A urbe na sala

Entrevista com

Claudia Jaguaribe

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2014 | 16h00

São Paulo: “Um homem sisudo de terno e gravata”. São Paulo: “Dura, complicada e ótima”. São Paulo: “Tem que ter paixão pra morar nela”. É nesse mar que algumas das pessoas retratadas por Claudia Jaguaribe navegam para descrever a maior cidade do País, objeto de seu mais novo trabalho. Em 2013, a fotógrafa carioca já havia feito um livro sobre a metrópole, enfatizando vistas aéreas e eliminando a escala humana a fim de evidenciar seu infinito, sua imensidão. Era Sobre São Paulo, no qual prédios, prédios e mais prédios se desdobravam numa sequência linda e angustiante. Agora, com EntreVistas, ela se volta aos personagens da cidade: 70 homens e mulheres, pobres e ricos, locais e imigrantes que estão dentro dos prédios, das casas, e as vistas que eles têm da própria intimidade. EntreVistas (assim mesmo, a palavra dividida sugerindo colóquios, mas também o que se entrevê) não é só livro. É exposição, vídeo e aplicativo para tablets e celulares. “É uma versão condensada de São Paulo, um microcosmos”, na definição do curador Agnaldo Farias. A seguir, Claudia fala desses pedaços de São Paulo. 

Como você fez as imagens do livro?

Eu fotografava, e tinha sempre alguém filmando e entrevistando. Portanto, éramos uma equipe, eu nunca estava sozinha. Isso ajudou a dar naturalidade às imagens, porque o retratado estava sempre conversando, se movendo, interagindo - não apenas posando para um retrato. Assim, as imagens se tornaram cenas, perderam o caráter mais documental, a “cara de fotografia”, e ficaram mais introspectivas. São pequenos retratos da vida dos retratados. Além de fotógrafa, atuei como diretora, digamos. E acho o resultado bacana justamente por causa dessa multiplicidade de formatos na captação e na apresentação, já que o trabalho é mostrado em livro, exposição e aplicativo para tablets e celulares.

A luz do entardecer parece ser comum a todas as fotos.

Sim, precisávamos viver aquela vida da pessoa em casa, quando se recolhe, depois do expediente, depois do dia que passou fora dali. Uma coisa bem íntima mesmo. E, claro, como eu queria fazer essa relação com a cidade, esse panorama duplo da visão de dentro para fora e da privacidade dos habitantes, era um horário interessante também porque as luzes começavam a se acender do lado de fora dessas casas e apartamentos e a cidade acabava se fazendo muito presente. Você se retira da cidade para casa, mas ainda assim a cidade é dominante, está ali.

O que mais te chamou a atenção na relação dessas pessoas com a cidade?

Ninguém mora em São Paulo à toa. Então, para sobreviver, cada um acaba criando seu nicho, seu cotidiano. E assim, mesmo dentro de casa a cidade invariavelmente acaba invadindo, fazendo parte de nossas vidas. Entrevistei uma moça que morava perto do Minhocão e ela disse: “Eu adoro esse barulho”. No apartamento apertado onde vive com o filho ela se sentia acompanhada do ruído do trânsito. As pessoas absorvem a cidade de maneiras diferentes. Durante o trabalho passei por apartamentos luxuosos, coberturas, casas de um cômodo só com uma família inteira espremida. A cidade, no fim, era como um jogo de amarelinha: pulando de casa em casa. De repente eu podia estar no céu ou no inferno na visão daqueles moradores. Eu não queria provar algo sobre a cidade, mas mostrar sua multiplicidade e as diferentes formas dessa sensação de pertencimento. O espaço da cidade é o espaço da vida, ambiente concreto que afeta as pessoas.

E você, que é carioca, como vê São Paulo?

Já estou na cidade há mais de 20 anos e gosto muito de viver aqui. No Rio as coisas são mais fáceis, a Cidade Maravilhosa nos é dada de mão beijada, há lazer mais fácil, natureza por todos os lados. Aqui, pelo fato de a cidade ser tão dura, nada é dado de graça, então as pessoas têm que ser participantes. Elas criam alternativas e por isso acabam sendo mais criativas.

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