David Payr/The New York Times
David Payr/The New York Times

Artista instala obra em Viena para lembrar anexação da Áustria por Hitler

'As Vozes', de Susan Philipsz, é uma recordação do evento que ocorreu há 80 anos

Gerrit Wiesmann, The New York Times

24 Março 2018 | 16h00

VIENA - Quatro notas musicais assombradas envolveram a Heldenplatz, ou a Praça dos Heróis, no centro de Viena. Uma obra de arte com o som de uma voz como que rodopia vindo de um antigo palácio de Habsburgo, flutuando em frente a dois edifícios do outro lado do enorme espaço público. “É tão interessante nesta praça ocupada, tão sutil”, disse o transeunte Peter Larndorfer, de 34 anos, logo após o trabalho ter sido inaugurado na segunda-feira. “Mas talvez seja exatamente o que precisamos em um terreno com carga tão emocional.”

Durante os próximos oito meses, a artista escocesa Susan Philipsz usará o estranho som de dedos friccionados em copos cheios de água para lembrar os visitantes da anexação da Áustria pela Alemanha nazista há 80 anos. No dia 12 de março de 1938, os austríacos saudaram as tropas alemãs enquanto elas marchavam dentro do país, e três dias depois, dezenas de milhares na Heldenplatz saudaram Hitler enquanto ele se dirigia a eles da sacada do palácio.

As imagens de propaganda dos nazistas sobre o discurso triunfante de Hitler contra os alegres austríacos são infames e hoje aceitas como um retrato realista do estado de espírito do público na época. Mas o país demorou até o início da década de 1990 até admitir oficialmente que os austríacos haviam perpetrado crimes nazistas por sua própria disposição; após a guerra, o país era frequentemente mencionado como a “primeira vítima” de Hitler. Para muitos austríacos a “Anschluss”, como a anexação da Áustria ao Terceiro Reich é conhecida, continua sendo um assunto complicado.

“O primeiro transporte para Dachau ocorreu duas semanas após o discurso”, diz Philipsz, que ganhou o Prêmio Turner em 2010, a caminho da checagem final de som, em 9 de março. “Queria lembrar de todos aqueles que desapareceram, dar a eles uma voz”, disse ela, acrescentando: “dizem que o som do vidro é mais parecido com o som da voz humana”.

As Vozes foi encomendado pela Casa da História da Áustria, um museu planejado que contará a história da democracia austríaca (e suas interrupções). Está programado para abrir em novembro, perto do centenário do nascimento da república austríaca, dos horrores da 1.ª Guerra Mundial e do colapso do Império Habsburgo.

Monika Sommer, a diretora do museu, disse que a “sutileza e fragilidade” de As Vozes correspondeu ao seu museu querer ajudar o país a olhar para o passado: “Não queremos fazer acusações”, disse ela. “Queremos ter um olhar sensato sobre a história austríaca.”

Mas Sommer acrescentou que a tarefa de fazer isso estava ficando cada vez mais difícil. “Estamos vendo o antissemitismo e a xenofobia, de forma mais geral, tornando-se mais difundidos de novo”, lamenta.

Em dezembro, o Partido do Povo, conservador, e o Partido da Liberdade, de extrema-direita, formaram um governo na Áustria. Eles foram eleitos sob um programa anti-imigração em reação à crise europeia de refugiados. O acordo de coalizão das partes oficialmente afirma que a Áustria foi um perpetrador de crimes nazistas e denuncia o antissemitismo. Mas um político do Partido da Liberdade saiu em fevereiro, em um escândalo sobre um livro de canções antissemitas usado por sua antiga fraternidade universitária, e os seguidores do líder do partido no Facebook, Heinz-Christian Strache, o criticaram recentemente por falar sobre a cumplicidade da Áustria sob domínio nazista.

Obviamente, o governo do chanceler Sebastian Kurz manteve reservas sobre se ele vai ou não continuar financiando a Casa da História – iniciada pelo Partido Social Democrata de esquerda após décadas de debate – quando o orçamento atual do museu se esgotar em dezembro de 2019. “A discussão em andamento sobre o futuro do museu mostra que ainda é difícil falar e reavaliar a história do país”, disse Sommer.

