Galeria Elizabeth Dee
Galeria Elizabeth Dee

Artistas húngaros ensinam a subverter governos repressivos

Exposição em Nova York resgata a arte da Hungria das décadas de 1960 e 1970, que desafiou a cortina de ferro

Karen Rosenberg, The New York Times

08 Julho 2017 | 16h00

Em 1972, o artista húngaro Tamas Szentjoby pôs uma cadeira na porta do Hotel Intercontinental em Budapeste, amordaçou-se com um cinto de couro e sentou-se. Vinte minutos depois chegou a polícia, como era de se esperar nesse país do Leste Europeu. Szentjoby chamou aquela rápida performance de Sit Out/Be Forbidden (Sente-se/Seja Proibido), em homenagem aos movimentos de protesto no estilo sit-in dos Estados Unidos e, especificamente, a Bobby Seale, membro dos Panteras Negras que poucos anos antes fora algemado e amordaçado após criticar o juiz durante seu julgamento sob acusação de incitar a violência durante a convenção democrata de 1968. 

A manifestação individual de Szentjoby foi relativamente bem comportada se comparada aos padrões ocidentais, ou àqueles da arte performática então em voga (1972 foi o ano da performance onanística Seedbed, de Vito Acconci, e no ano anterior Chris Burden havia convencido um amigo a dar um tiro no braço dele, Chris). Mas, para um artista trabalhando atrás da Cortina de Ferro, em um Estado que classificava as obras de arte como “apoiada”, “tolerada” e “proibida”, foi um ato de aberto desafio.

Para Szentjoby e outros de seu círculo, fazer arte consistia em grande parte em testar os limites da categoria intermediária, “tolerada” – saber até onde era possível ir sem ser interrogado, preso ou deportado (o próprio Szentjoby, mais tarde, o foi). Como se vê na esfuziante mostra With the Eyes of Others: Hungarian Artists of the Sixties and Seventies (Com os Olhos dos Outros: Artistas Húngaros dos Anos Sessenta e Setenta), na Galeria Elizabeth Dee, Harlem, Nova York, essa capacidade de desafiar foi desenvolvida não só por artistas performáticos, mas por conceitualistas e pintores abstratos. 

A reveladora mostra do Harlem, com comentários irônicos do curador convidado, escritor e consultor cultural Andras Szanto, nascido em Budapeste, e realizada com a colaboração de três galerias de arte da capital húngara, (abc, Kisterem e Vintage) não ficaria deslocada no Museu de Arte Moderna. Seu recado para estudiosos e curadores é de que a avant-garde europeia dos anos 1960 e 70 não está exaurida, especialmente no que se refere à Europa Oriental. E, para artistas deste país, a mensagem, menos tranquilizadora, é: “Prestem atenção nessas estratégias para voar abaixo do radar num regime repressivo – um dia talvez vocês precisem delas.”

Os artistas da mostra, a maioria debutando em Nova York, são exemplos de engenhosidade e resistência. Lutam para se manter em dia com o que acontece em Nova York, Paris e Colônia – devorando fotos e reportagens sobre eventos artísticos ocidentais, como a histórica edição da Documenta de 1968. O tom melancólico da exibição aparece especialmente nas fotos em preto e branco que ilustram trabalhos performáticos de Karoly Halasz, que pintou caixas de papelão com os nomes de galerias de vanguarda, como Leo Castelli e Margo Leavin, e depois prestou tributo a Robert Smithson com uma modesta recriação de Spiral Jetty às margens do Rio Danúbio. 

Essas criações rápidas, voltadas para eventos, foram moda, no espírito de happenings e do movimento Fluxus no exterior. Para os húngaros, foram também estratégicas, como Szanto assinalou numa seção da exibição intitulada Snapchat 1970, dedicada a rapidíssimos gestos de solidariedade política e artística. (Um deles é um documento mostrando closes de apertos de mão entre artistas num encontro numa cidadezinha, organizado pelo artista Laszlo Beke.)

Não havia mercado, portanto, eram poucos os incentivos para se produzir trabalhos vendáveis. O show relâmpago e a galeria do saguão não eram exceções atraentes, como são na Nova York de hoje: eram antes os pilares da cena de arte. Numa entrevista de catálogo a Nora Winkler, Szentjoby lembra: “Estávamos proibidos de nos reunir em público, mas eram permitidas festas em residências. Houve duas ou três numa semana. Essas festas foram a verdadeira forma de arte do período.” 

Isso não parecia um ambiente viável para a pintura. No entanto, ela sobreviveu, e mesmo prosperou, com grupos de artistas que fizeram da abstração geométrica seu santuário. A mostra da Dee inclui um espaço central de composições coloridas hard-edge de Imre Bak, Sandor Pinczhelyi e outros, trabalhos que poderiam estar ao lado de obras dos contemporâneos Frank Stellas ou Jo Baers. Entre os destaques estão o magistral SUN-OX-FACE, com seu abrangente arco temático evocando as asas abertas de um pássaro gigante, e uma peça de parede, tendendo mais para a matemática, de Dora Maurer, na qual uma simples moldura é fragmentada repetida e sistematicamente. 

Para aproveitar ao máximo essa mostra e suas rebeliões latentes, você deve mergulhar no catálogo (ou, pelo menos, nos textos das paredes). Contexto é a palavra-chave quando se lida com um mundo artístico que trabalha por meio de encontros clandestinos e apertos de mão secretos. Por exemplo, o tijolo pintado que compõe a obra de Szentjoby Czechoslovak Radio, de 1968, tem de ser visto à luz da invasão da Checoslováquia, vizinha da Hungria, pelo exército soviético naquele ano; também ajuda saber que os húngaros se referem aos dedos-duros do governo como “tijolos”. 

Mas o humor negro exibido por muitos desses artistas não exige tradução. Numa série de fotos intitulada Private Broadcast, Halasz se despe e engatinha dentro de uma caixa imitando um aparelho de televisão, olhando para a câmera com esgares de idiota e transformando o noticiário da TV estatal em espaço pessoal. Em outro local, Endre Tót desenvolveu uma série de rituais satirizando a burocracia e a propaganda, dando o nome de Very Special Gladnesses. Em um, ele aparece lendo Lenin; em outro, cutucando o nariz. As pequenas provocações desses húngaros lembram a artistas que trabalham aqui e agora, com todas as vantagens da liberdade de expressão, das amplas redes sociais e de um mercado global de arte, de que a comédia nada custa e pode significar tudo./Tradução de Roberto Muniz

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