Ao vencedor, as fraturas: 'EUA vivem o pior momento político desde a Guerra Civil', diz historiador

Seja quem for o ganhador das eleições à presidência dos EUA, na terça-feira, ele receberá um país traumatizado e dividido como raramente se viu. “É um território desconhecido. Chego a pensar que, desde a Guerra Civil, nos anos 1860, não havia perturbação política tão brutal”, diz o historiador norte-americano Douglas Brinkley, professor da Rice University e autor de best-sellers sobre cinco presidentes dos EUA. Lições foram aprendidas nesta campanha – especialmente pelo Partido Republicano, que deve criar vacinas contra demagogos. Mas, para o acadêmico, nem Hillary nem (muito menos) Trump serão capazes de reunificar o país depois de meses de baixarias. “O presidente não terá um minuto de lua de mel”

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2016 | 16h00

A cobertura de Donald Trump na 5ª Avenida é um triplex revestido em mármore, com colunas gregas e detalhes folheados a ouro. Alguém descreveu o estilo do apartamento no 66º andar da Trump Tower como “Luis XV tomou ácido”. No entanto, os planos do suposto bilionário para a noite da eleição, na terça-feira, são relativamente modestos. Como é praxe na campanha presidencial, cada candidato reserva espaço para o que espera ser a festa da vitória. Trump reservou o nada impressionante salão de baile do hotel Hilton, na área central de Manhattan, para uma festa pequena. Por que a economia? “Superstição”, disse o habitualmente bombástico candidato republicano.

Já Hillary Clinton, que mora com Bill numa casa confortável, num enclave suburbano de classe média alta, 40 minutos ao norte de Manhattan, tem planos mais grandiosos. Reservou nada menos do que o imenso Centro de Convenções Javits, quatro quilômetros ao sul do hotel Hilton, e promete queima de fogos de artifício no Rio Hudson.

Mais de 80% dos norte-americanos não têm disposição de soltar nem um rojão ao final desta campanha, revela uma pesquisa de opinião publicada pelo New York Times, na sexta-feira. Não chega a surpreender, depois de uma eleição marcada por momentos de escatologia raramente vistos nos 225 anos da democracia nos EUA. A pesquisa do Times mostra também que os eleitores não acreditam ser possível, não importa o vencedor, reunificar o país depois de tanta baixaria.

A frase “não importa quem vencer” tem sido repetida com mais frequência, à medida que o dia da eleição se aproxima. Quem vencer vai receber um país ainda mais polarizado do que aquele que se voltou contra a aventura militar no Iraque e a crise econômica sob George W. Bush, em 2008, e elegeu o primeiro presidente negro dos EUA. Barack Obama está entregando as chaves da Casa Branca com 57% de popularidade. Hillary Clinton e Donald Trump são os dois candidatos a presidente mais impopulares da história eleitoral do país. Os Estados Unidos de 2016 são dois países divididos por classe e raça.

A motivação de 51% de eleitores que planejam votar em Trump, apurou o Pew Research Center, é simplesmente impedir Hillary Clinton de chegar à Casa Branca. Não importa o resultado, Donald Trump deixa o Partido Republicano em frangalhos e o establishment conservador norte-americano humilhado. Se derrotado, ele vai faturar vendendo seu biotônico extremista em novos empreendimentos, montando uma possível Trump TV. O partido de Lincoln e Reagan, agora irreconhecível, está mancando, sem ideias para enfrentar uma presidência Clinton e atordoado diante da chance de uma presidência Trump.

O historiador Douglas Brinkley tem vários best-sellers no currículo e é autor de livros sobre Richard Nixon, Ronald Reagan, Jimmy Carter, Gerald Ford e Franklin Roosevelt. Ele pertence à segunda geração de acadêmicos que se debruçam em detalhes sobre a história de presidentes, um bem-sucedido subgênero de não ficção nos Estados Unidos. Brinkley tem sido consultado com frequência por uma mídia que, depois de inflar a candidatura Trump e se beneficiar com o aumento da audiência trazida por ele, tenta demonstrar alguma contrição pelo Frankenstein que ajudou a criar.

“Trump é um profissional do ódio,” diz o historiador, que vê numa vitória do republicano “uma revolução” de consequências negativas imprevisíveis. Douglas Brinkley falou ao Aliás de Houston, Texas, onde é professor de História, na Rice University.

Há um precedente histórico para o nível de polarização em uma campanha presidencial como a que assistimos hoje nos Estados Unidos?

Havia grande polarização no período da guerra no Vietnã, com o país rachado entre pacifistas e os chamados falcões. Com isso, Nixon era certamente uma figura que dividia os norte-americanos. Uma diferença importante agora é esta guerra civil que assola o Partido Republicano, algo incomum. Chego a pensar que, desde a Guerra Civil de verdade, nos anos 1860, não havia perturbação política tão brutal. Estamos atravessando um território desconhecido.

Qual a gravidade no fato de um candidato de um dos dois grandes partidos dizer ao país que a eleição vai ser roubada?

