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Apelo ao diálogo

Estrelado por pastor, documentário americano pergunta como evangélicos conservadores podem ser ‘pro-life’ e favoráveis às armas

Kenneth Serbin, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2015 | 17h41

 

Enquanto a bancada BBB – Bala, Boi e Bíblia – do Congresso brasileiro fez o País dar mais um passo para uma maciça ampliação do acesso a armas de fogo graças à votação obtida por uma importante comissão sobre este projeto de lei, esta semana, um membro destacado da família Disney acaba de lançar um documentário que vira de ponta cabeça a justificativa religiosa e moral do porte de armas.

The Armor of Light (A Armadura de Luz), que estreou em cinemas selecionados em vinte cidades americanas na sexta-feira, onde será exibido por uma semana, é dirigido por Abigail Disney. Sobrinha-neta de Walt Disney, o fundador do império do entretenimento, ela é doutora em filosofia pela Universidade de Columbia. À primeira vista, é possível que ela seja menosprezada por alguns como mais um representante da elite liberal dos Estados Unidos, fora da realidade da vida diária dos cidadãos que procuram se proteger da violência.

Entretanto, em vez de criticar severamente a posse de armas, The Armor of Light levanta um dilema moral fundamental, mas há muito ignorado: como é possível que cristãos evangélicos conservadores defendam posições que são ao mesmo tempo favoráveis à vida (contra o aborto) e favoráveis às armas?

O título do filme foi extraído da Carta de São Paulo aos Efésios: “Abandonemos as obras das trevas, do medo, do ódio, da vingança, e vistamos a armadura da luz”. A armadura é a Palavra de Deus.

Evitando a abordagem tendenciosa típica de muitos documentários realizados nos últimos anos (como Tiros em Columbine, de Michael Moore), Armor of Light explora a questão através dos olhos de duas pessoas profundamente religiosas que foram dolorosamente atingidas pela violência.

Rob Schenck, ministro evangélico branco, tem impecáveis credenciais conservadoras. Nos anos 90, ele liderou protestos contra o aborto, e numa ocasião carregou um feto morto em público para demonstrar seu opróbrio por esta prática, cena que foi reproduzida no filme. Fundou um grupo de pressão cristão, Fé e Ação, com escritórios instalados num edifício em frente à Suprema Corte dos Estados Unidos, e lembra que já chegou a vestir um colete à prova de balas com medo de represálias por suas atividades. Mas ficou traumatizado por um incidente ocorrido em seu bairro, em 2013, no qual um indivíduo armado matou doze pessoas.

Então, ele encontrou uma aliada em Lucy McBath, mãe de Jordan Davis, o adolescente afro-americano que, desarmado, foi morto em 2012 por um homem branco irritado porque o jovem e seus amigos ouviam música muito alto no carro em que andavam. Lucy transformou sua dor inenarrável em ativismo, tornando-se a porta-voz do movimento Moms Demand Action for Gun Sense (“Mães exigem ação e em favor de bom senso com as armas”) nos Estados Unidos.

Embora Lucy seja favorável ao direito de escolha na questão do aborto, ela e Schenck descobriram uma causa comum na questão das armas.

Abigail Disney capta as tensões que se criam quando Schenck estimula seus colegas conservadores a refletir sobre o problema da posse de armas. “Como pessoa que crê, quais são os seus sentimentos quando eu coloco a seguinte questão: Cristãos e armas”?, ele indaga. “Esta é uma pergunta que os cristãos “deveriam se fazer com devoção, com cautela e com espírito bíblico.”

Penetrando no cerne da cultura dos cidadãos brancos conservadores americanos, Schenck confessa que está “surpreso ao se dar conta de quão profundamente as armas estão integradas na vida, nos pensamentos e até em sua espiritualidade”. Ele destaca que isso é algo novo no cristianismo americano, onde os evangélicos antes da “Revolução Reagan” republicana conservadora eram predominantemente democratas e incluíam em suas fileiras pacifistas e objetores de consciência.

Os evangélicos tornaram-se “vulneráveis à venda das nossas almas” ao permitirem que a defesa da posse de armas e sua identificação com a Associação Nacional do Rifle (NRA na sigla em inglês), organização extremamente influente, confundissem os limites entre fé e política, afirma Schenck. Por outro lado, em Lucy e em outros cristãos afro-americanos – uma comunidade onde o medo de ser morto por uma bala é constante – ele encontra um desejo de paz.

“Não penso que a Bíblia peça que nos tornemos guerreiros prontos para a ação, e para mim é isso que quem carrega uma arma está fazendo”, afirma uma mulher negra cristã num encontro com Schenck. “É como se dissesse: ‘Estou preparado para a guerra’.”

“Os Estados Unidos estão vivendo uma crise”, conclui Schenck. E insta seus colegas clérigos a se informarem mais sobre a violência das armas e a “oferecer corajosamente uma clara orientação espiritual, moral e ética sobre esta questão de vida e morte. Não há mais tempo para permanecermos calados”. O direito constitucional de portar armas deve ser moderado por “medidas de segurança inspiradas no bom senso”, observa Lucy McBath.

Abigail produziu uma raridade no panorama da mídia e da política americana: um filme de profunda sensibilidade religiosa, de respeito por ideias opostas e um apelo ao diálogo sobre um dos problemas mais inquietantes do país. Ela espera continuar este diálogo pessoalmente. Com Schenck e Lucy, comparecerá a algumas exibições para conversar com o público, e oferece ingresso gratuito a membros da NRA.

As questões cruciais levantadas por este filme aplicam-se não somente aos Estados Unidos, mas também ao Brasil e a outras sociedades atormentadas pela violência das armas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA]]

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