A última do Analista de Bagé

Há 35 anos surgia um psicanalista gaúcho mais ortodoxo do que pijama listrado, freudiano de carregar bandeira, e que criou uma técnica hoje reconhecida mundo afora: a terapia do joelhaço. Convocado a dar pitaco, um dos personagens mais conhecidos de Luis Fernando Verissimo fala – agora à luz da maturidade – da balbúrdia política nacional, dos protestos de rua, do trauma do 7 a 1. E vê uma solução ao Brasil: ‘Um grande churrasco. Só é importante saber quem cuida dos espetos’

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2016 | 16h00

Dizem que o Analista de Bagé voltou. Que ele reabriu o consultório em Porto Alegre, colocou de volta na estante o Freud entalhado em imbuia, bateu o pó do pelego que cobre o divã, e mandou entrar a clientela. Afinal, o momento do País é “mais enrolado que linguiça em venda”, e o brasileiro, como ele explicou na última reunião da Sociedade Psicanalítica de Bagé, anda “mais nervoso que gato em dia de faxina”. O Analista não podia se eximir. Mais do que nunca, ele diz, o vivente pode fazer uso de sua mais famosa contribuição à psicanálise: a terapia do joelhaço – golpe na virilha do paciente, “pra sacudir as ideias e restabelecer as prioridades”.

Do jeito que vai a coisa, ele tem usado também o cabeçaço e outras formas de sacode. “Croque de mão fechada” em simpatizante de Eduardo Cunha, “briga de quebrar divã” com admiradores de Gilmar Mendes (pois “tolerância tem limite, tchê!”), atirou outro dia um pela janela, e assim segue a rotina de tratamentos pouco convencionais aplicados aos pacientes – embora ele sempre se diga “mais ortodoxo que caixa de Maizena” e “freudiano barbaridade”.

Pues então o Analista de Bagé está de volta. Quase à força, convocado a falar pelo Aliás, mas está de volta – como concorda o escritor Luis Fernando Verissimo, criador do personagem. A figura apareceu pela primeira vez há 35 anos, em O Analista de Bagé (L&PM), cuja primeira edição se esgotou em um dia. De 1981 para cá, foram lançadas 100 edições com várias coletâneas de histórias do personagem – estereótipo do gaúcho machão, que fez fama nacional com máximas bem-humoradas nada corretas, misturando psicologia e ditos populares dos pampas.

Nesta entrevista, um psicanalista bageense agora amadurecido fala de figuras da política nacional, do resultado das manifestações de 2013 em diante, da aplicação do joelhaço pra amenizar o trauma do 7 a 1 e de preconceitos que perdeu – hoje, tem “todo o respeito” pelos homossexuais e só dá tapas “a pedidos”. Buenas, como ele diria, “se abanque no más” no divã coberto com lã de ovelha e aceite a bomba de chimarrão. Ele gosta de “charlar passando a cuia, que loucura não tem micróbio”.

Como o índio velho anda se portando aí no consultório? Quais problemas têm aparecido?

Pues tem dado muita dupla personalidade, tchê. Vivente repartido que nem forquilha. Um lado achando que estão fazendo maldade com a Dilma e o outro querendo matar a mãe. O pior é que um sintoma disso é incontinência urinaria, e o meu pelego é que sofre.

E o vivente fala muito do momento político? Como isso tem afetado a psiquê da clientela?

Antes de aceitar um cliente, minha recepcionista, Lindaura, faz um questionário. O que o cara pensa, de quem ele gosta e não gosta, quais são suas idéias. Dependendo das respostas, ele entra e eu dou consulta, ou ele entra e a gente briga de quebrar o divã. No outro dia atirei um admirador do Gilmar Mendes pela janela. Acho que se deve ser tolerante com todo o mundo, mas sem exagero, tchê...

E o processo de impeachment da presidente Dilma, como se manifestou aí no pelego?

As opiniões se dividiam. Haviam os que queriam impeachment, os que não queriam impeachment e os que não conseguiam pronunciar a palavra corretamente.

Que terapia pode ajudar a aguentar esse vaivém?

A solução é um churrasco para todos se entenderem. Só é importante saber quem cuida dos espetos.

Uma figura que apareceu muito nos últimos tempos foi o Eduardo Cunha. Acha que ele precisa de algum tratamento?

Minha mãe nos mandava escolher o croque. Só com um dedo destacado ou a mão inteira fechada. Acho que o Eduardo Cunha merece o croque numero um da velha. Como doía! E pensar que, segundo a teoria freudiana, eu queria dormir com ela!

Tem aparecido muita gente se queixando de arranca-rabos por causa de política? Muito índio velho magoado?

