Artista escolhido por Obama para retratá-lo questiona representatividade

Artista escolhido por Obama para retratá-lo questiona representatividade

Obras paródicas de Kenhinde Wiley está exposta em Londres

Farah Nayeri , The New York Times

02 Dezembro 2017 | 16h00

LONDRES - No início do próximo ano, um retrato de Barack Obama estará nas paredes da Smithsonian National Portrait Gallery em Washington, pintado por um artista escolhido pelo próprio Obama nos últimos meses de sua presidência.

O artista, Kehinde Wiley, é conhecido por retratar jovens negros em pinturas estilizadas que revisitam deliberadamente antigas tradições da arte. Seu Napoleão Conduzindo o Exército pelos Alpes (2005) mostra um jovem em botas de escalar e camuflagem montando um garanhão da mesma forma que o imperador francês em uma pintura de Jacques-Louis David do início do século XIX. No Retrato Equestre do Rei Philip II (Michael Jackson), de 2010, o superstar pop Jackson, de capa e com uma elaborada armadura, imita o monarca na obra de Rubens ao qual o quadro faz referência.

Então, Obama também será retratado a cavalo, vestindo calças e usando um chapéu emplumado? Wiley disse ter prestado juramento de sigilo na National Portrait Gallery. “Eu gostaria de poder dizer mais”, acrescentou em uma entrevista na Galeria Stephen Friedman, onde tem uma nova mostra solo. Indicou que está trabalhando muito no retrato, dizendo que havia “tantas repetições diferentes dele”.

“Estou entusiasmado com isso: será fantástico”, disse. “Será, digamos, boom!”, acrescentou, e estendeu os braços em júbilo.

Wiley explicou que o “momento extraordinário” aconteceu ao ser escolhido como pintor afro-americano para produzir um retrato presidencial para a National Portrait Gallery. Disse ter levado muito a sério o fato de Obama ter confiança nele para fazê-lo.

A exposição de Londres – com nove cenas marinhas e um filme de três telas – é uma despedida dos coloridos retratos que estão agora nas coleções de praticamente todos os principais museus nos Estados Unidos (e foi destaque na série de TV Empire). As novas pinturas fazem referência a obras de J.M.W. Turner, Winslow Homer e Hieronymus Bosch em seus títulos. Mas a semelhança visual com qualquer dos precursores é menos evidente do que nos retratos que tornaram Wiley famoso.

Retratados em tela nas marinhas, há haitianos da vida real, cujos nomes também estão incluídos nos títulos das obras. Eles posam na praia em melancólicos retratos de corpo inteiro, ou navegam por mares tempestuosos em antigas embarcações de pesca.

A arte de Wiley revela diferentes maneiras de ver e questiona a representação de não-brancos (ou a ausência deles) na arte ocidental. Por exemplo, os espectadores que não estão acostumados a ver figuras negras em paisagens marinhas podem identificá-los como imigrantes do século 21 que fogem da África, fugitivos do navio de escravos do século 19 ou banhistas e pescadores modernos.

“Outros podem ver as paisagens marinhas como uma maneira realmente maravilhosa de olhar o lazer dos cavalheiros, ou um certo aspecto da ingenuidade e conhecimento ocidentais”, explicou Wiley. No entanto, para ele, o gênero evoca uma era de exploração que deu origem a plantações de cana-de-açúcar na Jamaica, campos de algodão na Carolina do Sul e campos de arroz na Geórgia, disse ele. Suas novas obras foram uma oportunidade de demonstrar como “todos olhamos para o mesmo objeto de maneiras diferentes”.

Stephen Friedman, seu galerista de Londres, disse que Wiley “queria experimentar algo novo” e dirigiu-se a ele há um ano, perguntando o que ele achava disso. O galerista disse sim de imediato e, inicialmente, quis saber “se as pessoas vão demorar para reagir a esse tipo de trabalho”. Friedman disse que tinha clientes e instituições já interessados em comprar as cenas marinhas, que tinham preço entre US$ 135 mil e US$ 350 mil.

