Apertem os cintos, o presente sumiu: o que mudaríamos no Brasil se pudéssemos voltar no tempo?

Se as fantasias de viajar no tempo têm sempre motivação corretiva, o que mudaríamos no Brasil ao voltar para o passado? Pendências históricas temos aos montes

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2016 | 16h00

O que você faria se tivesse acesso a uma máquina do tempo? Do tempo e não apenas de teletransporte, um bizarro engenho que nos teletransportasse ao passado ou ao futuro.

O viajante no tempo criado por H. G. Wells, por exemplo, mandou-se para o futuro; o Dr. Papanatas dos quadrinhos do Brucutu nos levou à Idade da Pedra. Questão de gosto. Ou necessidade. Os heróis da telessérie Timeless, que a NBC estreou na última segunda-feira, só retroagem, como o Exterminador do Futuro e o Marty McFly do primeiro De Volta para o Futuro. Vão cumprir uma missão: corrigir o passado, desviá-lo de ocorrências indesejáveis.

Não seria o wishful thinking retrospectivo o móvel de quase todas as viagens ao passado a bordo de uma máquina do tempo ou qualquer artefato com idênticas propriedades? Se a viagem de Marty McFly aos idos da brilhantina não tinha motivação corretiva, era mera curtição ditada pela curiosidade, como o safári pré-histórico do clássico conto de Ray Bradbury Um Som de Trovão, os deslocamentos ao passado dos crononautas de Timeless (“Intemporal”, em inglês) seguem o veio explorado por Stephen King no romance Novembro de 1963, para citar o mais recente exemplo de ficção contrafactual. Num dos episódios da série, o trio que a estrela também tenta evitar que o presidente John Kennedy morra naquele atentado em Dallas.

Em outros episódios, os corretores de Timeless se esfalfam para impedir que John Wilkes Booth mate o presidente Abraham Lincoln, o Titanic vá a pique e o dirigível alemão Hindenburg vire um monte de cinzas em Nova Jersey. Nada que prime pela originalidade – nem o tema, nem as tragédias históricas escolhidas; nem sequer a série em si, acusada de plágio pela TV espanhola, que, não faz muito tempo, produziu algo similar, intitulado El Misterio del Tiempo.

Sobra o lado didático: divertindo-se, os telespectadores aprendem história, contextualizam o que às vezes conheciam só de orelhada (ou nem isso) e traçam os paralelos cabíveis com o presente. Quase ninguém sabia, por exemplo, que, um ano antes do assassinato de Lincoln, o irmão do criminoso salvara a vida do filho do presidente. Timeless preencheu essa lacuna no segundo episódio.

Por que não teledramatizamos aqui “o mistério do tempo” sacado pelos espanhóis, se os americanos já o fizeram e ninguém até agora foi preso como plagiário, só ameaçado de um processo? Correções históricas pendentes temos aos montes.

Desembarcando no Rio em agosto de 1954, nossos crononautas poderiam evitar não exatamente a morte de Getúlio Vargas, mas o assassinato do major Rubem Vaz, estopim da crise que resultou no suicídio do presidente. Desviando para Brasília e em lá chegando o mais tardar em 14 de março de 1985, talvez lograssem convencer a família de Tancredo Neves a trocar o Hospital de Base da capital por uma clínica cinco estrelas de São Paulo. Com impedir o segundo gol uruguaio na Copa de 1950 o saudoso jornalista Paulo Perdigão sonhou antes, num conto maravilhoso, decalque catártico da narrativa de H. G. Wells, que Jorge Furtado adaptou ao cinema num curta intitulado Barbosa, mas talvez valesse a pena recriar por outro ângulo aquela falseta do destino, e repará-la.

Se os responsáveis por essa hipotética telessérie nacional me solicitassem alguma sugestão, às suas mãos faria chegar o seguinte resumo:

Programa Manhattan Connection, GNT, 1996. Seu principal integrante, jornalista Paulo Francis, acusa a diretoria da Petrobrás de desviar milhões de dólares para contas particulares em bancos suíços, desabafo que resulta num processo milionário do então presidente da Petrobrás Joel Rennó contra Francis e culmina com um enfarte fatal do jornalista, em fevereiro de 1997. Missão dos nossos crononautas: entrar na máquina do tempo e convencer o então presidente Fernando Henrique Cardoso a examinar a procedência da acusação, demitir o presidente da estatal e quem mais tivesse culpa no cartório, e, aproveitando a viagem, forçar Francis a mudar de médico, pois aquela dormência que lhe aporrinhava o braço não era uma inócua bursite.

De volta para o futuro, constataríamos um tremendo efeito borboleta: ninguém por aqui jamais teria ouvido falar na Operação Lava Jato, no Cerveró – e a situação econômica da Petrobrás e do País seria outra, tão surpreendente quanto o revertério eleitoral com que o protagonista de Um Som de Trovão depara ao voltar de seu safári jurássico, com uma borboleta esmagada na sola da bota.

Isso jamais aconteceria, não por desídia de nossa Justiça, mas porque viajar no tempo é, até prova em contrário, algo impossível, restrito ao plano da fantasia. Daí sua persistência no imaginário popular, nos livros de ficção, na tela, e mesmo na mídia, em enquetes do tipo “Se pudesse voltar no tempo e tivesse a chance de matar Hitler ainda bebê, você o mataria?”, como a veiculada pela revista dominical do The New York Times, repetindo, aliás, um desafio ficcionalizado em 1941 num conto de Ralph Milne Farley, no qual um pintor americano regredia até 1900 para matar o pequeno Adolf, então já com 11 anos.

No final do relato, intitulado I Killed Hitler, o assassino assumia o destino traçado para sua vítima, transformando-se num ditador. Moral da história: a gente até pode violar as leis do espaço e do tempo, mas não escapa da Lei das Involuntárias Consequências.

Seis dias antes da estreia de Timeless, chegou às livrarias (e ao Kindle, por US$ 14) um ensaio histórico sobre o viajar no tempo, Time Travel: A History, até onde li excelente como tudo o que James Gleick escreve. Aqui conhecido pelo alentado A Informação (Companhia das Letras), Gleick já trocou em miúdos a nossa obsessão por acelerar o tempo (em Faster); agora estuda a nossa obsessão por transcendê-lo, examinando uma ampla gama de questões éticas, filosóficas e científicas suscitadas pelos tours em “time machines”, desde a de Wells, matriz das demais.

Indo e vindo no tempo, somando fantasias vitorianas, inovações matemáticas, descobertas astrofísicas e encucações filosóficas, Gleick passa por Einstein, Minkowski, Möbius, Gauss e todos aqueles que pensaram fora dos padrões bi e tridimensionais. Um elenco formidável de cientistas, pensadores e artistas – de Santo Agostinho a Woody Allen, passando por Richard Feynman, Edgar Allan Poe e autores de ficção científica – o ajuda a tornar irrefutável a tese de que viajar ao passado e ao futuro é uma quimera só factível no mundo abstrato, inimaginável antes da Revolução Industrial (“ninguém pensava no futuro em 1516”) e para sempre um laxante espiritual.

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