A volta do que já tinha ido

Na terça, a OMS decretou emergência sanitária global por causa do risco de contágio por poliomielite em mais de dez países, a maioria na África, no Oriente Médio e na Ásia. Conflitos armados e falta de investimento na vacinação abriram as portas para a volta da doença.

LÚCIA GUIMARÃES, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2014 | 02h21

O que têm em comum a educada e afluente jovem mãe nova-iorquina e um taleban no Paquistão? Ambos são militantes passionais. Usam táticas diferentes. Mas têm um mesmo objetivo: impedir a vacinação infantil. E ambos estão contribuindo para o reaparecimento de doenças que estavam a caminho da erradicação.

"O vírus da pólio continua a se espalhar internacionalmente tanto em regiões endêmicas como em reinfectadas", afirmou o comunicado da reunião de emergência convocada no fim de abril pela Organização Mundial de Saúde. A guerra civil na Síria, com seus mais de 2 milhões de refugiados, reintroduziu no país, em 2013, a poliomielite, erradicada no final da década de 90. Não existe cura para a pólio; e a vacina, introduzida por Jonas Salk em 1953, salvou milhões de vidas. No auge da epidemia mundial, nos anos 40 e 50, a pólio matou ou paralisou 1 milhão de pessoas por ano.

Em áreas predominantemente tribais do norte do Paquistão, um dos 10 países onde a doença volta a se espalhar, os pais hoje são obrigados a levar seus bebês clandestinamente a pontos de vacinação. Temem ataques de talebans que já mataram dezenas de agentes de saúde. Os Estados Unidos deram sua contribuição para o aumento da pólio no Paquistão, alimentando o clima de teorias conspiratórias. A CIA contratou um médico local em Abbottabad, o dr. Shakil Afridi, para organizar uma falsa campanha de vacinação e assim obter DNA das pessoas que moravam na casa onde Osama Bin Laden foi localizado e morto, em maio de 2010. No ano seguinte, o jornal britânico Guardian revelou a farsa, o médico foi condenado a 33 anos de prisão e os talebans baniram a vacinação contra a pólio enquanto os americanos não suspendessem os ataques de drones.

O movimento retrógrado antivacinação pode não ser 100% responsável pela volta da tragédia da infecção. Mas, além de dar uma grande contribuição, vem com os anticorpos do obscurantismo, sejam eles convicções religiosas nas montanhas do Sul da Ásia ou pesquisas médicas fraudulentas compartilhadas por mães-celebridades online. Pólio, coqueluche, caxumba e sarampo figuram no sinistro desfile de doenças que voltam, como num cinejornal da década de 50.

Na primeira vez que acordei e ouvi o anúncio na rádio local em Manhattan, atribuí minha confusão ao cansaço. Mas o locutor repetiu o alerta uma hora depois: "Atenção, pais, há uma disparada de casos de sarampo", e ela afeta o bairro da ilha onde moro. O que mais vão trazer de volta? O espartilho?

Nas últimas duas décadas, havia uma média de 60 casos anuais de sarampo nos Estados Unidos. Nos três primeiros meses de 2014, o CDC, Centro de Controle de Doenças do governo federal, já registrou 129 casos, 34 deles trazidos de outros países. O que se passa aqui com o sarampo é uma repetição do que aconteceu na França, na Turquia e na Ucrânia. Um pequeno número de casos se espalha rapidamente e cria clusters da doenças que desafiam o combate epidemiológico. Um desafio é a desinformação, porque a maioria encara as doenças como coisa do passado. A volta da coqueluche, que pode matar bebês recém-nascidos, precisa ser enfrentada com reforços de vacina em crianças e adultos.

O que era restrito aos talk shows e chat rooms online e tornado viral pela celebridade de militantes antivacinas passou a ser tratado como urgência pela ONU. O responsável pela divisão de imunização da OMS, Jean-Marie Okwo-Bele, se dirigiu diretamente aos pais que espalham desinformação e vírus mortais. Ele pediu ao pais que defendem as vacinas - felizmente, a maioria - que se façam ouvir.

O movimento antivacinação tomou impulso nos últimos 16 anos nos Estados Unidos com a divulgação de um estudo do ex-cirurgião britânico Andrew Wakefield vinculando autismo a vacinas. O estudo foi desacreditado e, em 2011, a principal publicação médica britânica considerou a pesquisa do Dr. Wakefield uma "fraude elaborada". Mas a suspeita se espalhou graças à internet e ao clima de cultura New Age em que pais bem-intencionados, desconfiados do poder de corporações e da indústria médica, querem intervir para dar uma vida mais saudável aos filhos.

Uma pioneira porta-voz do movimento nos Estados Unidos é a ex-coelhinha do ano da Playboy, Jenny McCarthy, cujo filho Evan, de 12 anos, foi diagnosticado como autista em 2005. Ela se convenceu de que a doença do filho foi provocada pela vacina tríplice, que combate sarampo, caxumba e rubéola. E, pior, recebeu uma plataforma internacional para regurgitar seu charlatanismo de ninguém menos do que Oprah Winfrey em seu finado programa diurno. Hoje, McCarthy, sofrendo acusações de promover a negligência imperdoável, diz que não é contra vacinar, e sim a favor de vacinas que não causem dano à saúde. Mas, em 2009, quando foi entrevistada pelo editor de Ciência da Time, McCarthy reagiu assim à volta da pólio: "É triste, mas será necessária a volta de algumas doenças para compreenderem que as vacinas precisam mudar". A ex-coelhinha taleban participa diariamente do talk show The View, da ABC, no qual dispensa seu obscurantismo sem burka e com decotes profundos.

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