Wiley nasceu em 1977 de pai nigeriano e mãe afro-americana que se conheceram quando estudantes da Universidade da Califórnia, Los Angeles. Ele e seus cinco irmãos foram criados no centro sul de Los Angeles apenas por sua mãe, que dependia de benefícios da previdência e ganhos do brechó da família.

Aos 11 anos, o jovem Kehinde foi matriculado em aulas de arte gratuitas de fim-de-semana e foi levado a museus, incluindo a Huntington Art Gallery, cuja coleção de retratos britânicos do século 18 e 19 trouxeram a ele uma familiaridade precoce com o gênero. Ele se tornou “muito consciente dos símbolos do poder, das implicações do retrato tradicional, que são sobre privilégio, poder, elitismo”, disse Eugenie Tsai, curadora do levantamento do Brooklyn Museum em 2015, sobre o trabalho de Wiley. “Ele observava um mundo no qual não estava incluído.”

Wiley estudou no Art Institute de São Francisco, depois obteve o seu mestrado em belas artes (MFA) na Universidade de Yale. Após a formatura, tornou-se artista residente no Studio Museum no Harlem, e logo vivenciou uma epifania visual.

Passou por acaso um dia, sobre uma folha amassada, que era um retrato da polícia de um jovem homem negro. “Eu sou apenas esse rapaz passeando pelas ruas do Harlem”, disse ele. “Vejo aquele pedaço de papel, e estou olhando para ele, e o rapaz usa colares estranhos. Tem esse rosto realmente bonito e simpático. E eu penso: ‘isso precisa ser um retrato!’”

A foto do jovem feita pela polícia era o oposto dos retratos em museus que Wiley conhecia. “Esta era uma foto de alguém que não tinha nenhuma agência, nenhum controle de como a foto foi tirada”, disse Tsai. Aqui estava alguém que se parecia com Wiley mas “não ditava as regras”.

Nos trabalhos que se seguiram, Wiley partiu para substituir os reis, príncipes e profetas dos antigos mestres por afro-americanos contemporâneos, pintados a partir da vida. Estes jovens homens foram m geral abordados na rua, sendo perguntado se queriam posar para um retrato e então convidados a escolher a obra-prima na qual desejavam ser retratados. Inicialmente representados em retratos em pé, foram então retratados a cavalo e, mais tarde, reclinados ou em repouso, à maneira dos santos ou do Cristo morto. Eventualmente, Wiley começou a retratar mulheres como homens, e trabalhou em mídias tais como vitrais e escultura.

Agora, o artista – que tem estúdios no Brooklyn, em Pequim e em Dacar, no Senegal, para evitar o tédio de trabalhar em um só lugar – planeja enfrentar outro mestre. “Gauguin é um dos meus ídolos, mesmo na era de Weinstein”, disse Wiley, referindo-se a Harvey Weinstein, o desastrado produtor de Hollywood. “Gauguin é assustador, vamos admitir. Ele vai lá para o Pacífico, e olha para aquelas jovens com o contemplar colonial: é realmente problemático”.

Ainda assim, Wiley disse que queria ir ao Pacífico e “usar Gauguin como uma luva ou uma lente de contato ou uma capa através da qual eu possa ver e ter uma experiência lá”.

Seu outro grande plano, disse, era encontrar o homem na foto da polícia e fazer uma sala com retratos dele atualmente. Wiley tem todos os detalhes do documento original da polícia, e poderia localizá-lo facilmente, ele disse, mas há muito tempo nutre resquícios éticos.

“Eu acho que seria um trabalho extraordinário”, disse. “Eu só espero que as pessoas permitam que seja isso seja o que é: é maravilhoso, é uma oportunidade, é um mistério”. / Tradução de Claudia Bozzo 

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