LEWIS CARROLL
LEWIS CARROLL

Alice pelo avesso

No Chirst Church corria a história de que o autor não teria se apaixonado pela menina Liddell, mas pela mãe dela, Lorina - um amor impossível

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo

01 Agosto 2015 | 16h00

Das várias gravuras de John Tenniel que ilustram os dois livros referenciais de Lewis Carroll - Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho -, a do Coelho Branco, de casaco xadrez, consultando o relógio de bolso, é sem dúvida a mais emblemática. Retrato das pessoas sem tempo, típicas da sociedade moderna, que ganhava forma na era vitoriana. Todos nós acabamos nos tornando aquele coelho ansioso e apressado. Para mim, no entanto, a mais significativa gravura é a da ovelha anciã fazendo tricô. Ela é vista através de uma vidraça que ainda existe na lojinha de doces do outro lado da rua, em frente ao Christ Church College, em Oxford, perto do Rio Tâmisa, lojinha que visitei em 1976. Esse é o cenário do livro ainda hoje, neste ano do 150º aniversário de sua publicação.

Alice era uma das três filhas de Henry Liddell, na época deão do College, uma espécie de capelão. Carroll chamava-se Charles Lutwidge Dodgson, nome a partir do qual criou sua alcunha literária. Traduziu os dois primeiros nomes para o latim e depois os retraduziu para o inglês, resultando daí um nome duplamente invertido, como é próprio da lógica dos avessos de seus dois mencionados livros. 

Esses livros de Carroll são tidos como livros infantis. Penso que os filmes baseados em Alice no País das Maravilhas contribuíram para difundir essa impressão, especialmente a do desenho animado do estúdio Disney, de 1951. Uma versão que optou por infantilizar a história muito além do que é dela próprio. Carroll tinha dúvida quanto a classificar o livro como infantil. Os dois livros, mais o segundo do que o primeiro, são, na verdade, criativas obras no campo da literatura do absurdo. Ele acabou concordando que Alice poderia ser publicado como literatura infantil pela reação das crianças às quais contara a história, não só as da família Liddell, mas também as da família de seu amigo MacDonald. Contador de histórias, Carroll assimilou nas narrativas a mentalidade infantil, questionadora do que no real parece às crianças absurdo e ilógico.

Lewis Carroll escreveu como adulto para adultos, segundo uma ótica infantil, uma literatura desconstrutiva da sociedade vitoriana, sociedade orientada no sentido da dissimulação repressiva do desejo e das concepções sociais divergentes. Tinha uma atração por meninas, justamente os seres mais benevolentes daquela sociedade. O que se compreende. Crianças convivem melhor com quem, como ele, é gago, surdo de um lado, tímido, originário de uma fechada família de longa linhagem de militares e de eclesiásticos. Ele próprio fora ordenado diácono da igreja anglicana. Era matemático e em sua obra “infantil” não é difícil adivinhar pressupostos matemáticos para formular as situações absurdas que descreve. É a precisão da lógica matemática, cada vez mais presente na sociedade industrial de então, em confronto com o imaginário conservador, repressivo e teatral. 

Ele era fotógrafo competente e foi nessa condição que se aproximou das crianças. No Christ Church College, era tutor de matemática e diácono. Como fotógrafo, dentre as crianças que costumava fotografar, estavam as meninas da família Liddell. Algumas dessas fotos sugerem uma propensão para a pedofilia, especialmente uma foto de Alice, ainda criança, vestida como mendiga, o traje esfarrapado, a pose insinuante. Muito se escreveu sobre essa suposta tendência de Dodgson. Ele próprio temia a desconfiança, tão própria de uma sociedade regulada pela suspeição. Aquele era o momento em que germinavam as condições do romance policial, o mais importante indício da gênese da sociedade do medo, todos sob suspeita, cada um antecipando-se autodefensivamente à suspeita que pudesse vitimá-lo. Por isso mesmo, Dogdson, nos passeios com crianças, fazia-se acompanhar sempre de um outro homem adulto com elas relacionado. Esse segundo adulto estava no barco em que na sexta-feira, 4 de julho de 1862, Carroll e as três irmãs Liddell, Alice então com 10 anos, subiam o Rio Tâmisa enquanto ele inventava e lhes contava a história. 

Quando eu era professor na Universidade de Cambridge, foi recebida para o jantar, em meu college, uma senhora vinda de Oxford, justamente do Christ Church College. Coube-me sentar à mesa em frente dela, o que acabou nos levando a uma conversa sobre a vida real de Dodgson. Mencionei-lhe a impressão que me ficara das fotografias feitas pelo autor de Alice e uma leve suspeita não propriamente de pedofilia, mas de uma estranha relação dele com as meninas. Sabia-se que o acesso de Carroll à casa dos Liddells fora interrompido sem maiores explicações. Ela revelou-me, então, que, por coincidência, estava morando na habitação que, no college, ocupara a família de Alice. No Christ Church corriam histórias sobre o antigo membro: Carroll não estivera apaixonado por Alice, e sim pela mãe dela, um amor impossível e pecaminoso. “‘É a consequência de se viver para trás’, disse a Rainha afavelmente”, em Do Outro Lado do Espelho.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE UMA SOCIOLOGIA DA VIDA COTIDIANA (CONTEXTO)

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