Jorgi Burch/Divulgação
Jorgi Burch/Divulgação

As aventuras de um etnógrafo desencantado

Primeiro livro de ficção do antropólogo Pedro Cesarino traz personagem fracassado na profissão

Sérgio Medeiros*, Colaboração para O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2017 | 05h00

O antropólogo e tradutor Pedro Cesarino estreia na ficção com um romance satírico, Rio Acima, ambientado na região Norte do país, a mesma onde realizou exaustiva pesquisa de campo entre populações indígenas. Um dos frutos dessa passagem dele pela floresta é o denso estudo sobre xamanismo na Amazônia, Oniska, publicado em 2011. Merece ser igualmente citado o volume Quando a Terra Deixou de Falar, de 2013, que contém cantos indígenas na língua original e em tradução para o português, transmitidos ao autor por cinco especialistas marubo. Esse cantos e ritos indígenas são recriados livremente no romance de Cesarino. 

A busca por um homem oculto na selva é um dos temas míticos da literatura. No Coração das Trevas, de Joseph Conrad, e Viagem ao Fim da Noite (parte dele se passa na África), de Louis-Férdinand Céline, são exemplos clássicos do que é possível fazer com o tema. Cesarino o retoma em Rio Acima, ao narrar a viagem de um etnógrafo pela floresta, onde espera encontrar um sábio pajé já idoso. Não é a primeira vez que o protagonista realiza essa viagem, que promete ser longa; porém, nada mais o surpreende no “inferno” verde, embora o leitor perceba que esse mundo, à margem do Brasil que conhecemos, está em ebulição. “Lá não só os homens são histéricos”, como afirmou Céline sobre a desconcertante experiência de adentrar a mata, “as coisas também se metem a ser.” O protagonista de Cesarino, que é também o narrador do romance, é um caso inequívoco desse histerismo tropical. 

Magro, nervoso, insuportável, o etnógrafo recebe este conselho, pouco antes de embarcar na canoa que o levará ao grande pajé da aldeia: “Relaxa, vai dar tudo certo”. Porém, ele não conseguirá se recompor da irritação e não relaxará um minuto sequer enquanto estiver sentado na canoa que sobe o rio em direção à aldeia quase perdida que é o seu destino final. Reflete: “Fico pensando que essa viagem pode não ser a última, fico com receio de que seja, também, uma das mais longas e difíceis. Mas se for a última, o que farei depois?” Incerto quanto ao rumo da sua epopeia rio acima, o narrador vai fazendo revelações que nos permitem vislumbrar quem ele é por trás da máscara caricata e contraditória (ou inverossímil) de etnógrafo pós-moderno fracassado, ou fadado ao fracasso. Sua pesquisa é vista com extremo ceticismo por seus pares da universidade.

Numa cômica rivalidade com Claude Lévi-Strauss, considerado, entre os especialistas, o maior estudioso dos mitos ameríndios e chamado, no livro, apenas de “francês”, o etnógrafo brasileiro, sem ter ainda nenhum título publicado, se propõe a registrar a “versão mais longa, quiçá a mais completa da história do pegador de pássaro”, a fim de sobrepujar as versões resumidas do autor das Mitológicas. Suas ideias a respeito desse assunto são recebidas com desconfiança pelos professores mais velhos, e um colega da sua idade o ridicularizava perante todos, desqualificando com ironia seu projeto de pesquisa. Não bastassem essas disputas acadêmicas que infernizam sua vida, ao chegar ao seu destino, esgotado e trêmulo, o etnógrafo é ignorado por sua “mãe” indígena, que não vem recebê-lo no porto. Numa visita que lhe faz, tempos depois, provoca uma estranha reação nos moradores da maloca: todos começam a rir. “Estranho para os padrões de etiqueta que conheço: nunca jamais se ri de hóspedes”, reflete o perplexo e melancólico etnógrafo. E prossegue, com desencanto: “Mas serei eu ainda um hóspede?”

Desprezado aparentemente pela mãe indígena, que em outras estadas dele na floresta costumava recebê-lo com milho assado, o etnógrafo é o retrato patético do pesquisador em fim de carreira, embora esta sequer tivesse realmente começado. Um de seus ataques histéricos, quando pensa no irmão indígena que caçoa dele, é revelador e hilário: “Ri de mim porque não sei tirar o melhor pedaço de carne da cabeça do porco. Chega de porco. Cabeça de porco!, grito rápido no meio do terreiro, olho para a lua, respiro fundo e decido voltar”. Em razão de tudo isso, e dos frequentes acessos de febre, sente-se às vezes reduzido à condição de fantasma, mas, entre canções e narrações míticas, recriadas com mestria por Cesarino, algo ele consegue afinal captar, entre recusas obstinadas e risos de escárnio: a versão longa do mito, tão ansiosamente buscada. Mas o que fazer com ela? 

Jorge Luis Borges, num de seus poemas em prosa, O Etnógrafo, relata a estada na pradaria, entre tribos do Oeste, de um jovem pesquisador norte-americano que se propôs a estudar ritos esotéricos. Ao retornar à sua universidade, dois anos depois, ele afirmou a seu orientador que agora que sabia o segredo dos ritos, decidira não o revelar, porque o segredo não valeria o que valem os caminhos que a ele o conduziram. Quanto ao etnógrafo brasileiro, que distribuía bolachas às crianças e miçangas às mulheres, não lhe restará sequer a possibilidade de retornar ao Sudeste, seu lugar de origem, mas, mesmo assim, ele encerrará sua epopeia amazônica de forma não menos surpreendente. 

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