Álbum de biólogo francês descreve plantas inacreditáveis

Álbum de biólogo francês descreve plantas inacreditáveis

'Atlas de Botânica Poética' parece catálogo de fantasias, mas todas as suas criaturas são reais

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2017 | 16h00

O autor desse livro não é um poeta surrealista. Ele não escreve literatura fantástica, nem ficção científica, nem peças barrocas. É um estudioso, um dos maiores biólogos do mundo, reinando sobre florestas tropicais e equatoriais da Amazônia, Gabão, Costa do Marfim, etc. 

E, no entanto, se você ler seu livro, vai sentir que os títulos dos capítulos dão vertigem e parecem “quebrar o senso comum”: “A planta que tem apenas uma folha”, “As árvores subterrâneas”, “Uma orquídea sem folhas”, “A planta que dança”, “A árvore do adultério”, “O aquário suspenso”. É como estar diante de imagens de um sonho botânico. Mas não: o “figo estrangulador” existe, assim como a “árvore que se disfarça de cogumelo”, a “árvore-fonte” e a “árvore que não consegue perder suas folhas”, coitada. 

Assim, o álbum de Francis Hallé – por seu texto rápido, leve e divertido, mas também pelos desenhos feitos por ele mesmo, no estilo dos botânicos do século 18 que embarcaram nas expedições de Cook ou Wallis – nos convida a um passeio por um país real, desconhecido e, no entanto, encantado como o das maravilhas de Alice, de Lewis Carroll. 

A jarro-titã (Amorphophallus Titanium) tem apenas uma flor e uma folha. Nativa de Sumatra, pode-se assistir a seu “show” na Cornualha, onde um jardim a abrigou: a flor é um pendão gigante, de três metros de altura, composta por milhares de flores microscópicas. Elas soltam um odor de cadáver, que se agrava ainda mais com o súbito aumento da temperatura. E a flor morre depois de três dias. Mais uma maravilha: a jarro-titã produz uma única folha — mas que folha! Tem seis metros de altura e cinco de largura. Todos os anos, a folha morre e uma mais nova toma seu lugar. 

Em matéria de folhas gigantes, tem coisa ainda mais maluca. Vejamos a campeã do mundo: a palmeira Raphia regalis. Francis Hallé a encontrou no Congo: “Para derrubar uma folha, os congoleses têm de trabalhar por mais de quinze minutos com o facão. No final, uma tempestade de ruídos. Essa folha única mede 28 metros de comprimento por 4 de largura e pesa 100 quilos.” Seus frutos são lindos, recobertos por um invólucro que lembra uma pele de cobra. 

Outra maravilha: a Schizolobium parahyba, da Amazônia. Na época da seca, ela perde as folhas, floresce, fica parecendo de ouro e se torna a árvore mais bonita da floresta mais bonita do mundo. Campeã de velocidade em todas as categorias, ela chega a 9 metros em apenas um ano e 21 metros depois de três anos. 

A árvore subterrânea — Parinari — da África do Sul foi descoberta tardiamente, pois cresce debaixo da terra. Na estação chuvosa, você vê no chão folhas e flores espalhadas por dezenas de milhares de metros quadrados. Na estação seca, nada. Mas, se você cavar, encontrará as árvores subterrâneas, enormes galhos moles que podem ter mil anos de idade. Por que essa mania de se enterrar? Mistério. Talvez para escapar dos incêndios nas florestas, nos primórdios da Terra. 

A árvore do adultério fica no Gabão. Ela se chama Barteria futulosa. Nada de especial. Como todos os grandes assassinos, parece amigável e inofensiva. Mas seus galhos são ocos e abrigam formigas tetraponera, imensas, achatadas e terríveis como o diabo. Sua picada pode matar. Até mesmo os macacos batem em retirada. Assim que um ser humano se aproxima, milhares de formigas caem feito chuva. No passado, essa árvore apavorou as mulheres adúlteras. Elas eram amarradas ao tronco, e o suplício era atroz. Estranhamente, esse costume jurídico se reservava às mulheres. Os homens não tinham o que temer. 

Entre todas essas criaturas — umas abomináveis, outras sedutoras, mas todas fascinantes — tenho minha preferida. Ela parece assombrar um território proibido, ter um tipo de “consciência”, faculdade atribuída ao mundo animal, mas que se pensa excluída do mundo vegetal. É a “árvore que dança”, a Codariocalyx motorius, da fronteira da China com o Laos. Mais uma vez, a “estrela” parece não ter nada de especial. Lembra um pé de feijão. Mas, se você chega perto da planta e começa a bater palmas, eis que acontece o milagre: a planta dança. As folhas gingam. Hallé trouxe um exemplar e o cultivou na Costa do Marfim, em Saint Jean Cap Ferrat. Também lá a árvore dança quando alguém faz barulho. Até mesmo um simples radinho a faz balançar. 

E tem mais uma coisa extraordinária: se você cultivar a planta por seis meses em silêncio e, um belo dia, fizer algum barulho, ela não vai se mexer. Mas, se você treiná-la todos os dias com gritos e músicas, pouco a pouco ela volta a dançar. No fim, diz Hallé, ela dança “como uma bailarina na barra”. E é nesse ponto que a mente vacila: “Essa planta precisa de treino, no sentido esportivo do termo, necessariamente fundado em algum tipo de memória”. 

A beleza desse álbum reside no talento e na genialidade da natureza, em sua inesgotável capacidade de inventar, sobretudo se tivermos em mente que conhecemos apenas uma ínfima parte do tesouro da natureza vegetal — e que muitas plantas irão desaparecer antes de chegarmos a descobri-las. Você sabia, por exemplo, que na Austrália existe uma árvore de 43 mil anos de idade? 

Magnífica também é a paixão desses estudiosos que, assim como Francis Hallé, sabem se maravilhar, admirar e entrar em transe diante desse espetáculo fabuloso. 

Hallé cita uma frase escrita por um certo Charles Darwin, 22 anos, jovem formado em Cambridge que logo iria revolucionar a história das coisas “vivas” com a teoria da “seleção natural”. Darwin descobre a floresta amazônica: “Jamais experimentei uma emoção tão intensa. Deleite é uma palavra muito fraca para exprimir o sentimento do naturalista que pela primeira vez se aventura numa floresta do Brasil (...). Hosana! Hosana! O prazer é tanto que não há nenhuma forma nem qualquer esperança de voltar a experimentar algo tão profundo”. / Tradução de Renato Prelorentzou

Atlas de Botanique Poetique

Autor: Francis Hallé

Editora: Arthaud

128 páginas

25 euros

Mais conteúdo sobre:
Biologia Botânica

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