É muito grave. Os norte-americanos gostam de pensar que exportaram para o mundo sua tradição de eleições livres e limpas. Isto é motivo de orgulho nacional. Trump está dizendo ao mundo o contrário. É péssimo para a reputação do país. Ele está abrindo espaço para revanchismo no dia 9, se perder, como parece que vai perder.

Mas as duas vitórias não contestadas de Obama alimentaram um movimento racista birther, que continua a representar o presidente como ilegítimo, nascido no Quênia.

O fato é que os Estados Unidos tiveram seu primeiro presidente afro-americano e o país, neste aspecto, mudou para melhor. E ele enfrentou os nativistas do movimento birther e está saindo do governo com alto índice de aprovação, sem qualquer mancha de escândalo. Perto de Trump e Hillary, Obama é um gigante.

Historicamente, as eleições gerais nos EUA deslocam o eleitorado para o centro, depois de primárias com maior grau de extremismo político. Isso não aconteceu este ano?

Se Hillary conseguir uma vantagem expressiva do voto popular, algo que está longe de ser garantido, é possível que o Partido Republicano queira fazer negócio com ela. Vejo algumas chances de aberturas nas área de reforma de imigração e investimentos em infraestrutura. Se houver uma vitória apertada de Hillary, vai ser dureza. A história dos e-mails com o FBI vai continuar pingando e colocando a Casa Branca na defensiva, e conduz a alguma forma de estagnação política. No passado, havia mais chance de união popular em torno de um presidente eleito, especialmente se o país passou por um trauma, como o 11 de Setembro. Mas estamos muito divididos. As feridas são reais e as cicatrizes, profundas. A direita pró-Trump, nesta campanha também conhecida como “alt right” (direita alternativa, frequentemente associada a movimentos racistas), que despreza o establishment republicano, vai com tudo em cima de Hillary. Vão espalhar todo tipo de rumor sobre ela nos websites, na rede social.

Os dois campos usam argumento semelhante: quem não gosta de Hillary deve votar nela porque o fator crucial da eleição é a escolha de juízes para a Suprema Corte. O mesmo se diz sobre Trump. Ele é indigesto, mas é preciso impedir Hillary de nomear juízes.

Isso se justifica pelo fato de que os juízes ficam décadas na Corte e a escolha tem grande repercussão política, econômica e social. Quantos às ameaças que estamos ouvindo entre republicanos, de que não vão considerar qualquer nome que ela indique para ocupar a nova vaga aberta pela morte de Antonin Scalia, em fevereiro passado, acredito que seja uma forma de intimidação. É um recado para Hillary, nem pense em escolher um democrata progressista. Eu acredito, sim, que vão marcar audiências para considerar o indicado pelo presidente Obama, o juiz Merrick Garland, e que ele será o próximo juiz da Suprema Corte.

O jornalista e biógrafo de Donald Trump David Cay Johnston, em entrevista a este jornal, disse que os problemas legais do candidato são tantos que ele acha difícil um presidente Trump chegar ao fim do mandato.

Com certeza, se ele se eleger, vai viver atolado em questões legais. Ele mesmo ameaçou processar acusadores e é objeto de investigações por irregularidades na Trump Foundation e na Trump University. Acho que vamos descobrir que ele não pagou impostos como devia. Mas, para um processo real de impeachment, é preciso algo grave e bem definido.

No exterior, muitos se perguntam como o Partido Republicano, nadando em dinheiro de doadores bilionários, deixou Trump chegar até aqui. Qualquer pesquisa básica da oposição poderia ter garimpado ouro para ser usado contra ele pelos adversários nas primárias, tanto nos negócios como na vida privada.

Sim, o Partido Republicano, além de cochilar, deixou Trump correr solto durante muito tempo. Veja que as gravações de conteúdo sexual do programa Access Hollywood só saíram no mês passado. Uma sonora daquelas num debate poderia ter salvado uma candidatura como a de Jeb Bush. Os republicanos não fizeram seu dever de casa, não refletiram sobre como o currículo de Trump se tornaria um problema.

Diante da divisão que provocou no Partido Republicano, Trump terá feito um dano irreparável ao sistema bipartidário?

Não acredito. Esta semana, vimos o líder republicano na Câmara, Paul Ryan, que não gosta de Trump nem fez campanha por ele, declarar que já votou nele, por voto antecipado. Então, acho que vão atravessar este período e, especialmente se Trump for derrotado e não perderem controle da Câmara, vão se reagrupar. Acima de tudo, acho que o partido vai tentar se vacinar para evitar a emergência de um demagogo perigoso como Trump na próxima eleição. Trump é, em parte, resultado da complacência nas primárias, foi encarado como o candidato que não precisava ser levado a sério e, assim, não foi denunciado como devia.

Há quanto tempo a ideia de vitória eleitoral não era associada a tanta apreensão?

O eleitorado está basicamente dividido pela metade. Não importa quem vencer na terça feira, o país não vai lhe dar um período de lua de mel. No quadro que temos agora, 2017 está se configurando com um ano desagradável.

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