J. Borges/Editora É Realizações
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Antônio Conselheiro é redescoberto em transcrição de seus textos

Pedro Lima Vasconcellos resgata escritos para dar nova versão ao personagem histórico, negando o perfil traçado por Euclides da Cunha em 'Os Sertões'

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

15 Abril 2017 | 16h00

O escritor Euclides da Cunha provavelmente mudaria o perfil que traçou de Antônio Conselheiro no livro Os Sertões: Campanha de Canudos, se tivesse lido os Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a Salvação dos Homens, um caderno de 807 páginas, escrito em 1895, antes da guerra contra as tropas do governo da República. Em vez de um cearense bronco, de retórica “bárbara e arrepiadora”, confusa e desconexa, de um atormentado profeta milenarista, o taumaturgo de Belo Monte, como rebatizou o arraial de Canudos, Antônio Vicente Mendes Maciel era um homem letrado, de caligrafia bonita, que sabia latim e francês, citava Santo Agostinho e São Jerônimo, tinha rudimentos de Teologia e, além de tudo isso, era um “biblado”, que lia a Bíblia e sobre ela refletia em suas pregações.

Antônio Conselheiro Por Ele Mesmo chega às livrarias em dois volumes, numa apresentação de seu descobridor, professor Pedro Lima Vasconcellos, da Universidade Federal de Alagoas, mestre e livre-docente em Ciências da Religião. No volume 1 (Antônio Conselheiro), os manuscritos de 250 anotações ou apontamentos, ao lado da transcrição dos textos em grafia original, seguida pela grafia atualizada. A letra do pregador de Canudos/Belo Monte é clara, fácil de ler, em frases sem parágrafos. Na folha de rosto, o autor dá o título do conteúdo e informa quem o escreveu: “Pelo Peregrino Antonio Vicente Mendes Maciel no Povoado do Bello Monte, Província da Bahia, em 24 de Maio de 1895”. Na três páginas finais, um índice com os títulos das anotações. 

No volume 2 (Arqueologia de um Monumento), Vasconcellos comenta os Apontamentos, situando as reflexões do Conselheiro no contexto de seu tempo e de seu projeto. “Esse material representa um terço do total, com reflexões do Conselheiro sobre os Dez Mandamentos, episódios e alguns, personagens e leis da Bíblia”, disse Vasconcellos, esclarecendo que não transcreveu os dois terços restantes porque são apenas uma cópia dos livros do Novo Testamento, dos quatro evangelistas até o capítulo 12 da Carta de São Paulo aos Romanos. 

Na interpretação do professor, Antonio Conselheiro interrompeu a transcrição no capítulo 12, porque o seguinte, o capítulo 13, impõe a obediência dos cristãos a todas as autoridades. “Como o Conselheiro era contra a República, proclamada seis anos antes, e continuava fiel ao imperador D. Pedro II, julgou que o capítulo 13 de Romanos prejudicaria sua pregação”, observou Vasconcellos. 

Um segundo caderno, de 1897, de 600 páginas, escrito no fim da guerra e publicado só em 1974 por Ataliba Nogueira, repete algumas anotações do primeiro. Seu título: Tempestades que se Levantam no Coração de Maria, por Ocasião da Anunciação. Os dois cadernos foram encontrados nos escombros de Belo Monte, antes de o arraial ser incendiado. Os soldados que os acharam estavam procurando o cadáver do Conselheiro, morto uns 15 dias antes. Euclides da Cunha não conheceu o taumaturgo, que Os Sertões descreve com base em testemunhos de terceiros. Também não assistiu ao ataque final, porque ficou doente e foi para Salvador, dois ou três dias antes. Só tomou conhecimento dos Apontamentos após a publicação da história da guerra, em 1902, quando se ocupava de outros trabalhos como engenheiro militar. Não se interessou pelo conteúdo nem quis rever o que escreveu sobre o Conselheiro. 

“Longe de ser um demente mental, como foi descrito, o Conselheiro era um homem letrado e prático”, disse Vasconcellos, sobre os escritos e as obras do peregrino de Canudos. Ao planejar a modernização de Belo Monte, novo nome do arraial, trabalhou como se fosse engenheiro na construção de casas, igrejas e cemitério. Era também um administrador competente na organização do trabalho e da vida social. Nada faltava aos moradores, que plantavam roças e viviam de suas colheitas. Antônio Conselheiro tinha boas noções de Direito e atuou como rábula em defesa dos pobres. 

Escreveu os Apontamentos para sua reflexão, não foram textos para publicação. Entrava noite adentro na redação dos textos e, quando doíam demais mão e braço, ditava suas ideias para copistas, seus assistentes ou secretários. Pode-se ver isso por uma pequena diferença da caligrafia em algumas passagens. Sem prejuízo da clareza, pois os copistas pareciam bem treinados. “A leitura traz uma personagem muito diferente do euclidiano, como lembra o autor da transcrição”, observa no prefácio do segundo volume o historiador Leandro Karnal, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Faltava uma peça que deixasse o homem real”, escreveu Karnal, acrescentando que “no texto emerge um conhecimento sólido da doutrina católica, inspirado numa espiritualidade um pouco tridentina e um pouco ultramontana do século 19”. Para Karnal, o professor Pedro Lima Vasconcellos tem o mérito de trazer à luz pública um documento valioso, depois dos muitos papéis impostos ao cearense de Quixeramobim que liderou o movimento sociorreligioso de Canudos. “A esquerda vestiu-o com roupa revolucionária e a direita impôs trajes reacionários ao beato”, afirma o historiador.

Vasconcellos disse que descobriu o caderno de Conselheiro e se interessou pela pesquisa em 2002, quando uma reportagem do Estado sobre o centenário de Os Sertões fez referência aos manuscritos. Os originais dos Apontamentos pertencem hoje ao acervo da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Antônio Conselheiro Por Ele Mesmo

Autor: Antônio Vicente Mendes Maciel

Organização: Pedro Lima Vasconcellos

Editora: É Realizações

761 páginas (2 volumes)

R$ 139,90

Mais conteúdo sobre:
Antonio Conselheiro Euclides da Cunha

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