Pois é, tchê... Tem gente se xingando, trocando pontapés e pranchaços e querendo comer o fígado do outro. Acho que é o que chamam de politização.

Dizem que, nos protestos de rua de 2013, “o brasileiro aprendeu a protestar”. O que o sr. acha dessa afirmação?

Concordo. Não só aprenderam a protestar como fizeram bastante exercício.

Qual a terapia indicaria a quem, de repente, der pra apoiar a candidatura de um Bolsonaro?

Pues dizem que dentro de cada seguidor do Bolsonaro há em um poeta escondido querendo sair – para bater nos outros.

Vamos falar de futebol. O que achou dos 7 a 1 na Copa do Mundo? Maltratou a cabeça da clientela?

Durante muito tempo depois da Copa recebi pacientes com um joelhaço e perguntava: “Isto é pior do que o 7 a 1?” A maioria concordava que era, mas muitos voltavam, rengueando, para mais uma aplicação.

Depois desse vexame, como o Felipão é visto aí nas tuas paragens? Piorou a reputação do gaúcho como técnico de futebol? Tem o Dunga também...

Me contaram que o Felipão abriu um bar onde atende de peruca, diz se chamar Tougão e só se interessar por handebol. Não sei se é verdade...

E o Dunga? Lá em 81, ele mal tinha saído do juvenil do Internacional.

A má vontade da imprensa com o Dunga, na verdade, é a incapacidade de aceitar a ideia já provada de que tudo que vem do Rio Grande do Sul, fora alguns políticos, é melhor. Eu sempre digo que Deus criou o resto do mundo primeiro e o Rio Grande do Sul quando pegou a prática, mas as pessoas dizem que isso é bairrismo.

O senhor ganhou notoriedade no País por causa da técnica do joelhaço. Continua aplicando esse tipo de terapia? Houve evolução na técnica?

O joelhaço, poucos sabem, foi adotado pela National Psychological Society de Sydney, Austrália, com ótimos resultados, além de alguns processos.

O senhor continua freudiano barbaridade? E incorporou outras influências?

Continuo mais ortodoxo do que pomada Minâncora.

O senhor dizia não atender homossexuais. E hoje, passou a atendê-los no consultório? Ou ainda são recebidos a tapa?

Homossexual, como se sabe, é um bageense que não deu certo, mas a culpa não é dele. Atendo-os com todo o respeito e só dou tapa a pedidos.

Que mudança!

Tolero de tudo, menos bombacha com miçanga. Tem que haver um limite.

Como vê as conquistas das mulheres nos últimos anos?

Respeito todos os direitos das mulheres, desde que elas respeitem os meus. Como meu direito de ter o chimarrão pronto na hora certa sem precisar pedir...

Sobre relacionamentos a três, o sr. dizia que “quem gosta de aglomerado é mosca em bicheira”. Mas nos últimos anos vários casais poliafetivos conquistaram o direito de se casar. O que acha desse costume?

Tchê, sou a favor do amor poliafetivo, desde que algumas coisas fiquem acertadas antes. Quem dorme no meio? Quem vai ver que barulho foi aquele na cozinha? Quem busca meu chimarrão?

Qual sua opinião sobre as redes sociais? O sr. as usa?

Sou contra. As redes são muito mal frequentadas. Sou contra todas as formas de comunicação que vieram depois do peão de recado. Aliás, já escrevi sobre isso no meu Face.

Nos anos 80 o sr. aceitava permutas como pagamento. Uma porquita, uma ovelhita... O que a clientela tem oferecido em dias de dificuldades pra pagar o carnê?

Sempre preferi receber em espécie, inclusive animal. Tenho até uma tabela. Por exemplo, por um caso difícil de depressão, uma paleta de cordeiro. No caso de recaídas, costeletas.

O sr. se dizia a favor da descriminalização das drogas. Estamos mais perto disso?

Sou a favor das drogas em todos os casos, menos as drogas que substituem com vantagem a psicanálise. Um pouco como na questão dos ubers e dos taxis.

Lindaura continua aí contigo? Segue buenacha?

Lindaura, a recepcionista que também dá, continua ótima, só um pouco respondona. Agora mesmo, esqueceu meu chimarrão. Antigamente, em Bagé, isso podia dar morte.

Mate e fumo pro palheiro ainda correm soltos aí no consultório?

Continua tudo igual, menos o cheiro do palheiro, que ficou mais moderno.

O que vocês têm discutido nas reuniões da Sociedade Psicanalítica de Bagé? Continuam tentando te capar?

As reuniões foram suspensas. Um jogo de bolão entre freudianos e junguistas desandou, apareceu arma de fogo e acharam melhor parar. São os tempos, tchê.

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