Artista marginal expõe robôs de destruição em Nova York

Artista marginal expõe robôs de destruição em Nova York

Mark Pauline chegou a ser preso por suas performances com máquinas

Daniel McDermon, The New York Times

13 Janeiro 2018 | 16h00

O artista performático Mark Pauline tem fama de criar o caos. Durante quatro décadas, seu Survival Research Laboratories conquistou devotos com grandes e violentas apresentações envolvendo robôs e máquinas gigantes feitos por encomenda. 

Seus espetáculos podem incluir um lança-chamas montado numa plataforma móvel do tamanho de um elefante, uma garra ameaçadora capaz de prender uma cabeça em suas pinças, ou uma lata de lixo cheia de vegetais apodrecendo. 

Agora, após anos de atuação quase marginal, Pauline traz suas máquinas para o mundo da arte estabelecida. Sua nova exposição, que vai até o dia 10 de fevereiro na galeria Marlborough Contemporary de Nova York, propõe-se a agredir menos, mas mantém-se tão espetacular quanto possível. 

Na inauguração, a Pitching Machine de Pauline arremessaria pranchas de madeira a mais de 300 km/h contra um recipiente de contenção onde se desintegrariam espetacularmente. 

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Denominada Inconsiderate Fantasies of Negative Acceleration Chacterizade by Sacrifices of Non-Consensual Nature, a exposição-performance é a primeira de Pauline em que obras serão vendidas. 

“Dizem que elas são um fenômeno no mundo da arte”, avaliou Pauline, referindo-se a suas criações. “Mas todo mundo vem me dizendo isso desde 1979.”

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Nesse, ele começou sua idiossincrática carreira de mestre da destruição e coreógrafo do bizarro, em performances às vezes não autorizadas. Restos de animais e explosões – intencionais ou não – costumam fazer parte das mostras. 

Com frequência as autoridades são envolvidas. No YouTube há um vídeo no qual um oficial dos bombeiros confronta Pauline após uma de suas performances, em 1992, no Museu de Arte Moderna de São Francisco. 

Entretanto, apesar de eventuais conflitos, o boletim de ocorrências de Pauline está praticamente intacto no que se refere à segurança, com apenas uma notável exceção: em 1982, uma explosão feriu a gravemente a mão direita do artista, cortando alguns dedos. 

Quando o empreendimento começou a crescer, Pauline passou a trabalhar com alguns assistentes, quase todos voluntários. As criações, na maioria feitas com material reciclável recolhido em lixos fábricas e laboratórios de empresas da região de Bay Area, viajaram com Pauline pelo mundo. Em 1999, ele criou uma conexão de internet para permitir usuários na Califórnia controlarem uma máquina em Tóquio. 

Apesar da aparência às vezes quase medieval dos equipamentos, Pauline os atualiza constantemente com tecnologia atual. Uma máquina que está na Marlborough Contemporary, o Track Robot, cuja primeira versão é de 1998, foi recentemente atualizada para ser controlada por um headset 3D chamado Oculus Rift. 

Para o diretor da galeria, Pascal Spengemann, que organizou a mostra, ela possibilita a um público ligado à arte global e talvez não familiarizado com o trabalho de Pauline conhecer suas máquinas ou apreciá-las como esculturas. “Há as apresentações operísticas, mas como são as máquina quando não estão funcionando?”, perguntou Spengemann.

A galeria não dá informações sobre o preço das obras. “Pôr preço em obras de arte é fácil e ao mesmo tempo difícil”, argumentou Spengemann. E acrescentou: “Mark passou décadas trabalhando em algumas dessas coisas.” 

Mesmo em meio à contracultura de São Francisco dos anos 1970 e 1980, o Survival Research Laboratories resistiu firmemente à comercialização. “Tudo no SRL resistia ao sucesso”, disse Adam Savage, do programa de TV MythBusters, que viu as obras de Pauline no início dos anos 1990 em São Francisco. 

“Por não cobrar o suficiente do público, Mark passava sempre um tempo na cadeia depois de cada exibição.” 

Savage recorda-se de haver uma certa sensação de perigo no ar em meio à mostra na época. “Parecia que, de repente, a sua vida estaria correndo perigo.”

A posição anticomercial de Pauline tem muito a ver com sua antiga experiência de fornecedor de equipamento militar: ele construía alvos mecânicos de 40 toneladas para pilotos da Força Aérea praticarem. 

Isso ocorreu em 1972, em plena Guerra do Vietnã, e incutiu nele um senso permanente de resistência ao mundo corporativo. 

“Só quero estar em meu mundo hermético, no qual não há comércio nem assassinatos, apenas brincadeira”, disse Pauline. 

As performances do Survival Reserch Laboratories geralmente levam nomes extravagantes, não convencionais, como Um Prognóstico Calculado de Desgraça: Episódios Nauseantes de Devastação Total Acompanhados de Sensações de Agradável Excitação. 

Elas também resistem a uma interpretação política banal, embora sejam resolutamente hostis à cultura corporativa e à narrativa linear. 

Pauline se esquiva a perguntas sobre o que seu trabalho significa, argumentando: “Sempre imagino que vivo num império stalinista, no qual tudo que ser faz precisa ser cuidadosamente velado para que ninguém saiba exatamente do que se trata.” / Tradução de Roberto Muniz 

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