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As reticências de Mariam

Viúva do pensador palestino Edward Said, Mariam não viveu à sombra, mas ao lado dele, de suas ideias e de seu otimismo

Juliana Sayuri / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2016 | 16h00

No 12º andar de uma esquina charmosa da Riverside Drive, a poucos passos da Columbia University, Mariam Cortas Said fazia chá inglês e biscoitos. De manhã, prefere café e The New York Times. “Vim para Nova York pela primeira vez em 1967, como estudante. Em 1968, conheci meu marido – primeiro, meu amigo. Em 1970, nós nos reencontramos em Beirute. Namoramos, noivamos e mudamos de vez para Nova York. Enfim, é isso. Minha história não tem muito glamour”, disse a elegante senhora septuagenária, vestindo preto e um casaco felpudo marrom. De fato, não é uma questão de glamour. É mais.

A viúva de Edward Said (1935-2003), um dos mais importantes intelectuais da história contemporânea, é uma mulher discreta, de poucas palavras e personalidade forte. “Não sou muito jovem”, disse, esquivando-se da pergunta sobre sua idade e encaixando a xícara de chá amargo na mesinha de madeira onde se destacavam livros dos dois filhos: Crime & Terror, do crítico Wadie Said, e Looking for Palestine (Procurando a Palestina), da atriz Najla Said – neste último, a filha lembra a adolescência privilegiada que viveu no Upper West Side e a busca por uma identidade árabe na juventude, muito inspirada pela mãe, Mariam, retratada como uma mulher inspiradora, culta e bela.

Nascida no Líbano, Mariam vive sozinha num apartamento amplo, repleto de livros e retratos de família. Não fuma, mas mantém ao lado de uma poltrona rouge um cantinho com uma dúzia de cachimbos de madeira que pertenceram a Edward. “Não sou uma escritora. Mas, sim, sou uma intelectual, na definição de Edward (no clássico ‘Representações do Intelectual’, de 1994). Sou uma mulher de ideias e de letras, envolvida nas questões de nosso tempo.”

Mariam não é festejada como Edward ou fotografada como Najla – e é fácil imaginá-la como mera coadjuvante de uma família estrelada. Mas era ela a “âncora” da casa, na expressão do próprio pensador palestino. “Não vivi atrás de Edward, mas a seu lado. Cresci em uma família libanesa muito progressista que valorizava o direito da mulher a uma vida própria. Assim, tive uma vida só minha. Estudei, fiz mestrado, trabalhei, viajei, voltei. Ao lado de Edward, criei dois filhos e construí um lar. Era nossa vida”, pontuou Mariam.

Difícil é mensurar a importância de uma “âncora” em mares turbulentos como os de um Edward exilado, que descrevia o exílio como uma fratura terrível e uma tristeza insuperável (outro clássico, Reflexões sobre o Exílio e Outros Ensaios, de 2001). “Confesso que fico orgulhosa ao pensar que minha presença tenha ajudado Edward a escrever os livros tão importantes que escreveu”, adicionou, adicionando uma colher de açúcar à xícara de chá.

Em 2009, Mariam tirou da gaveta as memórias de sua mãe, Wadad Makdisi Cortas (1909-1979), e publicou A World I Loved: The Story of an Arab Woman (Um mundo que amei: a história de uma mulher árabe), que conta como a família atravessou os acontecimentos que fragmentaram o Oriente Médio no século passado. A Wadad, Mariam atribui sua formação feminina progressista. “Ah, a condição feminina... Toda história tem diversos lados. Se vejo da perspectiva árabe, lamento os retrocessos para as mulheres no Oriente Médio, confinadas em uma identidade islâmica proselitista e repressiva. No tempo da minha mãe e na minha juventude no Líbano, nós éramos encorajadas a estudar, éramos mais ousadas para buscar justiça e liberdade. Escrever, ler, lutar por direitos iguais. Cresci num Líbano liberal e cosmopolita onde ninguém usava o véu. Ter filhos ou não ter não era um empecilho para estudar – e só se é livre neste mundo se tiver ideias próprias”, afirmou Mariam, emendando: “Mas se vejo da perspectiva americana, as mulheres avançaram muito, conquistaram muitos direitos nas últimas décadas. Ainda assim, enfrentamos situações muito desiguais: basta lembrar como é desigual a condição de uma mulher rica e uma mulher pobre. Contudo, não penso que, por ser mulher, precisamos eleger uma mulher...”, disse, deixando reticências sobre suas apostas na próxima disputa presidencial americana.

“Não sei se me considero uma feminista, pois não sei qual é a definição do feminismo hoje. O movimento engloba uma variedade imensa de questões – e detesto caixinhas e clichês. O que posso dizer é que sou uma mulher progressista, independente e cosmopolita. Uma humanista.”

