As cruzes do gabarito

As cruzes do gabarito

Somos um povo cansado de responder. A educação só liberta quem aprende a perguntar

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo

15 Novembro 2014 | 16h00

Passados os momentos de ansiedade do Exame Nacional do Ensino Médio - Enem 2014 - já é hora de uma primeira reflexão sobre esse momento decisivo na vida de milhões de jovens brasileiros. De modo geral, no noticiário os aspectos folclóricos e irrelevantes do acontecimento prevaleceram sobre as questões substantivas com ele relacionadas. Muito destaque se deu para os que se atrasaram e perderam o exame, o destino adiado e talvez interrompido. Nenhum destaque, porém, para a imensa maioria que zelosamente incluiu no roteiro de sua preparação o cuidado com a serenidade do espírito e a prudência com a questão dos horários. Não temos nenhum apreço pelos cumpridores do dever, pelos que se esforçam para executar pontualmente e completamente as obrigações que a todos cabem na trajetória da vida. Não temos nenhuma admiração pelos que se devotam a seus compromissos como missão, como dever de cada um para com o destino de todos e não só com o interesse próprio. É disso que se trata quando nos submetemos às provas que nos habilitam a dar o passo seguinte em direção ao mundo responsável dos adultos. 

Rimos dos que se perdem no caminho ou dos que se deixam ficar, o que só por acaso não ocorreu com os vitoriosos. Heróis do acaso, gostamos de ter pena e até precisamos de vítimas das adversidades para nos justificarmos quanto ao menos que fizemos em relação ao muito que poderíamos ter feito. Fazemos do fracasso alheio o prazer do nosso triunfo relativo. Daí a descabida importância das cenas de jovens correndo para atravessar o portão que se fecha ou se dependurar na cerca intransponível que se ergue em seu caminho. Estão entre os sem sorte na multidão dos supostos sortudos, os que chegaram em tempo para fazer a prova, para completar a travessia da escola média, até mesmo para ingressar numa escola de terceiro grau ou numa escola superior ou, quem sabe, na universidade. 

No entanto, entre os que atravessaram em tempo essa barreira física e simbólica, há histórias épicas que desconhecemos e pelas quais não nos interessamos. Podemos adivinhá-las nos flagrantes cheios de significados das muitas imagens que ilustraram a saga daqueles cujas faces e cujos gestos ficaram nos instantâneos dos periódicos e da TV. São os examinandos de mais idade, cujas fotografias vimos e nos falam de biografias de esforço, de gente que não sucumbiu às tantas armadilhas da vida, às muitas adversidades, à demagogia dos discursos baratos contra o diploma, gente que não aceitou ficar para trás, gente que estudou trabalhando, que se privou dos pequenos e ilusórios prazeres de que dispôs quem desistiu, ou quem não insistiu, ou nem mesmo tentou. São os vários que em cadeiras de rodas atravessaram os portões dos lugares do exame empurrando-se corajosamente sobre as barreiras demarcatórias das grandes passagens da vida, os que não temeram pontes estreitas sobre largos abismos e as cruzaram. 

A predileção pelos episódios de fracasso não nos permitiu ver a beleza azul da esperança de milhões de jovens que não se renderam às tentações deste cenário de pessimismo, de desalento, de falta de perspectiva em que estamos mergulhados nestes tempos cinzentos de intenso calor e pouca perspectiva. A vida e o destino medidos e demarcados pelas quadrículas de um gabarito que diz quem passa e que diz quem fica, quem tem amanhã e quem tem apenas o ontem ou, quando muito, o hoje.

Os 2,5 milhões que se inscreveram e não vieram, os que partiram e não chegaram, o que quiseram dizer-nos ou, mais que tudo, dizer a si mesmos? Os que não atravessaram os muitos portões que em diferentes pontos do País se fecharam às 13h do horário de Brasília, conforme foi anunciado, horário que mais nos fala de poder do que de saber? O que nos dizem seu silêncio e sua ausência? Que estranho caminho é esse em que tantos se perdem, tantos ficam, tantos não passam? E os gabaritos de cruzinhas disfarçadas no preenchimento a lápis das quadrículas de respostas, que crucificam mais do que redimem do peso provisório da adolescência, que encolhem sonhos, que encerram esperanças? Que saber revelam as cruzes dos gabaritos, que saber escondem? Que calvário é esse atravessado no meio do caminho do começo da vida? O que sabem os que fazem as cruzes nas quadrículas certas? O que sabem os que as fazem nas erradas? Em quais se esconde o destino das novas gerações? E o Brasil, em que quadrícula está sua cruz? Em que dissertação está sua voz? Que Brasil é esse que passa na prova? Que Brasil é esse que a prova reprova? Quem educará o educador? Somos um povo cansado de responder a uma escola que insiste em não nos ensinar a construir a poesia da pergunta. A educação só liberta quem aprende a perguntar. 

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José de Souza Martins é sociólogo e professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Autor, entre outros livros, de Uma Sociologia da Vida Cotidiana (Contexto)

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