JF Diorio|Estadão
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A vida sanfonada de Juazeiro

Às margens do Rio São Francisco, na Bahia, técnica peculiar do instrumento é ensinada de geração para geração e mantém forte tradição regional na cidade onde nasceu João Gilberto

João Paulo Carvalho (Reportagem) e JF Diorio (Fotos), O Estado de S.Paulo

24 Julho 2017 | 15h53

JUAZEIRO - As mãos do minúsculo Cael, 9, ainda estão crescendo. Os pequeninos dedos, quase do tamanho da cidade de Juazeiro, na Bahia, são ágeis e conseguem dedilhar as notas de Asa Branca, clássico de Luiz Gonzaga, com alguma rapidez. “Quero ser sanfoneiro”, declara com a mesma velocidade em que manuseia o fole. Astuto, aprendeu os primeiros acordes com o pai, o seu Manuel, dono de uma loja de materiais de construção. “Moço, aqui quase todo menino aprende a tocar sanfona desde pititico. O som que ela faz é uma das coisas mais lindas do mundo. Vai lá no fundo da alma. Isso é o que meu avô já dizia.” Adriel, 9, o outro garoto que participa do workshop do festival internacional dedicado ao instrumento, realizado anualmente na cidade, também tem o pai como professor. “Ele disse para eu praticar bastante até ficar bom. Acho que vou ganhar uma sanfona maior de presente no meu aniversário do ano que vem, no dia 22 de março.”

Julho já virou tradição para Juazeiro. É justamente nessa época, sempre na primeira quinzena do mês, quando a cidade com 260 mil habitantes faz aniversário, que ela se torna a capital internacional da sanfona. Tem sido assim desde 2013, ano em que o sanfoneiro Targino Gondim começou a organizar o evento. De lá para cá, quem manda mesmo na terra de João Gilberto, criador da bossa nova, é a sanfona. Nada de Brasil do meu amor, terra de nosso senhor, como pede o clássico Aquarela do Brasil. Em Juazeiro, lugar de cabra macho, a sanfona dita as regras do jogo. Ela pode ser vista em todos os lugares: bares, escolas e até às margens do rio São Francisco, o popular Velho Chico. “Se tem uma coisa que a gente faz muito aqui é ensinar nossos garotos a tocar sanfona. Lá em casa já virou tradição. Terminou o jantar, a gente acende as luzes e bota os meninos pra tocar. Chega tia, chega avó, chega a família toda. Tem que saber tocar Asa Branca para ter futuro e ser homem bom”, diz o vendedor Laércio, 38.

A tradição não é nova. Vem de longa data. Família de sanfoneiro não aceita um filho que foge à luta e passa vergonha na frente dos parentes. Por isso, já virou questão de honra lá na casa de Laércio: completou 7 anos, o guri já pega a sanfona no colo e toma nota dos primeiros acordes. Sem choro, nem vela. Laércio, o famoso Laércinho, aprendeu com o avô que para ter caráter é preciso saber conduzir o fole. É ele que separa os homens dos meninos e diferencia “rapaz bom” de “saco vazio”. “Os dois meninos lá de casa também tocam. Vim aqui no curso para aprender e passar tudo para eles depois. Rapaz, não sou profissional, não. Tem um bocado de coisa para saber. Eles vão ficar craques. Cê ainda vai voltar aqui para fazer reportagem com eles.” O mantra, no entanto, também vale para quem já é craque no instrumento e cresceu longe da bela vista do São Francisco. Oswaldinho do Acordeon, uma das atrações do festival, não é cidadão de Juazeiro, mas tem raízes nordestinas. Ele nasceu longe dali, no Rio de Janeiro. Bem fora do percurso de onde o Velho Chico deságua. Desde pequeno, quando ainda nem tinha noção de seu talento, pegou birra de Asa Branca. “Tenho um certo medo de Asa Branca porque sou filho de sanfoneiro. Na infância, todos perguntavam para o meu pai se eu sabia tocar. Ele dizia que sim e me chamava para dedilhar a música para os amigos e a família toda. Fiquei traumatizado. Às vezes, quando estava na rua brincando, ele me chamava para tocar. Eu ficava nervoso. Não entendia. Os meninos lá da rua brincavam comigo. Vai lá, Oswaldinho. Toca meia asa e volta para cá. Superei isso e fiz uma versão dela em blues”, brinca ele.

