivel entrar na universidade.” Inspirada no jornalista Norman Gall, que dirige o Instituto Braudel, Keila prestou para jornalismo na Metodista. Com sua nota no Enem, ganhou 100% de bolsa do Pró-Uni.

“Eu não lia até os 13 anos”, recorda Keila. “Sabia ler, mas não lia. Não tinha incentivo. O Círculos de Leitura me apresentou os escritores e me tirou da preriferia. Fiz a jornada. Vim para São Paulo”, diz ela, usando um tema recorrente no programa. Inspirados na leitura da Odisseia, de Homero, os jovens entendem que sair da periferia e vir à região central, visitar museus, teatros e parques e participar da formação de multiplicadores na sede do programa equivale à jornada de Telêmaco, filho de Odisseu, em busca de seu pai.

Quem vive na periferia se sente muitas vezes intimidado de ir para os bairros mais ricos, onde estão os chamados “equipamentos culturais”. Desde pegar o ônibus ou o trem para atravessar São Paulo até entrar nesses espaços que, ainda que “públicos”, não parecem feitos para os mais pobres, é uma aventura para quem mora nos extremos da cidade. A leitura de clássicos e a companhia de jovens como eles os encorajam a fazer essa travessia, que coincide com sua transição para a vida adulta.

O programa forma grupos de 8 a 12 alunos. Sentados em círculo, eles lêem pausadamente em voz alta alguns parágrafos e correlacionam o texto com suas vidas. Um coordenador faz um relatório sobre as discussões. A equipe do programa o examina e escolhe o texto do encontro da semana seguinte, de acordo com os temas mais importantes para o grupo. O jovem sente que não está sozinho porque outras pessoas o ouvem atentamente, contam suas histórias também, e porque vê que seus dramas e dilemas de adolescente foram vividos ao longo dos séculos pelos personagens dos clássicos.

“Foi essencial para mim”, garante Keila. “Meus colegas da escola continuam na mesma vida, muitas meninas engravidaram cedo. Não sabiam que podiam sonhar ir para a universidade.” Com a ajuda de custo de multiplicadora, ela pagou um curso de informática aos sábados, enquanto seus pais bancavam o de inglês aos domingos. Já no primeiro ano de jornalismo, em 2008, entrou para estágios nas revistas da Editora Globo. Saiu da Época para trabalhar em uma agência para investidores do Banco do Brasil. Não lhe pagaram. Entrou na Justiça e foi estagiar na Veja. Com o dinheiro da ação contra a agência, fez intercâmbio na Nova Zelândia. Depois trabalhou na Istoé Dinheiro.

Seu interesse pela China surgiu em um seminário em 2008 no Instituto Braudel com o economista Antônio Barros de Castro, ex-presidente do BNDES. “As relações com o Brasil estavam crescendo, e eu queria mudar de vida. Pensei em investir nesse sonho, mas não tinha noção de como conseguir trabalho.” Mesmo assim, estudou mandarim. Em 2014, foi selecionada para uma vaga na Xinhua.

Indo morar em Pequim, Keila se tornou um símbolo do quão longa pode ser a travessia de um jovem da periferia. Mas seu caso é apenas um de muitos no Círculos de Leitura. Iniciado em 2000, o programa já produziu uma geração de jovens adultos que ocupam posições de destaque em grandes empresas. São pessoas que agarram a oportunidade com a faca nos dentes.

Diferentemente de Keila, William Veras sempre gostou de ler. “Eu era o estranho do colégio, vivia sozinho.” Seu pai era mecânico na indústria automobilística e não via futuro nas aptidões intelectuais do filho. “Tinha preceitos na minha casa”, explica William, hoje com 24 anos, responsável pelo pós-venda de vans da Mercedes-Benz no Peru, Chile, Nicarágua, Costa Rica e Panamá. “Leitura não era coisa para homem. Eu tinha de ser mecânico.”

O Círculos apareceu na vida de William em um momento crítico. Ele tinha 15 anos e estava passando da 8ª série para o 1º ano. Tinha ganhado bolsas de estudo em vários colégios particulares renomados, mas seu pai se recusou a pagar o material didático e a van escolar. “Fiquei muito chateado. Parei de ir à escola. Vivia na biblioteca, queria estudar sozinho. O Círculos me salvou, me ajudou a me encontrar. Mostrou que, porque você não está num bom colégio, não quer dizer que não vai estudar. Obrigou-me a responder: ‘Qual o seu sonho?’”

