Art Basel
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Arte performática é destaque nas principais mostras do mundo

Performance está em evidência na Art Basel, na Suíça; Performa, nos EUA; e Skuptur Projekte e Documenta, na Alemanha

The Economist, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2017 | 16h00

No edifício medieval que abriga a Câmara Municipal da pequena Münster, na região alemã da Westfalia, a jovem artista romena Alexandra Pirici se prepara para contar uma história. Atraídas pela expectativa de que Pirici tem algo de especial a dizer, as pessoas aguardam há horas na fila para entrar. Quando a coisa começa, os seis performers da artista se põem a fazer breves declarações: quanto tempo faz que alguém foi morto a tiros tentando cruzar o Muro de Berlim; a que distância fica a fronteira da nossa galáxia. Os atores usam seus corpos para criar formas que lembram monumentos prestes a desmoronar, esculturas comemorativas e cartazes famosos, circulando pelo edifício, cantando o tempo inteiro. O público parece hipnotizado. A performance faz parte do Skulptur Projekte Münster (SPM), mostra que é realizada a cada dez anos e se propõe a apresentar o que há de mais experimental na escultura contemporânea, muito embora a obra de Pirici não seja uma escultura no sentido convencional. A artista descreve seus performers como “mecanismos de busca humanos”.

Este ano, o SPM está coincidindo com algumas outras exposições que, em conjunto, oferecem um panorama único da arte contemporânea. A Documenta, evento quinquenal considerado por muitos como o núcleo crítico do universo artístico contemporâneo, foi inaugurada em 10 de junho em Kassel, também na Alemanha, e seguirá em cartaz até meados de setembro (este ano, entre 8 de abril e 16 de julho, Atenas sedia uma versão paralela da exposição). A Art Basel, mais importante mostra de arte moderna e contemporânea, realizada anualmente, encerrou-se em 18 de junho, e a Bienal de Veneza, inaugurada em maio, vai até o fim de novembro. As performances são destaque nos cinco eventos.

A arte performática tem mais de cem anos. Até pouco tempo atrás, porém, atraía apenas um número restrito de aficionados. Nas primeiras décadas do século 20, os futuristas italianos viam suas intervenções como um meio para atingir diretamente as massas. Os dadaístas tomaram de empréstimo diversos elementos da cultura popular, como os cabarés e o vaudeville.

Mas a arte performática costuma ser mais associada ao conceitualismo dos anos 1960 e 1970, em que a ideia tinha precedência sobre a execução. E Nova York é o centro da performance moderna desde esses seus primórdios um tanto quanto “agrestes”, quando, entre outras intervenções inesquecíveis, Vito Acconci passou duas semanas, oito horas por dia, na galeria Sonnabend, masturbando-se sob uma plataforma de madeira que impedia o público de vê-lo, mas não de escutá-lo.

A Performa, exposição dedicada à performance que acontece a cada dois anos em Nova York, hoje é considerada um evento imperdível. Marina Abramovic, provavelmente a artista performática viva mais famosa depois de Ai Weiwei, pretende criar um instituto de ensino ao norte da cidade. A iniciativa preencherá um vazio: poucas escolas de arte incluem a performance em seus currículos. E, em 2019, será inaugurado no Chelsea nova-iorquino o Shed, um centro de performances e outras formas artísticas experimentais.

Em sua primeira fase, sob o impacto da Guerra do Vietnã, do movimento contra a discriminação racial, dos protestos de 1968 e da segunda onda do feminismo, a performance moderna foi marcadamente política. E muitos artistas, sobretudo os que haviam se desiludido com o mercado de arte, empenhavam-se em fazer com que também fosse agressiva. Carolee Schneemann disse: “Em 1963, usar o meu corpo como extensão das minhas construções pictóricas era ameaçar as linhas de força territoriais e psíquicas que condicionavam a aceitação das mulheres no Clube dos Garanhões da Arte.”

