Gustavo Moura
Gustavo Moura

Arrodeio do tempo

Entrevista com

Gustavo Moura

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2015 | 16h00

As fotos de Gustavo Moura têm vida. Carregam a alma do sertanejo e do folclore nordestino. Desapegado da composição dita clássica (a da escola europeia, mais distante e talvez mais fria), ele se aproxima do que fotografa com todos os seus sentidos. Tão perto de outras almas, consegue expor a sua, também nordestina e sertaneja. Aos 30 anos, o jogador de vôlei profissional deixou o esporte para se dedicar inteiramente a outra paixão: a fotografia. Não conseguiu se dividir entre os dois porque, diz, sempre precisou estar inteiro em tudo que faz. Agora com 65, Moura transita entre a fotografia documental e autoral. Já participou de diversas exposições individuais e coletivas e teve seu trabalho publicado em livros e revistas, como o Caderno de Fotografia Brasileira, do Instituto Moreira Salles. Seu trabalho integra a coleção Pirelli, do Masp, e em 2013, ele conquistou o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia com o projeto Fotografia Paraibana Revista. De João Pessoa, onde vive, Moura falou ao Aliás.

Como o vôlei te levou à fotografia?

Antes de tomar a decisão de ser fotógrafo eu nunca tive nada que me direcionasse exatamente pra isso, de forma objetiva. Veio surgindo. Eu era atleta profissional de vôlei e tinha me dedicado a essa vida esportiva. No início dos anos 1980, com 30 anos, comprei uma câmera e comecei a fazer essa reflexão sobre meu tempo e meu entorno. Decidi então que aquele era o caminho que eu queria trilhar. A fotografia surgiu e entrei de cabeça, de corpo e alma, e não quis mais parar. Foi tão forte que deixei o esporte. Meu trabalho tem uma relação clara com o universo familiar onde cresci. Meu pai era pesquisador de cultura popular, membro da Comissão Nacional de Folclore. Então viajei bastante com ele, contadores de história visitavam minha casa e isso tudo me impregnou. Tanto que comecei fotografando justamente os temas que meu pai pesquisava. São temas que eu não vou abandonar nunca e eles não me deixariam também, como o semiárido, a religião, as festas populares do Nordeste.

Você tem um trabalho em preto e branco reconhecido e admirado. Como a cor entra nessa história?

Comecei com o preto e branco porque tenho uma admiração profunda por essa linguagem e sua possibilidade de lidar com formas e movimento. O preto e branco sempre me remete à gravura e ao desenho, que também são formas de expressão das quais gosto muito. Mas eu vivo num lugar onde as cores saltam. O imaginário da cultura nordestina é muito intenso cromaticamente. Então, as cores começaram a vir pra mim de uma forma que eu não podia mais ignorar. Antes de qualquer leitura que fizesse, ou quisesse fazer, a cor vinha na frente, me provocava. Nunca abandonei o preto e branco, mas são formas diferentes de lidar, observar e interagir com o mundo. Cada uma tem seu ritmo e seu movimento. O preto e branco é mais devagar, sobretudo porque ainda o faço todo no processo analógico. A cor, quando chega a mim, é como se já estivesse pronta. Contudo, a fotografia é um sentimento só. Fotografar me aproxima da poesia e de mim mesmo. Fotografo o ritmo e o movimento que estão dentro de mim. A fotografia é a música que eu tento aprender a fazer todo dia. 

E como soa essa sua música?

A fotografia me desperta o interesse e o encantamento, principalmente, pela possibilidade de fazer um recorte desse tempo que passa a meu redor, de me comunicar e abordar as coisas mais íntimas de minha vida. Sou movido por essa possibilidade de comunicação. É minha forma de recortar, é meu contato com a vida e eu preciso dar vazão a essa necessidade. O que eu documento é meu tempo, um exercício de vivência, humanidade e afeição. Essa música é a forma de tocar as coisas com meus olhos. Nada intelectualizado, racional ou elaborado previamente, mas um impulso emocional. Sou movido por questões desse ambiente de onde vim, nasci e cresci, da cultura popular, das expressões artísticas. Não sei elaborar um pensamento racional sobre meu fazer, sobre esse impulso primal e poético, mas acho que essa música é o arrodeio do tempo a passear no meu caminho. E assim vou indo.

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