A Sanfona, no entanto, não é coisa de juazeirense. Versátil, ela veio de longe para tocar o coração de muito marmanjo que se diz nordestino da casca grossa. Seu primeiro registro no Brasil teria sido entre os anos de 1836 e 1851 pelas mãos de imigrantes alemães do Rio Grande do Sul, onde é mais conhecida como gaita. Há, todavia, informações de tocadores de foles de oito baixos no próprio Nordeste. O instrumento foi provavelmente obtido pelos nordestinos que foram até o Sul para lutar na Guerra do Paraguai entre 1864 e 1870. Citada até na famosa carta de Pero Vaz de Caminha e atendendo por vários nomes como gaita e acordeon, foi como sanfona que o objeto ficou popularmente conhecido. Um instrumento primitivo, que utilizava o mesmo princípio sonoro das palhetas do acordeon, chamado Cheng, na China do século 12 a.C., também aparece em alguns registros mais antigos. “Nossa, moço, lá da China? Não sabia disso, não. Longe, né? Pensei que tivesse sido feita aqui em Juazeiro. Tem a cara do nosso povo, da nossa gente, né, não?”, lembra Alcides Costa, 34. E, de fato, a sanfona tem a cara de Juazeiro. De sensibilidade aflorada, ela mexe com a alma e conta a história de um povo simples e habituado a ser esquecido. Se a sanfona tivesse sido inventada em Juazeiro, ninguém ia reclamar ou contestar, não. Até porque, com o Velho Chico de fundo, a sonoridade do instrumento triplica de intensidade e transita entre a sensibilidade aguçada do teclado e o ímpeto voluntarioso do fole. Uma mescla de força e urgência para dizer às pessoas que o mundo é pequeno, muito pequeno. Do tamanho de Juazeiro ou do tamanho da sanfona, quem sabe.

Sanfoneiro dos bons sabe de cabo a rabo como a sanfona funciona. O instrumento é formado por três partes: o teclado, os baixos e o fole. Alguns, inclusive, não têm teclado, só botões dos dois lados. Cada tecla ativa uma nota que soa quando o fole empurra ou puxa o ar, através de algumas pequenas palhetas de metal que ficam na parte interna. Na sanfona, o som ao apertar ou dilatar o fole é o mesmo. No lado dos baixos, os botões estão divididos em colunas. Na primeira e na segunda coluna, os botões tocam apenas uma nota. Nas demais, os botões tocam três ou mais notas, formando um acorde. Normalmente, o botão de dó tem formato diferente para ajudar o músico a localizar outras notas e acordes. Quem explica tudo isso são os homens corriqueiros das ruas de Juazeiro. Lá entender de sanfona é algo básico para formar caráter.

Do outro lado do São Francisco, depois da ponte, a cidade de Petrolina, já no Estado de Pernambuco, observa à distância o romance intenso entre Juazeiro e a sanfona. A vizinha de prédios grandes e avantajados inveja por alguns minutos o doce relacionamento. Com a sanfona nas mãos, o rei do baião Luiz Gonzaga escreveu com precisão sobre o que sentia em relação às duas cidades na música Petrolina Juazeiro. “Na margem do São Francisco nasceu a beleza. E a natureza ela conservou. Jesus abençoou com a sua mão divina. Pra não morrer de saudade vou voltar pra Petrolina. Do outro lado do rio tem uma cidade. E na minha mocidade eu visitava todo dia. Atravessava a ponte mas, que alegria! Chegava em Juazeiro, Juazeiro da Bahia. Petrolina, Juazeiro, Juazeiro, Petrolina. Todas as duas eu acho uma coisa linda. Eu gosto de Juazeiro, e adoro Petrolina.” Coincidentemente, o clássico do rei do baião é a música que o jovem Adriel mais quer aprender a tocar. “Fala sobre a gente.”

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