Chiara Goia/The New York Times
Chiara Goia/The New York Times

Arundhati Roy retorna à literatura 20 anos depois de vencer o Man Booker Prize

Escritora indiana foi premiada com 'O Deus das Pequenas Coisas' em 1997 e agora publica 'O Ministério da Felicidade Absoluta'

Paulo Nogueira*, Colaboração para o Estado

07 Outubro 2017 | 16h00

Em 1997, com o romance de estreia O Deus das Pequenas Coisas, a indiana Arundhati Roy despontou como uma aurora boreal no céu da literatura planetária. O livro embolsou o Man Booker Prize, vendeu até ontem 10 milhões de exemplares e virou um clássico moderno. 

Pois bem: quando legiões de leitores salivavam pelo segundo romance, Roy deu uma banana para a ficção e se embrenhou até às clavículas no ativismo político e na não ficção (mais de dez obras). Com o novo século, a autora operou uma guinada ainda mais radical. Os atentados do 11/9 suscitaram nela uma epifania intelectual. Mais ou menos como a de Christopher Hitchens, que, deixando o papel de guru de uma esquerda cosmopolita e literata, formulou o conceito de islamofascismo e defendeu a invasão do Afeganistão e do Iraque. Roy foi na direção oposta – e botem antípoda nisso. 

Ela doou boa parte do dinheiro do best-seller (só o primeiro cheque foi de 1 milhão de dólares), conviveu na selva com uma guerrilha maoista (sim, nesta altura do campeonato!) e parou no xilindró por causa dos protestos contra a construção de uma barragem (é verdade que por apenas um dia e cem reais de multa). Obviamente, Roy não concorda com o aforismo de Borges, de que “a política é uma das formas do tédio”.

Agora, 20 anos depois, regressa à literatura com O Ministério da Felicidade Absoluta – título agridoce para uma obra cuja capa é uma lápide. Como o primeiro romance, também este enreda o pessoal e o político numa narrativa não retilínea, só que num painel de muito maior escala, abrangendo meio século e um amplo naipe de personagens. 

A história se enraíza em duas protagonistas. Anjum, que nasceu menino e se tornou uma Hijra (palavra em urdu para designar um transgênero), e acaba criando uma hospedaria num cemitério abandonado. E Tilo, uma arquiteta não-conformista que se envolve sentimentalmente com três colegas de faculdade e é sobretudo uma observadora desencantada: “Não podemos fazer nada a respeito da Caxemira. O que acontece lá não é sofisticado. Tem sangue demais para uma boa literatura.”

Talvez aqui esteja a chave deste esplêndido romance: tem muito sangue, mas não tanto que degenere num mera sofrência panfletária. Graças, quem sabe, às saudáveis e humanizantes contradições da própria Arundhati Roy, que lhe valeram cornetadas de Salman Rushdie (entre muitos outros). Militante feminista, Roy posou já cinquentona para a capa da revista Elle, se justificando com uma coqueteria sarcástica: “É o orgulho grisalho! Chegou a hora de as irmãs malvadas da Cinderela, que eram inteligentes demais para saírem de casa com um desconfortável sapato de cristal”. 

Há cinco anos entrevistei Roy para a Piauí, e a beleza outonal dela ainda deixava no chinelo muita Lolita. Mas, enquanto intelectual, pagou um preço por isso, sendo ridicularizada quando a revista People a elegeu uma das pessoas mais belas do mundo. Lembraram até que de ela tinha dado aula de aeróbica, cruz credo, no início de juventude. 

Todos estes matizes conflitantes talharam Roy, talvez como ninguém, para abordar o vespeiro temático que é a Índia (tematicamente, a Índia pode parecer um programa de índio). Há uns anos, era clichê a afirmação de que o Brasil constituía uma “Belíndia”, um monstrengo nacional em que se acotovelam o progresso de uma Bélgica e o atraso de uma Índia. Hoje, a própria Índia é uma Belíndia, com um rol de requintados Prêmios Nobel, crescimento econômico robusto e um mosaico alucinante de vicissitudes étnicas e culturais. Como o famigerado sistema de castas, que fatia a sociedade em miríades de guetos, cada um estigmatizando o outro, e todos desprezando os “intocáveis”. 

O novo romance de Roy, apesar dos horrores que revolve, não tem uma migalhinha de vitimização. Anjum, em vez de ficar chorando as pitangas, prefere peitar (com seus seios postiços) a gente machista que a rodeia. Não se reduz a uma carpideira nem a um boneco de ventríloquo das ideias edificantes da autora. Vira e mexe é desgraçada mas engraçada, cheia de defeitos, e usa a sensualidade como abridor de latas. O travestismo dela não se esgota numa modinha descolada – não se trata de uma santinha do pau oco (com trocadilho). Assim como o fervor ativista de Tilo, também nuançado: “Ao longo dos últimos anos, o campo de direitos humanos se tornou uma profissão perfeitamente respeitável e até lucrativa.”

Certo, nem sempre o arco dramático das duas protagonistas é coeso e convincente. Por vezes, ambas parecem fixadas na página como encantadoras borboletas mortas. A própria Anjum, aludindo à multidão que a habita, se descreve como “tudo e nada de uma só vez”. E personagens que são demais acabam por ser de menos. Mas é aí que, na hora H, entra em ação a prosa fulgurante de Roy, um banquete verbal tragicômico (com um laivo almodovariano), uma escrita quase sempre suntuosa, em beleza e densidade. Talvez a engajada Roy subscreva o “decadente” Oscar Wilde (no prefácio de O Retrato de Dorian Gray): “Não existe livro moral nem livro imoral. Os livros são apenas bem ou mal escritos.”

E é essa lucidez ficcional que desvia Roy dos maniqueísmos e da complacência das certezas absolutas. “Aquele cântico caxemiri (“Azadi”, ou liberdade) era mais que uma reivindicação política. Era um brado, um hino, uma oração. A ironia era, e é, que, se você coloca quatro caxemíris numa sala e pede que especifiquem o que exatamente querem dizer com Azadi, eles provavelmente acabarão cortando os pescoços uns dos outros” (pág 205). 

Daí que este mural cósmico consiga a proeza de atar – ainda que por um triz, aqui e ali quase caindo do cavalo –, o individual e o coletivo, o social e o íntimo, o instante e a História. Eventualmente, apelando para o que há de universal na condição humana: “Os seres humanos não são muito bons quando se trata de reconhecer a dor do outro”. Ou seja: a carapuça serve em todo mundo. Mas sobretudo, e como deve ser numa obra literária, graças ao texto alquímico de Roy. Na entrevista a Elle, a escritora disse: “Não sou religiosa no sentido convencional da palavra. Embora, como Proust, acredito que tudo é possível. O mais próximo que chego da oração é quando escrevo ficção”. Bom, não há dúvida de que as preces dela são ouvidas, ainda que pelo deus das pequenas coisas chamado Literatura. 

*Paulo Nogueira é autor, entre outros, do livro 'O Amor é um Lugar Comum' (Editora Intermeios) 

O Ministério da Felicidade Absoluta

Autora: Arundhati Roy

Tradução: José Rubens Siqueira

Editora: Companhia das Letras

488 páginas

R$ 65,90

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Arundhati Roy

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