“A arte de Susan não é abertamente política, mas isso não significa que seja apolítica”, disse Kasper König, diretor e curador do museu alemão, que aconselhou o museu sobre a instalação. Philipsz disse que ela nunca manifestou explicitamente ser uma artista pública. Tendo cantado em um coro como criança e estudado escultura, ela disse estar interessada “no que acontece quando você projeta o som para um espaço” – o que acontece com a pessoa que projeta, com o espaço e com o ouvinte.

Algumas de suas obras mais notáveis – como Planícies, instalada sob pontes em Glasgow em 2010; Estudo para Cordas na principal estação ferroviária de Kassel, na Alemanha, como parte da exposição de arte Documenta de 2012; e Instrumentos Musicais Danificados pela Guerra na Tate Britain de Londres em 2015 e 2016 – usaram vozes ou instrumentos para evocar em espaços públicos a sensação de perda e separação.

“Seus sentimentos de saudade ou melancolia muitas vezes estão colidindo com sons do ambiente”, disse ela. “E é exatamente através desses sons ambientais que você se torna muito consciente de onde está e quem está ao seu lado.”

Philipsz elogiou o museu por lidar com a política de bastidores e deixá-la continuar com seu trabalho. Ela visitou o local pela primeira vez em outubro e rapidamente deu de frente com a motivação do cristal de chumbo, em parte graças a alguns imponentes candelabros no palácio.

“Mozart passou muito tempo em Viena e compôs obras para a harmônica de vidro de cristal de chumbo”, disse Philipsz. Os aparelhos de rádio tinham elementos de cristal na década de 1930, e o rádio era uma ferramenta de propaganda vital para Hitler. “E, claro, houve a Kristallnacht”, disse Philipsz, referindo-se à noite de 9 de novembro de 1938, quando as sinagogas e empresas judaicas na Alemanha e na Áustria foram saqueadas. Foi uma erupção de ódio que ela também quer que As Vozes deixe na memória.

O museu queria uma obra de arte para fazer o público refletir sobre o discurso de Hitler no balcão, mas tomou o cuidado de não colocar uma escultura lá. Encomendar a obra a um artista de som resolveu o problema, mas a ideia original do museu de colocar todos os falantes de onde veio a voz de Hitler falou não funcionou para a Philipsz, pois mantinha muita atenção na sacada.

“Isso parecia estar errado – eu não queria que isso fosse sobre Hitler, mas sobre as vozes de todas as pessoas que se reuniram lá ao longo das décadas.” Então, ela também tinha alto-falantes colocados do outro lado da praça. Isso, no entanto, significava que As Vozes só poderia ser ouvido por 10 minutos duas vezes ao dia, às 12h30 e às 18h30, em deferência aos vizinhos.

“Eu pessoalmente acho o trabalho um pouco inexpressivo, mas teria sido inimaginável na Áustria até a década de 1990”, disse G. Daniel Cohen, um historiador da Universidade Rice, em Houston, atualmente em Viena, para escrever um livro sobre atitudes em relação aos judeus na Europa do pós-guerra. “Tais tentativas de reflexão nacional têm, no mínimo, forçado a extrema direita a aceitar a existência de um tabu contra o antissemitismo e a negação do Holocausto.”

Na terça-feira à hora do almoço, cerca de 50 pessoas estavam ouvindo perto da estátua do arquiduque Karl, um dos heróis que a Heldenplatz honra. “É uma experiência emocionante”, disse Dagmar Friedl-Preyer, 57, uma assistente social, que havia chegado à praça para ouvir o trabalho. “Você vê a sacada e pensa em todo aquele delírio ‘Anschluss’, o som faz tudo bem.” Seu amigo Josef Huber, um aposentado, disse acreditar que muitos austríacos viriam ouvir As Vozes. “O problema, é claro, são aqueles que não querem saber de nada disso – eles não virão ouvir”. / Tradução de Claudia Bozzo 

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