Aplicativo antirrejeição

Escândalo sexual envolvendo fundador do Tinder revela os limites da empresa voltada para o encontro entre pessoas

Elaine Grecco, O Estado de S. Paulo

05 Julho 2014 | 16h00

O Tinder é um aplicativo para paquera virtual. Funciona com a base de dados do Facebook para delinear perfis compatíveis; o(a) usuário(a) discrimina o gênero, idade e o raio de distância geográfica do possível pretendente. Somente quando os interesses nas fotos convergem os usuários podem trocar mensagens, função desenvolvida a fim de “acabar com a rejeição na paquera”, conforme declaração de Justin Mateen, um dos fundadores do Tinder. 

Criar um aplicativo com base na dificuldade humana de lidar com a rejeição é feito sublime! Transformar um sintoma numa ferramenta de uso social é o que assegura a construção cultural. Mateen foi capaz de produzir esse fenômeno quando funcionava preventivamente ao lidar com o impacto da rejeição amorosa. No entanto, não pôde se beneficiar do mesmo recurso psíquico ao se defrontar com uma rejeição real por sua ex-namorada, a ex-diretora de marketing da mesma empresa, Whitney Wolf. Em síntese, Mateen e Wolf envolveram-se amorosamente - e Wolf terminou o namoro, o que teria promovido em Mateen reações violentas de xingamentos e acusações públicas. 

Era o fim do mundo dos sonhos.... O Tinder não “acaba com a rejeição”, somente atenua o transtorno de uma rejeição imagética a priori, mantendo vívido o risco de frustração a qualquer momento por rechaço de qualquer um dos envolvidos. Nenhum sintoma é bom ou ruim: por um lado, a dificuldade em lidar com a rejeição promoveu a criação do aplicativo; por outro, gerou um processo legal. 

Toda expressão violenta intenciona escamotear ausência de poder, de acordo com Hannah Arendt. O poder é atribuído pelo outro, não pode ser arrancado ou imposto a alguém. Os que se acham poderosos e se autorizam a tripudiar vivem psiquicamente na condição impotente e a isso reagem com violência. Os insultos de Mateen parecem também decorrer da sensação de impotência ao não conseguir se sustentar como namorado de Wolf. 

Merece nota o ambiente no qual o processo de abuso ocorreu: uma empresa voltada para o encontro entre as pessoas, mas que abriga empregados que não interromperam as constantes violações contra a colega Wolf por Mateen. A lei serve quando falha a ética do convívio, pois deflagra o fracasso na linguagem relacional. As notas divulgadas pela empresa revelam repúdio ao comportamento de Mateen e afastamento de suas funções profissionais, expressões posteriores à abertura do processo. Permanece em vigor o antigo regime sexista e misógino de trato à mulher, linguagem ainda tão recorrente entre machos (não homens, necessariamente). Tal frequência produz a ausência de posicionamento crítico de quem assiste, embora a fina camada de verniz aponte para um anúncio de repúdio ideológico por parte da empresa. Enquanto a violência corria solta, não há registro de nenhum posicionamento de qualquer integrante desse cenário. Esse conceito de excesso simbólico produtor de falta real foi desenvolvido pelo sociólogo Jean Baudrillard. Apocalíptico, Baudrillard se ressente da falta de corpo para o volume de ideias (ideais) que habitam os discursos, no qual o valor da experiência é diminuto frente à teoria da experiência.

Ocupado com o dinamismo veloz e efêmero do mundo, outro sociólogo, Zygmunt Bauman, escreveu o livro Amor Líquido, no qual aponta o caráter inconsistente nas intimidades. Ele escreve que esse amor sem forma nem compromisso afeta o amor próprio que depende do amor do outro para existir, pois ao elegermos quem amar e por quem queremos ser amados, atribuímos-lhe poder de determinar quanto sou amado e como. Na ausência dessa resposta, a vivência de desamor é certeira e à tentativa de repúdio e negação dessa experiência que a resposta psíquica é intensa. Com base nos recursos disponíveis o sujeito pode se flagrar xingando e tentando destruir o tamanho que a pessoa ocupa como importância ou apelar infinitamente por uma resposta, como fez Linda Murphy, que acabou sendo presa por ligar 70 mil vezes para o ex-namorado.

As relações não nascem prontas, nem as físicas nem muito menos as virtuais. Demandam intenso trabalho para fundar qualidade e aprofundamento na intimidade. Exigem exposição e dúvida nas histórias de fracasso que as antecedem. Implicam a capacidade de abrir mão de um jeito único de funcionar junto a alguém. O mundo nunca esteve pronto para isso. Antes da era da informação, que abriu espaço e valor para expressão pública dos incômodos humanos, lidávamos com o engessamento dos ideais de postura, no qual o tratamento de “senhora e senhor” visavam a assegurar o respeito nas relações. Era uma falácia. Tratamento simbólico não se traduz em experiência prática. A ética se apresenta como aquilo que se faz a partir do que se fala. O respeito e admiração pelo diferente é algo muito custoso e complexo como recurso psíquico. Aprender a discutir com agressividade necessária para se fazer entender também custa. Guerrear é diferente de con-versar (versar junto). Transitar no amor é arte.

*

Elaine Grecco é psicóloga e psicanalista

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.