Cincinnati Art Museum/The Edwin and Virginia Irwin Memorial
Cincinnati Art Museum/The Edwin and Virginia Irwin Memorial

Após Charlottesville, Guerra Civil é tema de duas séries inéditas

HBO cogitou cancelar 'Confederate', enquanto Amazon anunciou 'Black America', ambas contando história contrafactual

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

26 Agosto 2017 | 16h00

A secessão agora é na tela. E no streaming. O HBO prometera uma série sobre o que teria acontecido na América se os confederados do Sul tivessem derrotado o exército da União, na Guerra Civil de meados do século 19. Assustados com os tumultos em Charlottesville, os produtores de Confederate chegaram a pensar em arquivar ou desistir do projeto. Foi quando outra fantasia contrafactual, bancada pela Amazon, entrou na disputa. E na contramão do concorrente. Em Black America, o Sul perde a guerra. Ou melhor, perdeu. Há 152 anos.

Sim, foi exatamente isso que aconteceu na vida real, mas não do jeito como será contado na série da Amazon, na moita em preparo há um ano, ao contrário de Confederate, que nem roteiro tem. 

Ambientada nos dias de hoje, Black America não retrata um, mas dois países imaginários: New Colonia, enclave soberano formado por ex-escravos indenizados durante a Reconstrução onde antes ficavam Luisiana, Mississippi e Alabama, que vive às turras com seu poderoso vizinho, o restante dos Estados Unidos, vulgo Big Neighbor. Após mais de um século de provocações, ocupações, assassinatos, mudanças de regime e golpes de estado, os novos colonos e os velhos ianques usufruem enfim duas décadas de paz, ao longo das quais os primeiros prosperam exponencialmente e seus vizinhos entram em franco declínio econômico e moral. 

Como tudo termina? Só perguntando aos produtores Will Packer e Aaron McGruder, ambos negros e experientes na TV, que ainda não decidiram que desfecho dar à sua utopia; para os racistas, uma distopia. Onde já se viu uma nação poderosa como os EUA sucumbir à ascensão de uma colônia de ex-escravos?, irão cobrar os supremacistas brancos que fizeram de Charlottesville um campo de batalha e antes puseram na Casa Branca um potencial fator de decadência da América real.

O imaginário cinematográfico custou a valorizar a participação de escravos e ex-escravos na Guerra de Secessão. No início dos anos 1970, Glauber Rocha encasquetou de contar a história da Guerra Civil do ponto de vista dos negros. Ficara amigo de Francis Ford Coppola, que prometera produzir-lhe um filme em Hollywood, com a eventual colaboração de Marlon Brando. Glauber não fez por menos: uma versão black de E o Vento Levou

Entusiasmado com a perspectiva de dirigir um “épico de esquerda” patrocinado por figuras tão prestigiadas, propôs a dois velhos amigos e entusiastas de westerns a elaboração, a seis mãos, de um primeiro roteiro. O crítico de cinema Paulo Perdigão e este escriba, os entusiastas por ele sondados, o aconselharam a mirar alto e procurar Dalton Trumbo ou Philip Yordan, mas o projeto morreu antes de sequer ganhar um título provisório. A ideia, porém, permaneceu viva. 

Quase 20 anos depois, o ator e roteirista Kevin Jarre, fissurado na história da Guerra Civil, recuperou a saga da 54.ª Infantaria de Voluntários de Massachusetts, o primeiro regimento inteiramente integrado por soldados negros a entrar em combate no conflito, para uma produção dirigida por Edward Zwick, Tempo de Glória (Glory). Não era uma réplica negra de E o Vento Levou nem o que se podia prever de uma epopeia glauberiana (possivelmente uma mistura barroca de Django Livre com Queimada, sem o escracho do primeiro e o academicismo do segundo), mas um bom filme, que além de abordar um aspecto inexplorado da Guerra de Secessão, tratou-o com a necessária nobreza.

Imaginar como será (ou seria) a próxima Guerra Civil ainda não entrou na pauta do cinema e da TV, mas de jornais, revistas e discussões acadêmicas, sim. E com maior vigor depois que a campanha eleitoral de Trump tornou o bullying racista uma excrescência cotidiana e uma pesquisa revelou a existência de mais de 900 hate groups (grupos de ódio) em atividade no país da Ku Klux Klan. “A Guerra Civil é um dragão adormecido na história americana, que a qualquer momento pode despertar e soltar fogo pelas ventas”, lembrou há dias o historiador David Blight, da Universidade de Yale, em artigo publicado no Guardian.

Em março, a revista Foreign Policy consultou vários especialistas em segurança nacional sobre a possibilidade de uma nova cisão fratricida na América, nos próximos 10 ou 15 anos. Estimativa mais baixa: 5% de chance. Mais alta: 95%. Média: 35%. E ainda faltavam cinco meses para o quebra-quebra de Charlottesville. 

Keith Mines, um dos maiores experts no assunto, há anos pesquisando guerras civis em três continentes, cravou 60%. A seu ver, há muitos pontos em comum entre a desagregada América de 1859 e a dos dias atuais. As constantes fugas de escravos dos estados do Sul para a liberdade nos estados do Norte foi a primeira grande crise de refugiados vivida pela América. 

Para testar as conjecturas de Mines, Robin Wright, articulista da revista The New Yorker, consultou cinco proeminentes historiadores da Guerra de Secessão. Constatação número um: o mapa do conflito original quase nada mudou. Não mais se fala em ianques e confederados, mas em esquerda, direita, supremacistas, americanos puros.

A discórdia se exacerbou e o pessoal mais vulnerável ao racismo, ao tribalismo e a valores que o vento já deveria ter levado mas não levou, está bem mais armado. E, no lugar de Lincoln, temos Trump.

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