Seja como for, o trabalho que fez a performance alcançar o grande público provém dessa tradição combativa. Em 2010, Abramovic realizou uma intervenção com o título de O Artista Está Presente no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Durante sete horas por dia, a artista permanecia sentada numa cadeira, imóvel, tendo diante de si outra cadeira, onde integrantes do público podiam se sentar e ficar cara a cara com ela. Nada menos do que 700 horas depois, Abramovic tinha olhado nos olhos de 1,4 mil pessoas, por intervalos que se estendiam de alguns minutos a dias inteiros, diante dos olhares de outros 500 mil espectadores. Milhões de pessoas assistiram a um vídeo em que um antigo companheiro de Abramovic, o também artista Ulay, com quem ela realizou muitos de seus primeiros trabalhos, surge de maneira imprevista no museu e ocupa a cadeira vazia. Os dois se esforçam para conter as lágrimas.

Alguns paralelos históricos ajudam a explicar o ressurgimento do interesse pela arte performática. Os futuristas e os dadaístas tinham obsessão pelas máquinas, assim como os artistas de hoje têm pelos computadores. Há também quem compare as instabilidades atuais com as turbulências dos anos 1970. A Documenta deste ano aborda explicitamente temas políticos desse tipo. Em Kassel, um pequeno grupo de visitantes foi posto numa área cercada, recebendo em seguida a instrução de se comunicar com outro grupo que se encontrava em Atenas, enquanto o restante do público observava. Concebida para fazer com que os participantes refletissem sobre coisas como “eles” e “nós”, as relações de poder e as dificuldades de comunicação, a experiência se mostrou inesperadamente aflitiva para os que ficaram no cercado.

A popularização está produzindo mudanças na arte performática. Muitos artistas começam a incorporar elementos de dança, cinema, teatro e escultura, e até mesmo de teatro de rua e rap. “A performance tinha ficado parada na década de 1970: protestos, pessoas se cortando”, afirmou no ano passado a fundadora da Performa, RoseLee Goldberg. “Há alguns anos, me peguei pensando: por que a gente não tem performances que sejam visualmente bonitas e provocadoras em termos emocionais e intelectuais? Por que tudo tem de se reduzir a um gesto executado entre os ‘alternativos’ do Lower East Side?”

De lá para cá, Shirin Neshat, Doug Aitken, Matthew Barney e Abramovic vêm produzindo performances belíssimas e poderosas. Em 2011, o islandês Ragnar Kjartansson apresentou Bliss na Performa. Reencenação da última ária de Bodas de Fígaro, de Mozart, executada repetidas vezes ao longo de 12 horas por dez cantores líricos e uma pequena orquestra, a performance selou a reputação de Kjartansson como um artista capaz de deixar o público em êxtase. Um dos principais destaques da Art Basel deste ano foi Yes, Yes, All the News that’s Fit to Print (Isso, Isso, Todas as Notícias que Fazem Bonito no Papel), do jovem artista americano Than Hussein Clark. A performance misturava teatro, dança, sons e poesia (além de passagens do romance Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso), numa igreja modernista dos anos 1930. Fascinados, alguns espectadores não arredaram pé enquanto a intervenção não chegou ao fim.

Colecionar, exibir e reproduzir performances ainda é um desafio. O colecionador canadense Bob Rennie precisou de 279 atletas para mostrar, durante três meses, a Obra n.º 850 de Martin Creed, para o público de seu museu particular. Mas esse tipo de arte injeta uma bem-vinda dose de vida e dimensão social em galerias e museus. Klaus Biesenbach, curador responsável pela performance de Abramovic no MoMA, diz que os jovens de hoje, que estão habituados a filmar tudo o que veem a sua volta e permanecem o tempo inteiro ligados nas redes sociais para saber o que mais anda acontecendo pelo mundo, encaram a arte performática com outros olhos.

“Esse foi um dos fatores que contribuiu para que trabalhos baseados em performance e participação dotados de um elemento temporal tenham se tornado tão comuns até mesmo em grandes eventos artísticos”, acredita ele. Com os artistas explorando toda uma gama de possibilidades — do gesto isolado ao “teatro total”, ao estilo de Wagner —, surge um novo meio, em grande medida analógico, para dialogar com o universo digital de hoje. /Tradução de Alexandre Hubner

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