Blaise Adilon/The New York Times
Blaise Adilon/The New York Times

Alan Vega, o artista que ignorou o mundo da arte e depois o inspirou

Ex-integrante da dupla de proto-punk Suicide, Alan Vega produzia esculturas e pinturas que estão sendo redescobertas após a sua morte

Frank Rose, The New York Times

01 Julho 2017 | 16h00

NOVA YORK – Existe a arte e a antiarte – E existe Alan Vega, a outra metade do duo proto-punk Suicide, um grupo tão polêmico a ponto de, certa vez, ele ter de se esquivar de um machado que voou na sua direção vindo da plateia. Alan Vega também passou quase metade de um século montando “esculturas leves” criadas a partir de tubos de néon, peças elétricas jogadas no lixo e lâmpadas roubadas no metrô. Algumas dessas esculturas ele pendurou na parede. Outras espalhou pelo chão.

Durante um período ele fez desenhos e pinturas – surreais no início,  mais tarde como se fossem teias de aranha e tensos. Na época  foi convidado para uma retrospectiva de um museu e uma dezena de mostras em galerias. Mas hoje, quase um ano após sua morte em julho do ano passado, aos 78 anos, Vega ressurge num mundo que constantemente ignorou e pelo qual também foi ignorado.

“Ele nunca fez realmente parte do mundo da arte”, diz sua mulher Liz Lamere, em seu apartamento repleto de lembranças onde vive, no Financial District (distrito financeiro de Nova York).  “Você devia fazer parte desse mundo para se promover. E ele não estava interessado nisto. Seu interesse era simplesmente criar”.

“Se não a fama, então dinheiro?” “Ele poderia viver numa caixa de  geladeira”, diz ela.

Jeffrey Deitch, curador e especialista em arte, é da mesma opinião. “Ele não era um oportunista, mas acabou tendo muito mais influência do que muitos artistas que queriam vencer na careira a qualquer custo”.

Neste caso, Deitch pelo menos em parte responde pelo sucesso de Vega. Junto com Julian Schnabel e a marchand Barbara Gladstone, eles constituem um pequeno clã de insiders do mundo da arte que tem impulsionado a obra de Vega. Deitch agora está orquestrando uma série de eventos que deverão exaltá-la ainda mais. Em 30 de junho a galeria Invisible-Exports, em Lower East Side, abre uma exposição destacando as últimas pinturas de Vega – imagens exuberantes, embora fantasmagóricas, que retomam seus desenhos que serão exibidos juntamente com elas.

Em 14 de julho o selo de música independente Fader, de Nova York, planeja lançar o último álbum do duo, IT, cuja capa traz uma foto que Vega tirou um dia de um letreiro apontando a saída. (O primeiro single, DTM, está disponível em sites de streaming. E em 18 de julho, Deitch deve inaugurar uma mostra em sua própria galeria, SoHo,  com desenhos e montagens dos primeiros dias até os últimos de Vega, como também uma projeção fora do comum de um concerto do Suicide que, ele promete, fará as pessoas se sentirem “como se estivessem naquela apresentação”.

Como músico, Vega foi legendário. Os álbuns do Suicide não foram sucesso de vendas e suas apresentações por muito tempo se limitaram a galerias de arte e clubes como CBGB e Max’s Kansas City. Mas ele era uma presença volátil, ameaçadora. Cantava, gritava e gania, enquanto seu companheiro de banda Martin Rev ficava ao fundo, impassível, o rosto meio oculto pelos óculos escuros, tocando num teclado eletrônico barato. Com frequência o show terminava em baderna.

“Eles eram aterradores”, disse Arto Lindsay, importante figura do cenário musical “no wave”, que nasceu sob inspiração do Suicide nos anos 70. “O som era muito alto, terrivelmente alto.”

Alan Vega tornou-se músico quase por acidente. Ele se formou em arte no Brooklyn College, onde foi influenciado por Kurt Seligman, surrealista suíço, e Ad Reinhardt, artista abstrato que reduziu sua arte a variações de uma única cor: o preto. No final da década de 60, Vega ajudou a abrir um espaço de arte na Broadway chamado Project of Living Artists. Estava aberto a qualquer um que se identificasse como artista – incluindo o próprio Vega, que viveu ali durante um tempo num saco de dormir no chão. 

Durante esse período ele conheceu duas pessoas que foram cruciais na sua vida – Rev, na época músico de jazz, e Ivan Karp, cuja galeria de arte OK Harris foi uma das primeiras no SoHo. Alan Vega passou a juntar peças elétricas jogadas no lixo para fazer montagens que espalhava pelo chão. Karp, que estava expondo artistas célebres como Duane Hanson, Malcom Morley e Richard Pettibone,ofereceu a ele um espaço para exibir seu trabalho – a primeira mostra de várias. E também um palco para o Suicide.

Para Alan foi um momento importante. Um ano antes ele descobrira Iggy e os Stooges, em seu primeiro show em Nova York. Iggy era um artista feroz, cortando o peito nu, saltando de cabeça sobre a plateia. Alan ficou impressionado. “Isto mudou totalmente minha perspectiva”, disse ele a Rev.

O primeiro álbum do Suicide foi lançado em 1977, ano em que Nova York estava na sua pior situação. A cidade por pouco não requereu falência. Um blecaute de energia desencadeou uma onda de saques. Um serial killer conhecido como Son of Sam aterrorizava a cidade. No East Village, prédios de apartamentos que não foram incendiados viraram cortiços. “Havia uma atmosfera de O Bebê de Rosemary na cidade”, lembra Lindsay.

“Você passava diante de um prédio e se perguntava o que estaria ocorrendo por ali, que tipo de adoração do diabo ou orgia estava acontecendo”.

Barbara Gladstone queria que Alan continuasse a produzir objetos de arte, mas ele objetou, relembra sua mulher Lamere. Mas continuou produzindo seus trabalhos, reciclando uma montagem para concluir outra. O desprezo pelo próprio trabalho era típico. Depois da sua exposição na galeria OK Harris, ele destroçou as esculturas e as jogou na rua.

Nos últimos anos, mesmo enquanto gravava o seu álbum final com Lamere, Alan dedicou-se cada vez mais à escultura. Após um show em Lyon, em 2009, houve também exposições individuais em Paris e na Invisible-Exports; shows do grupo de Moscou, Milão, Copenhague e Genebra e uma conferência no MoMa em Nova York. E também um AVC em 2012, problemas de insuficiência cardíaca, descobertos ao mesmo tempo. Depois sofreu uma série de derrames e em 20 de maio do ano passado caiu na cozinha e quebrou a bacia. Passou semanas no hospital e foi para uma clínica de reabilitação no Brooklyn. “Mas seu coração começava a fazer coisas estranhas. E então, “ele faleceu durante o sono”, disse Lamere.

Meses antes da sua morte, Alan Vega inesperadamente voltou a pintar, pela primeira vez em décadas. Passava a noite inteira produzindo a série de retratos que serão exibidos na Invisible-Exports.

“As figuras não têm rosto, são como espíritos” diz Lamere. Formas humanas, mas vazias. Apesar de nunca terem conversado a respeito, os dois tinham um entendimento tácito. “Sabíamos que ele se preparava para ir para o outro mundo”, afirmou./Tradução de Terezinha Martino

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