Dias atrás, Mariam terminou de ler as memórias de Svetlana Alliluyeva (1926-2011), a filha de Stalin que desertou da União Soviética, e viu o filme As Sufragistas, de Sarah Gavron. Duas histórias de mulheres interessantes, diz, se detendo num “detalhe”: “A Inglaterra aprovou o sufrágio universal em 1918, e as letrinhas no fim do filme mostram as datas de outros países. Estados Unidos, 1920. França, 1945. E depois um salto cronológico: Jordânia, 1974; Qatar, 2003; Arábia Saudita, na expectativa de 2015. O que aconteceu no meio tempo? Ora, as mulheres conquistaram o direito de votar no Azerbaijão em 1921, na Síria em 1949, no Líbano em 1952, no Egito em 1956. Antes da Suíça, em 1971! Mas nenhuma menção é feita a um Oriente Médio moderno. Por quê? Porque essa parte do mundo não interessa, afinal, não conta. É uma terra de bárbaros, não é?”, criticou Mariam, invocando mais um clássico de Edward, Orientalismo: o Oriente como Invenção do Ocidente, de 1978. “A questão é muito contemporânea. E o ocidente continua construindo uma ideia equivocada das mulheres árabes que, assim como o Islã, não se resumem a um só tipo.”

O chá esfriou. “O tempo passa”, Mariam lembrou, lamentando mais uma vez a distância de sua juventude. Atualmente à frente de duas instituições (a Barenboim-Said Foundation e a West-Eastern Divan Orchestra) e integrante de diversas outras iniciativas culturais, Madame Said viaja muito para Beirute, Berlim e Buenos Aires. “Compromissos”, definiu, ponderando o cansaço das viagens breves pautadas por reuniões, encontros, entrevistas.

Em Beirute, visita a família libanesa. Em Berlim e Buenos Aires, acompanha atividades da orquestra fundada em 1999 por Edward Said e o amigo maestro argentino Daniel Barenboim, de ascendência israelense e residência alemã. Nos últimos tempos, em Genebra, as Nações Unidas deram à West-Eastern Divan Orchestra a pomposa designação United Nations Global Advocate for Cultural Understading (algo como “defensora global das Nações Unidas para a tolerância cultural”).

Idealizada nas discussões amigáveis entre o palestino Said e o judeu Barenboim reunidas no livro Paralelos e Paradoxos, publicado pela primeira vez em 2002, a orquestra nasceu num workshop com músicos árabes e israelenses em Weimar. “O projeto significava muito para Edward. A certo ponto, ele a considerava o legado mais importante de sua vida: reunir árabes e israelenses na mesma clave e no mesmo ritmo, como um diálogo direto e franco, falando a mesma língua, a música”, definiu Mariam, segundos antes de subir o tom num fôlego só: “O conflito se prolonga com injustiças dos israelenses oprimindo os palestinos. Desde 1948, não foi feito nenhum esforço de fato para resolver o impasse. E, se lembro das páginas de Orientalismo e da equivocada ideia de choque de civilizações, penso: só estamos onde estamos por causa da estupidez das ações americanas no Golfo, em 1990, e depois no Iraque, em 2003. A América destruiu o Oriente Médio, incitando divisões étnicas por uma fatia gorda de petróleo. Depois das invasões, os americanos deixaram armas para trás, que foram parar nas mãos de mercenários, generais e gângsteres que formaram o Estado Islâmico. História similar aconteceu na Síria e na Líbia. E quem paga? O povo, que se tornou uma multidão de refugiados que agora precisa bater à porta da Europa para mendigar a simples sobrevivência.”

Mariam voltou a se acomodar na poltrona. “O mundo que eu amei...”, suspirou, lembrando o título poético do livro de sua mãe. “Questionei várias vezes os limites do Líbano, como muitas mulheres da minha época.” De um lado, Mariam nutria um sentimento de “lar” no país; de outro, queria conhecer outras culturas, outras realidades. “Mas não tenho arrependimentos, não agonizo sobre o passado. Olho para o futuro. E o mundo que eu amaria... Sei que não posso mudar o mundo inteiro. Se pudesse, mudaria a injustiça provocada pela desigualdade, o que na verdade mudaria tudo”, opinou.

Discreta e muitas vezes reticente, Mariam se apaixonou por Edward e por sua paixão pela Palestina. Edward a deixou em setembro de 2003, após anos de luta contra a leucemia. Foi enterrado em uma montanha diante da floresta de Broumana, em uma vila onde Mariam cresceu e onde juntos passavam os outonos. Mas Mariam mantém vivos o legado de Edward e a luta da Palestina. “Edward era um otimista. Sempre tentava encontrar uma brecha que fosse para ter uma pontinha de esperança. Pouco tempo antes de sua morte, Bush decidiu invadir o Iraque – e na época Edward foi convidado para fazer conferências no Cairo e em Beirute. ‘O que é que você vai dizer?! Os americanos estão invadindo o Oriente Médio!’, eu perguntei. E ele respondeu: ‘Pois eu vou falar sobre humanismo. Esperança sempre, lembra?’ Edward acreditava na humanidade e na possibilidade de mudar o mundo a partir dela. Nisso, concordo inteiramente.” Mariam arrematou o último gole de chá. Sem reticências.

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