Os participantes do programa têm de falar toda semana como anda seu “projeto de vida”. Esse é o primeiro grande desafio que a leitura e a discussão dos clássicos os ajudam a vencer: começar a sonhar e acreditar em si mesmos. Além das sessões de leitura e das visitas a centros culturais, o programa lhes proporciona também encontros com adultos, que passam a servir de referência concreta para eles.

“Antes do Círculos de Leitura eu não imaginava nada”, relembra Jacqueline Carvalho, de 25 anos, que trabalha com auditoria externa na Ernst & Young. “Nasci e cresci em um lugar bem humilde.” Sua mãe é manicure e seu pai, mecânico industrial. “Meus pais trabalhavam e eu cuidava da casa e do meu irmão. Não tinha perspectiva nenhuma. Meu acesso a informação era tão limitado que eu não sabia que podia frequentar uma universidade.” Jacqueline participou do Círculos quando tinha 14 anos e depois da Academia de Ciência, outro programa do Instituto Braudel, patrocinado pela Basf, também em escolas estaduais. Com indicação do instituto, onde trabalhou, conseguiu uma vaga remanescente no curso de economia da Metodista, em uma cota para negros. “Mesmo pagando só metade da mensalidade, foi muito difícil”, lembra Jacqueline, que fez estágio na Vanguarda Agro, na Pirelli e na Bloomberg, e foi voluntária em uma pesquisa da ONU sobre o nível de conectividade dos cidadãos, que a forçou a aperfeiçoar seu inglês.

William cursou mecatrônica no ensino médio, mecânica no Senai, administração na Metodista e engenharia de produção na Mauá. Aproveitando os cursos gratuitos de línguas oferecidos pela Escola Estadual Rudge Ramos, em São Bernardo, estudou francês e alemão. Ganhou bolsa do Instituto Goethe e foi aprender alemão em Mannheim. Espanhol e inglês, aperfeiçoou sozinho. Entrou na Mercedes como mecânico de produção, no “chão de fábrica”, e foi galgando posições. Ele atribui sua capacidade de argumentação e de trabalhar com projetos à experiência como multiplicador nos Círculos de Leitura.

No Ceará, em parceria com a Fundação Itaú Social e a Secretaria da Educação, o programa encontrou forte sinergia com as escolas de tempo integral e profissionalizantes e tem mais de 7 mil participantes em 52 escolas de 34 cidades. Em São Paulo, atende 544 alunos, com apoio da Votorantim, e tem continuidade com um programa da Unilever, que fornece ajuda de custo para os jovens fazerem o curso preparatório do vestibular da Fundação Instituto de Administração da USP. Uma vez ingressando na universidade, fazem estágio remunerado no Instituto Braudel e na própria Unilever, que constatou a necessidade de ter entre seus colaboradores pessoas da periferia, que entendem melhor o consumidor emergente.

A Nestlé parece ter chegado a uma conclusão semelhante. “As classes emergentes consomem muito mais biscoito e chocolate do que as abastadas”, observa Rogério Pontes Carvalho, de 23 anos, outro ex-multiplicador do Círculos e estagiário do Instituto Braudel, que hoje trabalha na área de finanças e controle da Nestlé e cursa economia na Universidade Federal do ABC. Rogério entrou no programa com 11 anos, quando fazia a 5ª série em uma escola estadual de São Bernardo. Na 6ª tornou-se multiplicador voluntário e coordenava grupos da 8ª e do 1º colegial. “Antes, não tinha aptidão para ler”, conta Rogério. “Era estudioso, mas lia por obrigação, não por prazer.” Aos 13, começou a ser remunerado como multiplicador, e aos 15 foi morar sozinho. Na casa com os pais e seis irmãos, não tinha ambiente para ler e estudar. Para complementar o dinheiro do aluguel e se manter, foi trabalhar na feira com seu tio. Hoje, toda essa experiência o ajuda na Nestlé.

Nos últimos dois anos, ex-multiplicadores se reuniram em sábados alternados para ler Guerra e Paz, de Leon Tolstoi. A partir do início deste ano, passarão a ler e discutir textos de filosofia política, como parte de um esforço do Instituto Braudel de formar novos líderes para a esfera pública. Não vai ser um passeio. Mas quem disse que esse pessoal veio ao mundo a passeio?

LOURIVAL SANT’ANNA É DIRETOR-ADJUNTO DO INSTITUTO FERNAND BRAUDEL DE ECONOMIA MUNDIAL

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.